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25 de outubro de 2020

Jogando: Far Cry 5

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A franquia Far Cry é uma contradição em si mesma. Por um lado, há um forte subtexto sobre os riscos do uso da violência como solução para os problemas e como ela pode ser inebriante e corruptora de mentes. Do outro lado, a Ubisoft entrega todas as ferramentas necessárias para que o jogador experimente o mais puro êxtase na arte de exterminar seus oponentes, quando não todas as formas de vida existentes em determinada região.

Far Cry 5 não é uma exceção a esse modelo, estabelecido a partir de Far Cry 2 (ignoremos o primeiro Far Cry). Entretanto, enquanto Far Cry 3 se esforçava para nos colocar em uma espécie de parque temático tropical, um desejo colonizador, uma fantasia do salvador branco em estado puro (que cobra um preço alto de seu protagonista em uma das conclusões), aqui a Ubisoft entrega seu cenário mais ousado e, de longe, sua melhor história.

O quinto jogo da franquia tira a ação de locações exóticas onde a barbárie ainda vicejaria e traz aqueles horrores supostamente do Terceiro Mundo para o coração da América. Há algo de errado fermentando em seu interior, uma mistura explosiva de fanatismo religioso, ignorância e paixão por armas de fogo. A sombra de Waco paira nos céus do jogo, um tema que a maioria dos norte-americanos finge ignorar em um país cada vez mais povoado por milícias armadas que aguardam um apocalipse imaginário ou planejado.

Desta forma, Far Cry 5 tem na figura de Joseph Seed um de seus vilões mais assustadores e carismáticos, se ele não estiver no pódio. Assustador por ser plausível, carismático por ser sedutor e seguro de si como muitos líderes de culto que vieram antes dele no mundo real. Uma mistura de David Koresh e galã de cinema, um Jim Jones sem camisa, de calça jeans e olhar penetrante. Ao seu redor, um séquito de subchefes que também merecem um lugar cativo na galeria de grandes antagonistas da ficção: o psicopata John, a quase angelical Faith e o veterano darwinista Jacob.

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É um jogo estranho para se jogar lado a lado com seu filho, mas foi o que fiz: o primeiro FPS cuja campanha dividimos quase de ponta a ponta. Far Cry 5 exige que a introdução e a fase tutorial sejam jogadas individualmente mas, depois disso, tudo está aberto para ser explorado em dupla. Em alguns momentos, era como se eu fosse um coadjuvante na história de outra pessoa, o que também se encaixa muito bem na proposta da Ubisoft, mas, na maioria dos casos, o comando da campanha era meu. O guri assumia o volante dos veículos e a função de franco-atirador enquanto eu era o responsável pelo fogo pesado e os explosivos.

Pela primeira vez também, vi a Ubisoft levar seu modelo de mundo aberto a patamares inéditos. Não sei se essa diferença já havia aparecido no quarto título da franquia, mas aqui é possível experimentar cada uma das três regiões diferentes do jogo na ordem que você quiser, escolhendo as missões de História que se deseja fazer e realizando as missões paralelas que sentir vontade. O enredo progride de acordo com o tempo e o nível de estrago que fazemos nas operações dos Edenetes. É a desenvolvedora dizendo "faça o que quiser, de vez em quando iremos colocar tudo de volta nos trilhos". E funciona muito bem, ainda que a agência nos seja furtada naqueles momentos de formas nada sutis. Depois da quinta "captura" pelo inimigo, o mecanismo revela sua natureza repetitiva.

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Far Cry 5 triunfa em trazer uma atmosfera apavorante. Ver as atrocidades cometidas em nome de religião no interior do país que supostamente deveria ser o bastião da civilização ocidental é um tapa na cara. O patriotismo da bandeira hasteada e dos tiros para o alto a cada vitória não tiram o gosto amargo e a sensação de que algo está inerentemente errado em tudo isso e, quer nós queiramos ou não, fazemos parte desse todo.

Ainda assim, o jogo oferece um espetáculo para o jogador. Visualmente, Far Cry 5 traz gráficos mais impressionantes e menos consumidores de recursos do que jogos mais modernos, como Marvel's Avengers. É um verdadeiro mundo aberto também, sem telas de carregamento e com múltiplas opções de mobilidade, de carros a aviões, passando por quadriciclos, helicópteros e até skydiving.

O poder das armas de fogo não encontra rival em outros títulos contemporâneos, embora eu tenha ficado com a impressão de que meu arsenal em Far Cry 3 era mais eficiente, assim como o sistema de habilidades. Se anteriormente seus talentos eram desbloqueados com "tatuagens mágicas', aqui eles simplesmente aparecem, mas também são menos impactantes na jogabilidade.

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O contraste é evidente: de um lado a brutalidade de uma guerra civil, do outro o fator diversão que suas mecânicas oferecem. Passear pelas estradas, com meu filho no volante e eu operando a metralhadora ponto 50 na carroceria, é uma sensação indescritível de intimidação. O herói da história, o recruta da polícia local, deixa mais corpos no chão do que a população do estado de Montana. Não que o diálogo seja uma opção contra o nível de fundamentalismo messiânico que nos confronta na tela, mas essa dicotomia entre nossa missão e a forma que a cumprimos nos é brilhantemente focada no final.

E que final. Não há nada que prepare o jogador para seus últimos minutos, uma aterradora constatação que deixa a mensagem mais sutil dos finais do segundo e do terceiro jogo para trás. É o coração das trevas, é o horror, o horror gritado por Kurtz, são as trombetas do Juízo Final.

Ouvindo: Atrocity - The Great Commandment
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Um comentário:

Takeshi disse...

Eu achei o jogo extremamente divertido, tanto pelo gameplay quanto pelo local (Montana, um local que sai daquele esteriótipo de cidade pequena dos EUA). Mas a história pra mim deixou muito a desejar comparado com Far Cry 2 e 4 que era mais político e bem mais pé-no-chão, e o final é horrível, fez o jogo parecer que não valeu a pena.

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