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12 de abril de 2021

Jogando: Endzone – A World Apart

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(publicado originalmente no Gamerview)

Houve uma guerra nuclear, mas também não é o fim do mundo. Cabe a você e quinze pessoas em uma Kombi (mais crianças), crescerem, multiplicarem e repovoarem a Terra a partir dos seus escombros. Essa é a premissa do cenário livre de Endzone – A World Apart, um gerenciador de colônia nos moldes de Banished ou Depraved.

Depois de um enorme período de Acesso Antecipado, necessário para ajustar as múltiplas camadas de estatísticas que o jogo apresenta, a desenvolvedora Gentlymad Studios soltou sua criação no mundo. O resultado é uma experiência extremamente sólida, ainda que voltada para um público de nicho: jogadores com fôlego e paciência para encarar longas horas de jogabilidade, até a vitória e a sensação boa de restaurar a raça humana no mapa.

Senta Que Lá Vem Tutorial

Endzone – A World Apart faz parte de um gênero em que não existe a palavra “casual”. Suas mecânicas são muito mais complexas até mesmo do que um jogo de estratégia tradicional, no qual você coleta recursos e constrói exércitos, mesmo quando tudo que você faz aqui é coletar recursos o tempo todo. Sobreviver no pós-apocalipse é trabalho duro e felizmente o título traz um tutorial bastante completo.

No que você me pergunta: “completo como?”. Não há uma única mecânica presente no jogo que não seja dilapidada gradativamente no tutorial, que pode levar horas para ser concluído. É possível pular o tutorial e ir direto para um cenário aberto aleatório ou para um dos vários cenários projetados à mão para serem desafiadores, mas eu não recomendaria. O título da Gentlymad Studios traz muitas nuances que podem surpreender até mesmo quem está acostumado com produções similares.

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Posso citar por exemplo o efeito da radioatividade na vida da sua colônia. Assim como na vida real, o perigo é invisível, mas está sempre presente. A radioatividade pode estar no solo do seu assentamento, em regiões ainda inexploradas, pode descer com a água da chuva e poluir seus reservatórios. O resultado da contaminação podem ser doenças ou mesmo infertilidade dos colonos. Para contornar essa constante ameaça, o jogo oferece recursos para detectar previamente os níveis presentes, porém exige uma constante vigilância e a produção de roupas especiais.

Outro critério que o administrador da colônia deve levar em consideração é o grau de satisfação de seus residentes. Apesar de estarmos em meio às ruínas da civilização, algumas pessoas podem se sentir incomodadas se a casa delas ficar perto de estruturas fabris ou com vizinhos demais. Curiosamente, o cemitério não é uma construção que prejudique a atratividade dos terrenos próximos. Aldeões insatisfeitos produzem menos e aldeões muito insatisfeitos poderão abandonar o assentamento para buscar uma vida melhor (?) em outro lugar.

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Apesar de sua complexidade, há alguns desequilíbrios no jogo. Sua colônia depende demais de sucata, um recurso que não é renovável. Quanto mais você desmonta o que sobrou da sociedade pré-guerra, menos recurso sobra e mais longe você precisa ir para buscar mais material. Enquanto isso, madeira, comida e água podem ser explorados com sustentabilidade plena, mesmo com os ocasionais períodos de seca ou tempestades de areia radioativa.

Outro defeito percebido, ainda que pequeno, é o sistema de missões. Em determinado momento, minha colônia esgotou sua reserva de roupas de proteção. Antes de chegar a esse ponto, iniciei a construção da alfaiataria, mas precisei aguardar a produção de tecido nas fábricas de reciclagem. Depois de alertar incessantemente que não havia mais roupas para as duas criança novas que surgiram no assentamento, o jogo automaticamente criou uma missão: construir uma alfaiataria. É um ótimo sistema para alertar os novatos, porém, o jogo também oferecia um lote de roupas gratuitas se eu completasse a missão. Em outras palavras, é mais vantajoso esperar o jogo gerar uma missão e coletar as recompensas do que ser pró-ativo e não ganhar recompensas. Para complicar a quebra de imersão, mesmo com as roupas fabricadas, as crianças demoraram dias para pegar o que já estava pronto e se protegerem.

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Chernobyl Manda Lembranças

Essa demora na execução de tarefas básicas é o ponto mais fraco de Endzone – A World Apart. O realismo acaba depondo contra o ritmo do jogo quando você ordena que seus trabalhadores executem uma função e eles passam por várias etapas antes de sequer começarem. Primeiro, é necessário que eles terminem o que estavam fazendo antes. No meio do caminho, eles podem parar para comer, beber água ou simplesmente ir pra casa, enquanto você aguarda que aquele prédio fundamental para a sobrevivência de todos fique pronto. Depois, eles precisam reunir todo o material necessário para a construção, caixa a caixa. Somente então, algo começa a ser feito.

Novamente, o micro gerenciamento se torna fundamental: a distribuição de centros de alimentação e bebedouros evita que seus trabalhadores precisem ir longe para satisfazer suas necessidades mais básicas. Além disso, uma rede eficiente de estradas ajuda para que eles se movimentem melhor na colônia. Depósitos de recursos também ajudam a otimizar o tempo. Ter uma colônia totalmente eficiente é quase impossível, mas também não deve ser uma bagunça ou a paciência se esgota.

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Ainda com tudo ajustado no assentamento, a própria velocidade dos personagens é preocupante. Na velocidade normal do jogo, eles são lentos demais. Na velocidade acelerada, eles são rápidos demais. Espere também ver personagens se comportarem de forma inexplicável ou errática, como as crianças que se recusam a vestir roupa de proteção, mesmo com a roupa disponível; caçadores afirmando que não há animais por perto, apesar da corça estar literalmente na sua frente;  ou trabalhadores “cortando caminho” pelo meio de plantações, ignorando a estrada ao lado.

Sem encontrar um equilíbrio entre sua paciência e a simulação, a experiência de uma forma geral acaba sofrendo. Minha sorte é contar com bastante paciência. A sábia decisão dos desenvolvedores de não tornar o jogo estressante também contribuiu para não estragar a diversão.

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A Sabedoria Zen de Endzone – A World Apart

Para quem curte micro gerenciamento, Endzone – A World Apart é um banquete satisfatório. Mesmo com tantas variáveis em cena ao mesmo tempo, mesmo em condições precárias de um futuro nada agradável, o título não joga contra você e não traz o peso opressor de um Frostpunk em sua dificuldade normal. A mensagem final é de esperança, de que é possível reconstruir, basta acreditar, o que o aproxima muito de um Depraved: o pós-apocalipse é a nova fronteira a ser desbravada.

No topo de suas sólidas mecânicas, a Gentlymad Studios ainda nos brinda com gráficos bastante detalhados. O preço disso é sentido pelas GPUs mais modestas e eu recomendaria limitar o framerate a 30fps, se você não quiser fritar um ovo. Resolvida essa questão do aquecimento, o jogo se torna puro colírio para os olhos, com cada prédio repleto de pequenos elementos que ajudam a construir uma atmosfera legítima. As mudanças dinâmicas do terreno com as estações são bastante satisfatórias e o time de arte da desenvolvedora está de parabéns. Talvez fosse desejável uma maior variedade geográfica nos mapas, mas isso sempre pode ser estendido com DLCs futuras.

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A imersão se completa com uma trilha sonora de tirar o fôlego. Não por acaso, ela é vendida separadamente e faz parte da versão mais cara do jogo. É um trabalho muito bem executado, que não rouba a cena, mas se destaca e contribui para aquela sensação de que o mundo acabou, mas juntos nós somos fortes. As músicas instigam a vontade de conduzir essa colônia para frente.

Ao contrário de vários títulos similares, é possível “zerar” um mapa em Endzone – A World Apart. Há uma coleção de objetivos que podem ser completados em cada cenário, para quem está disposto a investir dezenas de horas na mesma região. Talvez esse não seja um recurso que vá ser explorado por muitos jogadores, mas é um incentivo a mais para continuar e testar seus limites administrativos.

Os anos passados em Acesso Antecipado valeram a pena. Endzone – A World Apart se destaca no cenário com uma jogabilidade relaxante e viciante, ainda que não abra mão da complexidade que se espera. Com gráficos magistrais, trilha impecável e muitas demandas para serem atendidas, o jogo supera suas deficiências e se torna uma obra que vai agradar jogadores pacientes e fãs do gênero.

Ouvindo: Cities in Motion - Era 2

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