Retina Desgastada
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11 de dezembro de 2021

(não) Jogando: Fights in Tight Spaces

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(publicado originalmente no Gamerview)

O filme Capitão América: Soldado Invernal trouxe uma cena memorável: a segunda melhor luta em um elevador que eu já assisti nessa vida (o primeiro lugar continua pertencendo a Duro de Matar: A Vingança). Em um espaço extremamente limitado, o supersoldado Steve Rogers derruba, com golpes precisos, meia dúzia de truculentos traidores armados. Se você viu essa cena e pensou como seria legal calcular as chances daquilo acontecer, Fights in Tight Spaces entrega.

Se eu apresentei logo no parágrafo inicial três links para vídeos para YouTube, essa também é outra característica marcante do jogo: seu forte apelo cinematográfico. Embora os combates aconteçam por turnos, as animações dos modelos são muito fluidas e o jogador pode conferir, através de um replay no final da fase, toda a coreografia acontecendo diante dos seus olhos sem a pausa. É lindo o balé da violência.

Chutando Bundas

Em um primeiro momento, Fights in Tight Spaces pode remeter a Superhot, com seu visual minimalista cheio de estilo, com um traçado preto e branco e o uso esporádico das cores, principalmente o escarlate do sangue jorrando (se isso te incomoda em um violento jogo em que se espanca pessoas, o elemento pode ser desativado). Além disso, esse jogo não exige reflexos de ninja como um Hotline Miami e seus movimentos decisivos. Um paralelo mais certeiro seria com Into the Breach.

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O desafio aqui acontece no cérebro e não nos dedos e é perfeitamente possível atravessar os capítulos usando apenas uma mão, enquanto se lancha com a outra, o que o torna o jogo perfeito para aquela pausa do cafezinho ou aquele telefonema chato. Fights in Tight Spaces também seria uma boa pedida para a fila do banco, se estivesse disponível para dispositivos móveis.

Sua jogabilidade é simples, mas chegar na vitória é complexo. A cada capítulo, nosso personagem, um elegante agente secreto que chuta bundas, é lançado em um cenário pequeno, o tal Tight Space do título, que, para desespero dos fãs de Capitão América, é sempre maior que um elevador. O jogador conta com um número limitado de pontos de movimento e deve escolher com cuidado que ações irá executar, antes do turno de seus oponentes. Essas ações variam de se posicionar melhor no quadriculado a bloquear, mas, em sua maioria, implicam em diferentes formas de embolachar seus adversários.

O grande diferencial de Fights in Tight Spaces está no fato de que o jogador não tem liberdade total para escolher seus movimentos, mas deve trabalhar com uma pequena seleção de cartas, que são trocadas a cada turno de forma aleatória. Essa originalidade coloca o jogador em constante tensão, para aproveitar o que a sorte colocou de melhor em suas mãos e explorar as múltiplas variações táticas que essas cartas proporcionam.

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Ao longo da campanha, novas cartas vão sendo adicionadas ao baralho, com o jogador podendo escolher o que deseja que faça parte do seu deck, como aconteceria em um card game tradicional. Da mesma forma, novas habilidades vão sendo desbloqueadas.

O resultado disso tudo é intensamente divertido. O jogador consegue visualizar perfeitamente a situação tática da luta, para se esquivar ou defender daquele golpe, ao mesmo tempo em que aplica ataques devastadores em seus inimigos. Você é o Steve Rogers em câmera lenta, bloqueando um golpe pela frente, acertando um cara atrás, confundindo o cara da esquerda e obrigando-o a acertar um aliado.

A sensação de triunfo e a relativamente curta duração de cada batalha são elementos que fazem você querer avançar para o próximo cenário e para o próximo e, quando você se dá conta, são três horas da manhã e você conseguiu fechar um arco da campanha inteiro, com uma pilha de lutadores desarticulados no chão ou pior.

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Fights in Tight Spaces Vai Fazer Você Querer Socar a Tela

Por mais saborosa que seja a criação da desenvolvedora Ground Shatter, é impossível fechar os olhos para suas falhas. Chegou a hora de bater.

Fights in Tight Spaces apareceu inicialmente em Acesso Antecipado em fevereiro de 2021. Em 3 de dezembro, ou seja, dez meses depois, ele atingiu sua versão 1.0. Lamentavelmente, ele está longe da estabilidade e o jogador precisa estar ciente de que talvez ele nunca veja a missão final do Agente 11.

Meu primeiro incidente aconteceu ao final do Capítulo 3, ambientado em uma prisão de segurança máxima. Infiltrado lá, o Agente 11 abriu caminho em sua investigação na base da truculência. Após uma vitória que parecia quase impossível contra o chefe final, apertei para ver o replay da luta, como fiz em todos os embates anteriores. É prazeroso. Porém, nesse caso, foi um desastre. Dentro do replay, eu perdi aquela luta, o que não condizia com o que eu tinha realizado meros momentos antes.

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Complicando ainda mais meu espanto, o jogo não me ofereceu a oportunidade de reiniciar a luta. Não me deu sequer a possibilidade de reiniciar o Capítulo 3. Meu save foi obliterado da face da Terra como se jamais tivesse existido, embora permadeath não seja algo que estivesse habilitado no nível de dificuldade padrão. O jogo registrava que eu havia desbloqueado o Capítulo 3 e eu poderia ter começado uma nova campanha a partir daí, mas eu não teria nem as cartas que ganhei pelo caminho, nem as habilidades. Em outras palavras, seria suicídio recomeçar do Capítulo 3 e me vi obrigado a recomeçar do zero.

Venci tudo de novo e passei para o Capítulo 4, nunca mais ativando o saudoso replay. No começo do Capítulo 4, o jogo evoluiu de versão. Temi pelo pior. E o pior veio. Quando retornei ao jogo, eu estava em um mapa que não conhecia e todos os personagens estavam afundados no cenário de uma forma que era impossível de prosseguir. Perdi a luta de propósito, para reiniciar o mapa. O mapa reiniciou com o mesmo problema.

Missão Impossível

Independentemente de suas catastróficas falhas de programação, Fights in Tight Spaces também apresenta equivocadas decisões de design. A aleatoriedade aqui pode prejudicar severamente jogadores azarados. Em condições normais, em outros títulos, uma mão ruim pode ser corrigida em uma nova tentativa. Porém, para o Agente 11, repetir um cenário é repetir rigorosamente a sequência de cartas que apareceu antes.

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Olha o bug aí!

Uma vez definidas as cartas randômicas que irão aparecer, elas não se alteram e o jogador pode estar condenado desde o começo. Não se pode nem mesmo afirmar que a seleção foi baseada em um desafio criado pelos desenvolvedores, uma vez que eles não tem condições de saber quais cartas eu terei escolhido para meu baralho ao longo da jornada. Está em um impasse naquele mapa? Dê seus pulos, extraia leite de pedra.

Erros do passado vão se acumulando, principalmente porque o Agente 11 não se cura completamente nem entre mapas e nem entre capítulos inteiros. Ao mesmo tempo, os inimigos crescem em dificuldade de uma forma cruel. Aquela carta que você escolheu antes e que se mostrou frágil não pode ser removida do seu baralho (a menos que seja gasta uma quantia do extremamente escasso fundo financeiro da agência). Portanto, chegar ao final do jogo exige uma sequência de vitórias e decisões praticamente impecável e a sorte de nenhum bug atravancar tudo antes disso.

Por todas suas mecânicas, Fights in Tight Spaces consegue ser um título viciante, porém duplamente frustrante. Frustrante por causa de tantas falhas e frustrante pela decepção: se não fosse por seus problemas, teríamos aqui um título surpreendente, delicioso e de nota muito mais alta do que aquela que me vejo obrigado a registrar.

Ouvindo: Killswitch Engage - The End of Heartache

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