Retina Desgastada
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29 de setembro de 2020

Jogando: Inertial Drift

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(publicado originalmente no Gamerview)

Não há mais o que inventar nos jogos de corrida? Os gráficos perfeitos já foram atingidos ao ponto de ser quase indistinguível um screenshot de uma foto. A física perfeita, se não foi atingida ainda, está tão próxima que seria necessário um doutorado para perceber a diferença. O que sobram? Músicas licenciadas? Marcas de veículos? Enredo rocambolesco? Inertial Drift tenta recriar a roda.

No caso aqui, as mecânicas de drift são repaginadas com uma abordagem diferente. Por cima de suas engrenagens, a desenvolvedora Level 91 Entertainment ainda acrescenta uma pintura charmosa que foge do realismo. Porém, as novidades param por aí e o interesse se esgota rapidamente graças a sua curta duração e alguns problemas gritantes.

Não Se Faz Mais Drift Como Antigamente

Eu lembro claramente a primeira vez em que tive contato com esse tal de "drift". Não, não foi no cinema. Foi no antológico Need For Speed Underground. E eu odiei essa primeira vez. Em um título com forte apelo na velocidade e na customização de veículos, o conceito de atravessar um circuito "correndo de ladinho" e queimando pneu era completamente alienígena para mim e difícil de dominar. O charme intrínseco do jogo como um todo fez com que eu apreciasse a mudança de mecânica.

Com o tempo, outros títulos adicionaram a mesma ideia, inclusive com bônus de velocidade para drifts bem realizados e as curvas nunca mais foram a mesma coisa para mim. Hoje em dia, é estranho encontrar um título que não incorpore a física do drift. Ainda mais estranho é encontrar um título cujo foco retorna para tal mecânica.

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Em Inertial Drift, temos uma tentativa de reinvenção. Obviamente, o drift não é automático, o resultado da guinada exata do volante na curva. Para atingir um diferencial, a Level 91 Entertainment separa os controles: há um botão para executar o drift e outro para fazer a curva. O nível de pressão imposto em cada um deles irá se somar e produzir a tal curva perfeita. Nos controles, isso envolve os dois analógicos e a resposta é melhor do que aquela que se tem no teclado, embora eu tenha atravessado minha experiência quase integral no teclado. Ainda está pra nascer o jogo de corrida que me faça adotar um controle.

Essa é a grande novidade de Inertial Drift, a justificativa para seu título e seu principal chamariz. Parece complicado na teoria, mas na prática é uma interação que você domina já no tutorial. Em duas voltas na pista, usando o controle, meu filho já estava me ultrapassando na terceira. A mudança não é revolucionária, nem tampouco positiva. Na prática, no teclado, você irá apertar dois botões simultaneamente para fazer a curva. Solte o acelerador, entenda o momento de começar o drift, aperte dois botões, corra para o abraço.

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Passeio na Estrada

A falta de uma curva de dificuldade talvez seja o segundo maior defeito de Inertial Drift (e em breve falarei do primeiro). O titulo não exige muito do jogador, mesmo introduzindo uma nova forma de fazer drifts.

Essa casualidade vai além da física arcade e se revela gritante no modo "História". Ignore os diálogos sofríveis e a animação de personagens humanos, que podem ser facilmente pulados. Por mais que eu seja um defensor ferrenho de enredo, Inertial Drift me fez apertar o botão ESC sem dó nem pena e chegar logo nas corridas. O verdadeiro problema da campanha é que o jogo te empurra pra frente, não importa o quão ruim você dirija. Não há um pingo de desafio e é basicamente um tutorial muito estendido. Em menos de 90 minutos, sobem os créditos.

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Não há corridas no sentido verdadeiro do termo. Na melhor das hipóteses, o jogador enfrenta apenas outro carro em duelos de 1×1. Se há um multiplayer online com mais veículos na pista, não encontrei, diante do vasto vazio de jogadores disponíveis. O modo de tela dividida funciona muito bem e pode render mais alguns minutos de diversão, embora não haja colisão alguma (e isso é explicado com um blablablá tecnológico no começo).

Em contrapartida, alguns veículos são simplesmente incontroláveis. O verdadeiro desafio de Inertial Drift deve estar em fazer uma curva decente com os carros de Tier mais elevado. Eles vão da manobrabilidade de um tanque de guerra com turbina para um pião da casa própria girando insanamente na pista. Não há um meio termo: os poucos carros disponíveis no jogo podem ser classificados em apenas três categorias: fácil, ok e impossível.

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No Style da Parada

O maior defeito de Inertial Drift, para quem curtiu suas mecânicas ou não liga para o nível de desafio, é sua curtíssima duração. Não se trata apenas da "campanha". O jogo apresenta muito pouco conteúdo para o jogador: há um número limitadíssimo de veículos, poucas pistas, pouca coisa para ser feita ou vista. Com zero customização ou evolução de personagens ou carros, a motivação para seguir jogando mais do que um par de horas é nula.

Se serve de algum consolo, será um par de horas bastante estiloso. O visual de cellshading não é nenhuma genialidade nos dias de hoje (nem mesmo entre os jogos de corrida e Auto Modellista brota das brumas do tempo para não nos deixar mentir). Entretanto, ele é muito bem-executado em Inertial Drift e sua cena de abertura encanta o olhar.

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O que também torna a experiência bastante agradável é sua trilha sonora eletrônica, que foge do lugar-comum do batidão e oferece uma atmosfera psicodélica e relaxante, que me trouxe boas lembranças de POD.

Chegando na garagem, não posso dizer que não curti Inertial Drift. Sua ousadia em recriar o drift pode não ter o impacto que seus desenvolvedores esperavam, mas o título diverte bastante. Se a curta duração é um defeito é porque no fundo eu esperava continuar um pouco mais por essas estradas sinuosas.

Ouvindo: Unreal - Dusk Horizon
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