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10 de junho de 2020

Jogando: Minecraft Dungeons

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(publicado originalmente no Gamerview)

Minecraft é uma paixão antiga: uma caixa de areia repleta de possibilidades em que cabem múltiplas jogabilidades. É mais do que um jogo: é uma plataforma que, nas mãos certas, permite a imaginação voar longe e acaba sendo mais do que uma brincadeira de quebrar e encaixar bloquinhos.

Dito isso, até que demorou tempo demais para a Mojang explorar outros caminhos para sua marca. Cinco anos depois do infame Minecraft: Story Mode, um novo derivado da franquia aproveita o charme de seu universo para nos oferecer uma aventura mágica, mas que ousa praticamente nada além de sua superfície.

O Mundo Precisa de um Herói

Um dos fatores que mais incomoda os detratores de Minecraft é a ausência de um objetivo ou mesmo de um fiapo de história. Minecraft Dungeons responde isso com um protagonista que deve salvar o reino da tirania, enfrentando um exército de criaturas até chegar no seu castelo para uma batalha final. Temos um fiapo de história agora, algo que costura de forma suave por diversos conceitos desse universo, como a função das bruxas, a origem do templo do deserto e a criação dos temíveis golens de ferro.

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O chamado da aventura em uma realidade tantas vezes explorada é um chamado que não pode ser negado e qualquer um que já tenha se encantado com Minecraft sentirá o apelo irresistível. É uma delícia passear pelos cenários, reconhecendo blocos e personagens ou apenas pensando como seria legal se essa ou aquela ideia também fosse incorporada ao jogo principal. Tudo isso embalado por uma narração muito bem dublada e um senso de progressão que faz mesmo você se sentir um herói em evolução.

Na trama, um Illager (mais conhecido como Villagers no Minecraft tradicional) foi banido de sua vila e vagou pelo mundo em busca de vingança. No canto mais escondido, entre ruínas, encontrou o instrumento perfeito para seus planos: o Orbe da Destruição. É impossível não esboçar um sorriso na piada interna de que o tal "Orbe" é um bloco cúbico, como tudo mais nessa realidade. De posse de tal artefato, ele se torna o Arc-Illager e inicia um reinado de terror e devastação. Não há um pingo de originalidade, além de uma piada bem encaixada (com o perdão do trocadilho), mas é o que basta para dar início à jornada.

Essa jornada irá levar o protagonista (e seus aliados, se estiver jogando em multiplayer) através de uma curta seleção de cenários típicos de Minecraft, como o tal Templo do Deserto, pântanos, campos com abóboras e, claro, minas abandonadas nas profundezas da terra.

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Infelizmente, a travessia é bastante curta e um jogador interessado apenas em seguir a história poderia terminá-la em pouco mais de três horas. Há literalmente um mundo em Minecraft (e duas dimensões extras), mas apenas uma fatia de tudo isso está presente em Minecraft Dungeons. Há duas expansões à caminho, entretanto o jogo passa a sensação de que poderia ser maior, bem maior.

Nem Diablo, Nem Minecraft

Muita gente se refere a Minecraft Dungeons como o filho perdido de Diablo com a criação daquele sueco lá que não ousamos mais dizer o nome. Essa classificação é um grande desserviço a todos os envolvidos.

Primeiramente, a relação com Diablo estaria na escolha por desenvolver um RPG com foco na ação, como se o título da Blizzard tivesse fundado o gênero, o que está muito longe da verdade. Porém, mesmo se nos basearmos nos paradigmas que Diablo popularizou, ainda assim Minecraft Dungeons está muito aquém da complexidade da saga em todos os seus aspectos. Suas mecânicas são mais simples até do que do primeiro Diablo, com poucas variáveis de equipamento, feitiços e principalmente inimigos. O jogo desenvolvido pela Mojang Studios e pela Double Eleven está para qualquer Diablo (ou mesmo qualquer outro RPG de ação) como uma bicicleta com rodinhas está para uma bike de 21 marchas: é um começo, uma introdução inofensiva ao gênero.

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Em contrapartida, o elo com Minecraft vem tão somente de sua temática. Visualmente, o jogo é formado por blocos, vários elementos são tirados diretamente do universo já consagrado, os sons conhecidos estão todos lá, mas tudo é apenas uma referência, uma skin, pode-se dizer, um parque temático inspirado em algo mais sólido. O resultado são gráficos exuberantes, não há dúvidas, com efeitos de luz que não chegam a ser dinâmicos, mas lembram o que pode ser obtido com shaders ou com RTX. Porém, mais uma vez, o conceito de construir/destruir, os aspectos de sobrevivência e até mesmo a livre exploração são ignorados por completo.

Toma-se por exemplo o sistema de armaduras. É possível encontrar diferentes kits espalhados em baús de tesouro ou caindo como saque de inimigos abatidos, com vantagens variadas que se adaptam ao estilo de cada jogador. Porém, cada kit é fechado, é um pacote completo da cabeça aos pés. É um retrocesso, uma simplificação que não faz jus nem a Diablo (que já oferecia uma divisão entre elmo, armadura e escudo, em 1996) e muito menos ao próprio Minecraft (que traz Elmo, Peitoral, Calças e Botas separadas). Essa suavizada nas mecânicas pode agradar a quem nunca jogou um RPG de ação na vida, mas soa estranha até para quem está acostumado com o supostamente infantil Minecraft, seu público alvo mais óbvio.

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Essas mecânicas de evolução não deixam de ser viciantes e a busca por um equipamento melhor é incessante, ainda que careça de um pouco mais de complexidade. Cheguei ao final do jogo me sentindo um deus entre os mortais (e os mortos-vivos).

Infelizmente, não consegui testar o modo multiplayer. No modo online, não encontrei partidas. Localmente, o jogo exige dois controles, mesmo no PC. O que é um contrassenso, se levarmos em conta que jogos com valores de produção muito menores (como o recente Concept Destruction) aceitam de boa a combinação teclado + controle. E essa é a versão do jogo otimizada para Windows 10 e blá blá blá.

O saldo final de Minecraft Dungeons é uma aventura casual em um universo encantador, que opta pela segurança de entregar um produto redondo, mas sem almejar voos maiores. É um "RPG de ação" frágil que ganha nota mais alta por uma simpatia que foi construída em outro lugar.

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