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Idéias, opiniões e murmúrios sobre os jogos eletrônicos
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16 de maio de 2009

Convergência Digital: S.T.A.L.K.E.R. e o Piquenique no Inferno

Roadside Picnic Fascinado pelo universo opressor do jogo S.T.A.L.K.E.R., fiquei com a curiosidade atiçada para conhecer Roadside Picnic, o romance de ficção-científica de onde o FPS teria tirado sua inspiração.

Considerando que o livro está disponível de graça, tudo o que eu precisava era de tempo para ler. Aproveitei a aquisição de um novo gadget (um singelo MP4 chinês que lê arquivos em formato TXT) e o período de comutação nos coletivos da vida para ter duas experiências agradáveis simultaneamente. Primeiro, descobri que é possível ler alguma coisa em uma minúscula tela de três polegadas, um parágrafo por vez. As 124 páginas do livro se transformaram em 918 (!) telas do aparelho, mas, ao contrário do que eu temia, não estranhei a nova forma de leitura. Meu MP4 de quinta categoria não é um iPhone, não é um Kindle ou um (sonho dos sonhos...) Sony Ebook Reader. Mas cumpre o que promete e abre todo um novo horizonte literário, se considerarmos a quantidade de textos gratuitos e de qualidade disponíveis na web.

Porém, o mais importante foi a segunda experiência: descobrir que Roadside Picnic é um clássico do gênero. Uma vez que você atravessa a Zona, você não será mais o mesmo.

Tempos atrás, a Terra foi visitada diversas vezes por seres de outro planeta, que, em sua partida, deixaram para trás um estranho e inexplicável legado: as Zonas. Estas regiões se tornaram palco de anomalias físicas que desafiam a ciência e mesmo a lógica e estão lotadas de objetos peculiares, chamados de Artefatos. Perigosos, muitas vezes letais, estes Artefatos são cobiçados por cientistas, governos, corporações e militares interessados em desvendar seus segredos. Em torno destas Zonas se construiu toda uma infra-estrutura social de captação de Artefatos. E, abaixo desta infra-estrutura, estão os stalkers, caçadores ilegais que arriscam a própria vida e a saúde para comercializar os Artefatos no mercado negro.

Escrito em 1971 (!), pelos irmãos Arkady e Boris Strugatsky, Roadside Picnic segue a amarga vida de Redrick "Red" Schuhart, um stalker. Sua cidade natal, a pequena Harmont, no Canadá, foi alvo dos visitantes do espaço e Schuhart cresceu aprendendo a se virar na Zona, ganhando o pão da melhor forma possível. Suas pequenas vitórias, seus amigos, seus inimigos, suas perdas, sua dor, sua luta diária, tudo é determinado pela Zona. E, por mais que ele se esforce para romper os laços com esta força alienígena que deturpa tudo que toca, ele é arrastado de novo e de novo de volta para um destino aparentemente inevitável.

Se posicionando no papel de Schuhart, o leitor percebe o quão minúscula é a vontade do ser humano diante de um evento que não consegue ser explicado. Nas palavras de um cientista que busca entender a Visitação, o título do livro (Piquenique de Beira de Estrada, traduzindo) ganha sentido. Para o cientista, a Visitação carece de significado: como turistas de fim de semana, os alienígenas vieram, pararam em nosso planeta ao acaso, fizeram o seu piquenique e partiram, deixando restos de comida, manchas de óleo de motor, brinquedos e outros objetos descartáveis que nós, como insetos da floresta, tentamos compreender ou dar valor. As escalas simplesmente não batem: o conhecimento que poderia advir dos Artefatos é inalcançável. E, ainda assim, ele altera a vida daqueles que tentam, que lutam, que tramam em vão.

O tom do livro é de perplexidade e pessimismo. Schuhart persegue o Artefato supremo, a Esfera Dourada, capaz de concretizar o mais íntimo desejo daquele que a encontrar. Talvez seja uma lenda, talvez não. Mas é a única fonte de esperança em uma região castigada por cobiça, morte e apatia.

Stalker - Filme Roadside Picnic também foi adaptado para o cinema, pelo cineasta russo Andrei Tarkovsky (mais conhecido pela adaptação original de Solaris), com roteiro dos próprios autores. Com o nome de Stalker, o filme de 1979 acompanha uma expedição por uma Zona, onde  um grupo formado por um Cientista, um Professor e um Stalker tentam encontrar um quarto entre as ruínas, onde todos os desejos se tornam realidade. Com 163 minutos de duração, ritmo lento, estranh
as técnicas de fotografia e muitas metáforas sobre a condição humana, Stalker, o filme pode ser considerado o contraponto "cabeça" de S.T.A.L.K.E.R., o violento shooter.
S.T.A.L.K.E.R., o jogo, sendo um FPS, comete muitas licenças poéticas com a história. A principal, naturalmente, é o excesso de tiroteio no jogo. Em Roadside Picnic, armas de fogo tem pouca ou nenhuma serventia. O que vale é a inteligência do stalker e sua habilidade de identificar anomalias antes que elas o matem. Outra diferença crucial é que no jogo existe apenas uma Zona e ela foi criada após dois acidentes nucleares em Chernobyl e não por intervenção de seres alienígenas. Entretanto, S.T.A.L.K.E.R. se escora no clima de desolação existente no livro e transporta com eficiência o senso de estranheza da Zona: anomalias, Artefatos, aberrações da natureza, solidão, paranóia, tudo está lá no jogo. Até mesmo pequenos detalhes como o arremesso de parafusos para detectar anomalias invisíveis ou o Artefato supremo (chamado de Wish Granter no jogo) foram colocados em S.T.A.L.K.E.R..

Com uma ênfase maior nos elementos de RPG e uma história secundária mostrando mais detalhes da vida do protagonista, S.T.A.L.K.E.R. poderia se transformar em um clássico dos jogos eletrônicos, um título para se refletir e analisar por gerações, como o material no qual se inspira. Seus desenvolvedores fizeram o que podiam com as dificuldades técnicas que tiveram e se limitaram a homenagear uma das obras-primas de seu país. O que, diga-se de passagem, já é muito mais do que se costuma fazer no Ocidente, onde shooters genéricos são despejados nas prateleiras todos os anos.

Dê uma chance a si mesmo e conheça a estranheza. Baixe o livro, jogue o jogo, veja o filme. Mas lembre-se: uma vez que você atravessa a Zona, você não será mais o mesmo.
Ouvindo: Epica - The Valley
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3 comentários:

Rodrigo disse...

Você tem absoluta razão... Comecei com o jogo, estou assistindo o filme e pretendo ler o livro.. a temática é fascinante e opressora, mas o jogo além de te fascinar, também tem o efeito colateral ( sei disso pois isso não ocorreu apenas comigo) de nos fascinar com o ambiente da Zona real (Pripryat). Já assisti vários documentãrios e o meu sonho é fazer a famosa visita Kiev-Pipryat.
Priviet, Stalkieri!!

bonfim0alex disse...

Vi o filme como dica da escola de cinema nos anos 80, encontrei agora o jogo e vcs; agora procuro o livro de preferência em português; vi a capa dele e de outros livros dos autores em Pt na rede SKoob.

Nicolas Peres disse...

Bom, vamos lá.

Inicialmente, já joguei todos 3 jogos da serie, e sem duvidas, são excelentes!

Mas nós brasileiros precisamos aprender a diferenciar as coisas. Chernobyl não é na Rússia, é na Ucrânia. OK, o acidente ocorreu em 1986, na antiga URSS, mas não era território Russo, e sim território da antiga Republica Socialista Soviética da Ucrânia.

A GSC Games foi criada em Kiev, capital da Ucrânia, e sempre teve seu escritório lá. É uma empresa ucraniana, e não russa.

Finalizando, tive o prazer de realizar o sonho de conhecer a zona de exclusão de Chernobyl agora em maio de 2014. Simplesmente fascinante.

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