Retina Desgastada
Idéias, opiniões e murmúrios sobre os jogos eletrônicos
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16 de dezembro de 2011

Destino: Lua

"Eles acendem suas luzes para os outros faróis, e para mim."

River

To The Moon - Cover No último minuto antes do final de To The Moon eu senti um grande aperto no coração. Não apenas porque sabia exatamente o que ia acontecer a seguir. Todas as surpresas já haviam sido lançadas. Não apenas porque sabia que estava prestes a ver a concretização das cinco horas de aventura que havia atravessado, a culminação de uma missão muito especial. Não apenas porque eu sabia que depois de terminado tudo, eu teria a ingrata tarefa de convencer você de que este título é muito provavelmente diferente de qualquer outro que você já conheceu. A árdua tarefa de expressar em palavras aquilo que o gênio Kan "Reives" Gao construiu usando ferramentas toscas e um profundo amor pela narrativa.

Eu senti um grande aperto no coração, porque iria me despedir de Johnny.

E de River.

E da Lua.

Em um futuro indeterminado, a ciência descobriu um método de influenciar as memórias de um indivíduo e fazê-lo acreditar que realizou seu maior sonho. Infelizmente, a técnica provoca conflitos com as memórias verdadeiras e só pode ser utilizada em pacientes terminais. O trabalho dos doutores Eva Rosalene e Neil Watts é entrar na mente daqueles que estão em seus últimos momentos e alterar suas memórias, para que eles possam partir com a sensação de extrema felicidade. Em To The Moon, a obra-prima da Freebird Games, a dupla de especialistas precisa atender ao último pedido de Johnny, um homem idoso em seu leito de morte. Seu desejo: ter ido à Lua.

Rosalene e Watts então mergulham nas memórias de seu paciente, desdobrando sua vida de trás para frente, descobrindo suas motivações passo a passo e entrando em contato com uma história de profundo impacto emocional. Com extrema delicadeza, o título aborda temas tão pesados quanto a inevitabilidade da morte, a sobrevivência do amor, a dor da doença mental, traumas que se propagam como ondas e coisas que foram ditas que não deviam ter sido ditas. Acima de tudo, paira o mistério. Por que motivo Johnny deseja que tivesse tido a oportunidade de ir até a Lua? Por que coisas aparentemente sem sentido carregam um significado tão marcante? As respostas estão nesta jornada e ninguém sairá dela da mesma forma que entrou, jogador e personagens.

A Narrativa Acima de Tudo

Em três parágrafos, eu não usei a palavra "jogo" em momento algum. Porque To The Moon não é um jogo. Não há desafios, não há escolhas, não há enigmas, não há reflexos coordenados. É impossível perder. É impossível travar. Mesmo eu, o pior jogador de adventures do planeta, não fiquei atrapalhado em momento algum. A experiência criada por Kan "Reives" Gao é uma história contada a partir da linguagem dos jogos eletrônicos, mas não é um jogo. A ação do espectador não difere do virar da página de um livro, de avançar os diálogos ou posicionar os personagens no lugar certo no palco. Gao nos convida a assistir e domina a cena com precisão de mestre. Ainda não foi desta vez que alguém poderá dizer sem ser rebatido que jogos são uma forma de Arte.

Mas, se To The Moon não é um jogo, o que é? É algo inédito para mim. É algo anos-luz à frente de seu tempo, uma narrativa multimídia capaz de usar o conceito da jogabilidade como um assistente. Quando você corre de cavalo pelo campo, a jogabilidade está ali a serviço da construção de um momento de vivacidade. Quando você procura pistas, a busca está ali a serviço da exploração espacial de uma história que se espalha. Quando você "enfrenta" inimigos no jogo, o confronto é uma metáfora, uma chamada de ação para um dos instantes mais tensos de seu conto. Ao contrário de um jogo, onde a jogabilidade ocupa posição central ou com o mesmo peso da narrativa, em To The Moon ela é habilmente usada como um complemento em segundo plano. Gao transforma as regras daquilo que conhecemos como jogo em um instrumento de sinergia, amplificando a capacidade de imersão da forma que um filme ou livro não seria capaz. Acredite: quando os cavalos correrem, você irá correr junto.

Dr Watts

Curiosamente, a história que poderia facilmente escorregar em direção ao dramalhão forçado, consegue equilibrar em seus pratos grandes doses de humor ingênuo, romance, suspense e ficção-científica, sem exagerar para nenhum lado. As intervenções cômicas do doutor Watts são um contraponto delicioso para o que seria uma soturna descida aos porões da memória. E o que seria um personagem de alívio cômico ganha força e personalidade próximo do fim: ele é mais do que um veículo de referências pop e tolices. Nada em To The Moon é definitivo e cada novo fragmento da vida de Johnny revelado compõe um quadro maior que não se poderia imaginar a princípio. E o motor de tudo... o motor de tudo é uma das mais belas histórias de amor já concebidas.

Tudo isso, usando apenas o RPG Maker XP.

Não importa o tipo de instrumento que se tenha nas mãos, desde que se saiba como usá-lo.

A Música Acima de Tudo

Lighthouse Se a 'jogabilidade" é uma ferramenta na mão direita de Gao, em sua mão esquerda está a música. Raros são os títulos onde a música exerce um poder de releitura tão poderoso quanto aqui. Como uma ópera moderna, cada faixa da trilha sonora está intimamente atada a seus atos. Remova o som de To The Moon e você perderá metade da experiência. Aumente o volume e ela te levará a cantos remotos no coração do Homem.

Desde o primeiro acorde da faixa-título, até seus últimos minutos, a trilha marca o tempo e insinua detalhes. Como esquecer a mais antiga memória e sua música? Como esquecer a "batalha" nos corredores do colégio? Como esquecer o momento mágico onde a trilha instrumental abre espaço para a magnífica voz de Laura Shigihara, que empresta letra e candura à música-tema? Como não perceber a ausência da música no epílogo após os créditos?

Não por acaso, a trilha de To The Moon está à venda separadamente. Pelo preço sugerido de 5 dólares canadenses (menos de oito reais), você pode baixar as 31 faixas compostas por Gao em alta qualidade. Como um toque final de sensibilidade, metade do valor arrecadado será destinado a uma instituição de caridade de apoio ao autismo.

Acima de Tudo, Lua

To-the-Moon

Por tudo isso, To The Moon ganhou seu lugar na minha lista de favoritos. É o primeiro título indie a conquistar a façanha e o quarto membro adicionado em 2011, um excepcional ano depois de dois anos seguidos sem nenhuma adição. Foi o primeiro jogo que eu levantei e abracei minha esposa depois de terminar, chorando como uma criança na cozinha.

To The Moon é isso: um grande aperto no coração que apenas tem a fachada de jogo. Ele na verdade é sonho, é dor, é uma história contada ao lado da fogueira por um mestre.

Com enredo criado por Kan "Reives" Gao e música composta por Kan "Reives" Gao, não há como negar que To The Moon é um trabalho autoral. Com o infame RPG Maker XP fornecendo a comodidade da programação, a Freebird Games se torna uma extensão do trabalho de um mestre da narrativa do novo milênio. Aparentemente, To The Moon é apenas o começo de seu vôo: ao final dos créditos, fica claro que este é o Episódio Um. Se a doutora Eva Rosalene ou o Doutor Neil Watts aparecerão novamente, ninguém sabe. Se a próxima trama envolverá o mesmo conceito, ninguém sabe.

Mas a Lua não é o limite.

To-the-Moon-02

Ouvindo: Nick Cave - Blind Lemon Jefferson
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16 comentários:

Jimmy666 disse...

Fica claro que existe muita gente capacitada, verdadeiros gênios por aí!
Talvez se tivesse colocado essa história em um livro, não teria tanto sucesso!
Aí que entra a mente de um gênio, de garimpar ouro onde a gente só vê pedra.
Se o cara fez isso no RPG maker, imagina o que poderia fazer se tivesse acesso à recursos e ferramentas adequadas?
Só fiquei na ânsia por mais detalhes:
O jogo é apenas texto ou as falas são dubaladas por atores?
É gratuito, ou é vendido?

C. Aquino disse...

As falas não são dubladas, não. É texto puro mesmo. E também não é gratuito; na verdade, é até caro perto de tantos Bundles e promos que estamos acostumados. Mas, perto da maravilha que o jogo é, o preço de 24 reais não é tão alto assim.

Raphael AirnMusic disse...

Já estava de olho nesse, tá na wishlist há algum tempo =)

Valeu pelo review Aquino, parece excelente como eu imaginava.

Agora estou preso no mundo de Limbo (que também é altamente recomendado hein!), logo que terminá-lo eu vejo esse aí.

Marcos A.T. Silva disse...

Interessante como o pessoal consegue fazer muito com pouco. Esse game despertou minha curiosidade desde quando você o citou pela primeira vez.

Sério candidato a entrar na minha wishlist. E que ideia original essa, hein?

Jimmy666 disse...

Limbo, Braid, Trine e outros são bons jogos indie, mas acho que são meio superestimados...
Realmente vi na página da loja que o jogo custa quase 24 reais, meio salgado pra um título indie.
Vou ver se acho piratex pra ver como que é!

Valber disse...

Agora me sinto obrigado a ir atrás desse jogo, apesar de nao ser exatamente um jogo, heheheh. Parece ser uma forma brilhante de se contar uma bela historia. E fico feliz por todo o reconhecimento que esse jogo esta tendo, competindo em premiações com os "Blockbusters" dos jogos. Confesso que tive um certo preconceito ao ver que foi feito com RPG maker, mas ao ver que a "jogabilidade" foi usada apenas como uma ferramenta para se contar uma historia, vou dar uma chance ao To the Moon, com toda a certeza! Quem pensa que so os jogos "next Gen" merecem atenção talvez vejam esse jogo com desprezo... pelo preço, ele bem pode ser considerado mais como um conto ou novela interativa do que como jogo, entao ta valendo!

So uma pergunta, Aquino. mais ou menos em quanto tempo vc concluiu?

C. Aquino disse...

Demorei cinco horas. Foi tão curto e tão impactante que propus a minha esposa que a gente "jogue" junto durante as férias dela e ela topou!

Shadow Geisel disse...

Aquino, esse jogo parece ser lindo, em todos os sentidos que a palavra pode ter. eu acho que ele causa a mesma sensação que jogos como Flower e Shadow of the Colossus.
pena que não tenho acesso a jogos de computador. queria muito jogar esse aí, assim como flower e limbo, mas ainda não tenho meios de fazer os downloads oficiais. pirata eu não jogo. então, só me resta sonhar olhando para a lua...

Breno disse...

As vezes as pessoas fazem muitas conceções em torno de dilemas morais Shadow! se vc não tem como comprar o jogo via internet,pirateie ele e veja uma forma de contribuir pros desenvolvedores!

Manda o dinheiro pra Aquino que ele compra uma copia pra tu,rsrs!

Quanto aos meritos do jogo em si,a presenca de uma história de interessante é sempre bem vindo,mas a ausencia de gameplay acaba sendo decepcionante! Ainda fico com Betrayal at Krondor como um dos jogos com melhores narrativas ja feitas,sem deixar de ser um otimo jogo!

Jimmy666 disse...

Já gastei muito dinheiro com jogos e já baixei muito jogo pirata!
Não sou rico, e pra mim desembolsar dinheiro do meu suado trabalho às cegas pra depois me arrepender nem pensar!
Exemplos:SKYRIM paguei U$59,99, na fatura do meu cartão saiu por R$114,00... joguei umas 60 horas, o jogo é maravilhoso mas já meio que me aborreceu.
Deus EX HR tb comprei na pré-venda, depois de umas 40 horas de uma campanha fabulosa, desisntalei e uma hora pretendo zerar de novo.
Crysis 2 - Comprei por um preço legal, joguei pouco o single-player e o multiplayer não me convenceu.
Dead Space 2- Depois de me maravilhar com o DS pirata, tb comprei esse na pré-venda...multiplayer ridículo e single player "mais do mesmo"...
Apesar de todos os títulos acima serem AAA, me arrependi de ter pago o preço que paguei por cada um deles, será que valem tudo isso que cobram?
Killing Floor paguei 5 dólares e já passei das 170 horas de jogo, custo-benefício magnífico!
Não estou dizendo que KF seja um jogo melhor ou pior que os acima, mas o custo-benefício sim é muito maior!

Eder R M disse...

Sensacional.

E sobre seu comentário, Aquino, "É o primeiro título indie a conquistar a façanha e o quarto membro adicionado em 2011, um excepcional ano depois de dois anos seguidos sem nenhuma adição." não acho muito, digamos, justo da sua parte (com os anos em questão), pois me parece claro que em geral vc espera o e tempo passar e os games ficarem mais baratos e assim, imagino que há "lacunas" na sua linha do tempo (como o FO3 que você jogou apenas neste ano!).

2010 pra mim, por exemplo, foi um grande ano em função do Fallout New Vegas e Alpha Protocol. Além de outras surpresas, como o também indie Amnesia. Ou mesmo o Mass Effect 2, apesar de não ser um favorito, é inegavelmente um excelente jogo mainstream.

E os indies estão cada vez mais me atraindo. Mais uma mostra para a indústria "AAA" de que apenas rios de dinheiro não compram talento e criatividade.

Eder RM disse...

CITAÇÃO de Jimmy666:
"Não estou dizendo que KF seja um jogo melhor ou pior que os acima, mas o custo-benefício sim é muito maior!"

Bom, pra mim, "custo benefício" depende muito, mais muito mais da qualidade do que da quantidade. Depende muito mais da experiência do game e do que vou carregar dele comigo para a vida (ou seja, do que pode verdadeiramente ser chamado de arte) do que das horas que passo jogando.

Por exemplo, o Bordelands, que comprei numa promoção, gastei dezenas de horas jogando, pois é bem divertidinho e viciante, até que enjoeei completamente e tenho certezxa absoluta de que nunca mais vou jogá-lo novamente.

Já jogos com conteúdo que me cative, mesmo pagando caro (e/ou sendo de curta duração), nunca acho que "desperdicei" dinheiro, pois além de invariavelmente jogar de novo no futuro, guardo as memórias únicas que me proporcionou(assim como um livro ou filme favorito).

Breno disse...

"Mass Effect 2, apesar de não ser um favorito, é inegavelmente um excelente jogo mainstream."

Pra quem não jogou um jogo sci-fi melhor,talvez.

Jogos como Freespace e Outcast preenchem formidavelmente as lacunas que ME2 falha,como batalhas espaciais e exploração de ambientes alieniginas!Depois de eu jogar esses jogos,não me vejo voltando a jogar a serie ME nunca mais!

FrankCastle disse...

Ótima análise, parabéns! Terminei o jogo hoje e gostei muito! Ele condensa em sua grande parte o que alguns RPGs de SNES tinham em alguns momentos específicos.

Nulagem disse...

Comprando... você teria mais alguma dica de jogos adventure-indies que possam ser interessantes como esse?

C. Aquino disse...

Nulagem, To The Moon é único em seu nicho, com pouquíssimos elementos de Adventure. Não conheço outros na mesma linha para recomendar...

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