Retina Desgastada
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2 de maio de 2020

Jogando: Ark - Survival Evolved

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Desde que vimos o primeiro trailer de Ark, o jogo nos parecia conjurar tudo que havia de melhor no mundo da imaginação: dinossauros, criaturas fantásticas, um enredo de ficção-científica. Tudo isso associado a uma jogabilidade que permitia domar esses colossos e construir nossa própria casa. Parecia que o potencial de Minecraft havia sido finalmente alcançado em um título que não podia ser superado.

No meu primeiro dia de jogo, ele travava de uma forma horrível, tinha um brontossauro circulando na minha cabeça, fazendo o chão tremer de uma forma irritante e nossa "base" era um amontoado de palha sem teto. Não foi a melhor das primeiras impressões.

Foram quase cinco anos entre aquele trailer deslumbrante e o título finalmente ser instalado na minha máquina. Para mim, foi uma paixão que acabou sendo saciada nesse período por outros jogos de sobrevivência sólidos com criação de animais, como o excelente Conan Exiles ou Citadel: Forged With Fire. Para meu filho, Ark continuou sendo o paradigma a ser conquistado, após consumir literalmente centenas e centenas de vídeos no YouTube sobre o jogo.

Minhas expectativas a respeito de Ark nunca foram preenchidas, por melhores que tenham sido alguns momentos dessa jornada. Tenho razões para acreditar que meu filho tenha passado por decepção semelhante, embora seus sentimentos tenham sido mais ocultos. Ele passou muito mais tempo do que eu naquele mundo, uma vez que o servidor era o PC dele. As minhas 31 horas de experiência se empalidecem diante das 118 horas dele.

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Há muitos mapas no jogo (a maioria custa uma fortuna e você precisa comprar como DLC) e ele escolheu Valguero, por ser gratuito e por ser, nas suas palavras, mais completo que o mundo padrão. Aparentemente, há um lore em Ark - Survival Evolved, mas absolutamente nem um traço disso transparece em nossa aventura. É um título ainda mais descontextualizado do que Citadel ou qualquer outro jogo do gênero que tenha experimentado, incluindo aí Minecraft. Não há NPCs. As poucas ruínas espalhadas pelo cenário não tem uma história para contar. As grandes estruturas tecnológicas disponíveis na paisagem são indevassáveis. Ocasionalmente, pacotes de itens descem do céu em meio a uma luz brilhante, sem motivo algum. Não há um norte a ser seguido. Não que um jogo de sobrevivência precise disso, mas acredito que um mínimo se faz necessário e abrilhanta a narrativa. Mais do que isso: o trailer de cinco anos atrás me deu a impressão equivocada de que poderia haver uma meta final.

Largado no mato, o que nos resta a fazer? De acordo com meu filho, domar o maior número de criaturas possível seria a proposta do jogo. Com centenas de vídeos em sua bagagem cultural, eu não tinha como discutir com ele. Porém, eu também espero que jogos de sobrevivência tenham um foco satisfatório na construção de tecnologias e casas. Em nenhum dos dois pontos, isso tampouco atendeu minhas expectativas.

As tecnologias são irrelevantes. Que importa uma armadura de metal ou uma geladeira elétrica quando se doma um Alossauro capaz de peitar a maior parte dos oponentes e se tornar uma fonte praticamente infinita de carne? E meu filho tampouco se deteve no Alossauro: escalamos para Yutiranos, Argentávis, Espinossauro e o devastador Tiranossauro. Apenas o Giganotossauro ficou fora de nosso alcance e este, talvez, tenha se tornado a maior de todas as aventuras.

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Há outras formas de se divertir nesse jogo, como dando nomes para as criaturas.

A construção de uma casa melhor tampouco é uma meta desejável. Eu me recusei a viver em um casebre de palha e deixei isso bem claro para o garoto, que ergueu uma construção de pedra para nós. Era modesta, certamente, mas não havia nenhuma justificativa para correr atrás de uma base maior ou mais resistente. Com tão poucas bancadas internas, sem praticamente nenhum elemento de decoração, sem a oposição de inimigos que pudessem atacar nosso lar, o caixote de pedra permaneceu inalterado por toda nossa jornada. Puxamos um encanamento do rio até nossa base e meu filho instalou holofotes elétricos e essas foram as únicas melhorias que fizeram alguma diferença. Da minha parte, me esforcei para construir um alambique, que se mostrou um luxo sem impacto algum em nossa sobrevivência. Foi a primeira vez que tomei um porre com o guri e não pretendo repetir a brincadeira em ambiente algum.

Nossas necessidades de alimentação e sede são rapidamente satisfeitas, o que faz com que o conceito de "sobrevivência" seja bem menos rígido aqui também. Mesmo frio ou calor, outros elementos importantes em títulos mais sérios, em Ark tem pouca influência. Quem preza gerenciar esses aspectos em jogos do gênero irá se encontrar entediado aqui.

Colecionador de Bugs

Mesmo após três anos de sua saída do Acesso Antecipado, Ark - Survival Evolved é assolado por bugs e por idiossincrasias que se acumulavam para aumentar o meu desânimo. Apenas a companhia do meu filho e alguns raros momentos que passavam uma sensação de aventura me motivavam a continuar.

Graficamente, o jogo é um teste para quem curte fazer ajustes nas configurações. A configuração padrão aqui apresentava uma queda de frames considerável. Realizei alguns ajustes e tudo ficou muito leve, mas horroroso de se olhar. Após muitas tentativas, não consegui reverter à forma como estava antes. Adotando as configurações "otimizadas" sugeridas pela GeForce Experience, o jogo ficou feio E pesado. Uma atualização do jogo resetou tudo, atrapalhou minha conexão com o servidor do meu filho, mas devolveu o jogo ao estado belo original. Com muita cautela, ajustei um ou dois detalhes até atingir o equilíbrio: gráficos satisfatórios e velocidade idem.

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O respawn de recursos do mundo é incompreensível. Após minha sugestão, meu filho alterou a quantidade de dinossauros no mapa, uma vez que era desagradável se movimentar em um cenário lotado deles. Árvores, arbustos e pedras, que deveriam renascer com frequência, foram escassos por muito tempo. A área ao redor de nossa base se tornou um deserto. Segundo as regras de Ark, não há mesmo respawn próximo a construções, como também ocorre em Conan Exiles. Entretanto, havia um constante fluxo de dinossauros nascendo em nosso quintal, enquanto recursos não surgiam em um raio de duzentos metros. No último dia, para minha surpresa, nosso quintal estava repleto de árvores recém-nascidas. O jogo zombava de mim até seu instante final.

Teoricamente, não era para nosso encanamento funcionar, uma vez que o emaranhado de canos que meu filho fez não se conectava de verdade. Mas saía água das torneiras, então, não vou reclamar disso.

A tela de personagem mostrava meu visual quando queria. Mas, na maior parte do tempo, eu via apenas minha silhueta negra.

Não entendi a necessidade de todo ser nesse mundo fazer suas necessidades básicas mais sólidas constantemente, incluindo você. Perguntei para o meu filho se havia algum uso para tanta caca, mas ele disse apenas que isso não é importante. O mesmo vale para pelos do corpo. Ajuda na imersão ver sua barba e cabelo crescendo o tempo todo? Certamente. Mas não quando você vai de Bruce Willis a Tom Hanks, em O Náufrago, em apenas um dia dentro do jogo. Tampouco ajuda o fato da tesoura ser um item que exige um componente raro para ser fabricada e os cabelos aparados não terem muita utilidade no fluxo de construção do jogo. Desde quando tesouras são feitas com obsidiana?

Tochas são uma obsessão minha que me perseguem desde Minecraft. Lá, é vital manter áreas iluminadas, já que monstros surgem na escuridão. Isso me condicionou a plantar iluminação adequada em praticamente todos os jogos que me oferecem esse recurso. Ark foi minha terapia: tochas são, digamos, estranhas. Na prática, elas precisam de um fluxo constante de combustível (madeira) para se manterem acessas. Novamente, isso ajuda na imersão. Mas não quando você precisa abrir o inventário da tocha (!) e colocar lá dentro dezenas ou centenas de toras. O resultado é uma mecânica que não ajuda na imersão e nem é prática. Meu filho viu minha frustração e implantou luz elétrica na base. Mas não há lâmpadas, apenas lanternas portáteis e holofotes, que iluminam somente pra frente, sem uma luz global.

Jurassic World

Eu não tinha para onde correr: a graça de Ark são seus monstros.

Para quem curte muito dinossauros, Ark entrega e vai além. É difícil imaginar um título atualmente no mercado que apresente uma abundância maior de criaturas variadas. Isso acaba gerando situações inéditas: no mesmo jogo eu saltei com um sapo gigante, urrei com um Tiranossauro, cavalguei um Espinossauro, fui carregado por um abutre gigante, nadei desesperado para fugir de um Megalodonte, matei tigres dentes de sabre de todas as cores do arco-íris, vi mais cocô de animal do que aquela vez em que enchi dez carrinhos de mão de estrume para fazer compostagem. O que Ark não traz de variedade em sua geografia, o traz em sua fauna.

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Por conta disso, a tecnologia de produzir equipamento tranquilizante é a única tecnologia que realmente importa em Ark. Para domar a maioria dos animais, é necessário deixá-los inconscientes e alimentá-los, mantendo a inconsciência, até que sua vontade seja dobrada. Para quem já operou uma Roda da Dor na Era Hiboriana, isso não é nada.

Obcecado pelo mote "temos que pegar todos", meu filho capturava os animais em seu tempo extra. O que é muito tempo, para um garoto de 12 anos em quarentena. Nas vezes em que participei dessas caçadas, achei o processo tedioso: uma frenética caçada seguida por uma longa espera até que a criatura desperte como nossa aliada. Em uma dessas vezes, um Alossauro errático atacou-nos de surpresa, matou o bicho adormecido e quase nos matou também. Por conta disso, somos obrigados a sempre vigiar durante a espera. No final das contas, a nova fera era adicionada a nossa ménagerie, onde provavelmente ficaria inativa, engordando às nossas custas e sendo usada algumas poucas vezes. Nada que eu já não tivesse feito antes em Conan Exiles, exceto que em Ark todo o ritual é bastante enfadonho.

Entre todas as feras de Ark, a mais desafiadora foi o Giganotossauro. Pense em um Tiranossauro. Agora acrescente 50% de tamanho, 200% de dano e 1000% de resistência. É uma besta infernal e desbalanceada que tentamos subjugar. Na primeira tentativa de domá-lo, perdi meu animal voador, uma Argentávis, que travou dentro do bicho e não conseguiu decolar. Morri duas vezes nessa luta. Gastamos talvez sessenta dardos, sem sucesso. Na segunda tentativa, não houve baixas e conseguimos manter uma distância segura do Giganotossauro, mas ele resistiu ao torpor. Na terceira tentativa, meu filho foi sozinho, construiu estruturas colossais para, eventualmente, aprisionar o monstro e mantê-lo parado para receber os tiros. O Giganotossauro atacou através das paredes e matou um de nossos Pterodátilos.

Por conta disso tudo, o Giganotossauro foi nossa despedida do jogo. Cumpridas todas as metas que o guri havia programado para nós, juntamos nosso exército de carnívoros e os transportamos até as planícies geladas que eram o covil de nosso rival. Após uma batalha sangrenta, o Giganotossauro que havia zombado de nossos esforços para domá-lo, terminou morto sobre o cadáver de vários de nossos animais queridos. Um Golem de Gelo, inadvertidamente despertado durante a luta, terminou o serviço de eliminar nosso exército.

Há outros mapas disponíveis no jogo, mas meu filho prefere dar um tempo, instalar Minecraft pela sexta vez, antes de dar uma nova chance a Ark - Survival Evolved.

A ironia no título do jogo da Studio Wildcard não me escapa. Se essa é a evolução do gênero...

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3 comentários:

Unknown disse...

Show de bola, também jogo com meu filho, mas não tenho essa interação toda ainda. Parabéns.

Anônimo disse...

caralho maluko esse textão custou sua vida?Curriculo pra trabalho?

C. Aquino disse...

Esse nem é dos maiores... dá uma olhada no texto de Population Zero! 😂🤣

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