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28 de outubro de 2021

Jogando: Book of Travels - Primeiras Impressões

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(publicado originalmente no Gamerview)

Não deixa de ser irônico que eu tenha analisado Book of Travels e New World de forma praticamente simultânea. Embora eu tenha me dedicado mais ao título da Amazon, em virtude da urgência e do tamanho do seu lançamento, mergulhei no universo do jogo menor logo em seguida.

A ironia brota do fato de serem jogos multiplayer online com propostas diametralmente opostas: enquanto New World te joga de um lado para o outro, com uma lista de tarefas que nunca se esgota, mas chega a saturar, lado a lado com legiões de outros exploradores, Book of Travels convida para uma experiência mais plácida, onde, lamentavelmente, quase nada acontece em um caminho praticamente solitário.

Em Book of Travels, participamos de um TMORPG, um novo gênero inventado pelos desenvolvedores da Might and Delight. O "T" é a abreviatura para "Tiny", em claro contraste com o "M" de "Massive", tão comum nas últimas décadas. Esse conceito é aplicado no fato de que são permitidos apenas sete jogadores por servidor, em um mapa vasto. Encontrar outro viajante nesse mundo é sempre uma obra do destino, um fortuito e memorável acaso.

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Entretanto, cabe ressaltar que a proposta tem seus obstáculos: se a Amazon, a gigantesca Amazon, não conseguiu dar conta de tantos jogadores no lançamento de New World, o mesmo aconteceu com a Might and Delight, ainda que em outra proporção. Se cada servidor só comporta sete jogadores simultâneos, é fácil imaginar a demanda em seu lançamento. Nos primeiros dias, Book of Travels esteve inacessível para todos e, mesmo depois de resolvida essa questão, continuam acontecendo falhas que preocupam jogadores. Meu personagem permaneceu sumido por outros tantos dias, por exemplo. Até hoje, Book of Travels não guarda por padrão o servidor ou a região em que você criou seu personagem e é necessário puxar da memória onde ele está.

Em contrapartida, o projeto da Might and Delight ainda está em seus primeiros passos. O Acesso Antecipado de Book of Travels tem previsão de duração de dois anos. Portanto, os impasses desse início deverão ser corrigidos ao longo dessa trilha. É questionável se o jogo deveria ter sido lançado agora ou se mais seis meses no forno lhe beneficiariam, porém, agora o andarilho está solto.

O Caminho de Compostela de Book of Travels

Book of Travels exige paciência e um outro tipo de jogador, diferente do tradicional MMORPG. Aqui, entrar de cabeça no seu personagem e em seu universo é essencial. A Might and Delight deseja que os jogadores sejam quem eles quiserem, construam sua própria história, tracem sua própria meta. Isso acaba aproximando o jogo mais dos títulos de sobrevivência: não há uma direção certa para ir, não há missões marcadas no mapa, porém, ainda assim, você precisa se preocupar com sua fome e suas necessidades. É até possível morrer de forma permanente, perdendo o personagem em definitivo.

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NPCs encontrados nessas viagens irão comentar sobre eventos do mundo ou segredos da região. Caberá ao jogador manter anotações dessas dicas ou não, ir atrás do que pode ser feito ou não, sem pressão ou pontos de XP para serem acumulados. A evolução se dá através de simples interações. Apenas ouvir a história do outro ou encontrar lugares novos geram experiência que pode ser investida não em aperfeiçoar suas habilidades, mas em novas habilidades que permitirão mais interações com o mundo.

Nesse sentido, Book of Travels evocou em mim lembranças de Meridian 59 ou mesmo Ultima I, RPGs ancestrais com mundos abertos vastos sem um senso muito claro de objetivos e igualmente vazios. Estar lá é o que basta e você nunca sabe o que pode acontecer mais adiante. A curiosidade é o motor. A solidão é sua companheira.

Em minhas andanças, esbarrei apenas uma vez com outros jogadores. Não há um sistema de chat, apenas ícones, emojis elegantes que podem ser utilizados para comunicação. Foi extraordinário que tenhamos nos compreendido e era evidente a felicidade de estarmos em três em um mundo tão grande. Em Book of Travels, existem tarefas que só podem ser realizadas em grupo e instantaneamente nós três sabíamos o que queríamos fazer: ativar um barco próximo. Eu e outro jogador cruzamos o oceano, enquanto o terceiro permaneceu no porto. Infelizmente, precisei encerrar a sessão logo depois e não sei que fim levaram meus companheiros acidentais.

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Pintura Viva

O jogo é um colírio para os olhos, por mais que a frase pareça um clichê. Há uma evidente inspiração em pintores clássicos como Corot, Debret, Post ou Morisot. Suas paisagens são telas, seus personagens transbordam estilo. Ocasionalmente, não é muito claro onde você pode ir ou onde é inalcançável, mas são miudezas que não atrapalham sua apreciação estética.

Mecanicamente, Book of Travels se aproxima dos adventures point and click e esse é certamente seu maior defeito conceitual. É necessário olho de águia para identificar elementos clicáveis nos mapas. Além disso, por carecer de objetivos claros ou mesmo um diário nativo de anotações, você vai passeando por regiões enormes coletando artefatos aqui e ali que você não sabe onde vai usar ou mesmo se vai usar ou trocar com um NPC. Na maior parte do tempo, carregava bugigangas de pouco valor e buscava apenas minha próxima refeição.

Descontando toda a projeção que a imersão proporciona, em Book of Travels você é um personagem batendo perna por belas paisagens, clicando em coisas, conversando com pessoas. Não há um senso inato de realizações.

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A menos que você tenha construído seu personagem muito bem e encontrado os itens certos, o raro combate no jogo pode ser fatal. Não deixa de ser bem-vindo um RPG em que o foco não está em uma longa sucessão de batalhas, ainda assim fica a impressão de que talvez Book of Travels não se sustente apenas com cliques por toda parte. Uma árvore de diálogos talvez suprisse esse vazio.

Por mais poéticos que sejam seus cenários, eles parecem telas que precisam ser atravessadas. Uma vez que Book of Travels irá permanecer mais dois anos no Acesso Antecipado, suponho que seus desenvolvedores estão empenhados em tornar seu universo mais complexo, mais coeso, com mais atividades ou descobertas.

Ouvindo: Akiyuki Morimoto - Escape from the Tower

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