Retina Desgastada
Idéias, opiniões e murmúrios sobre os jogos eletrônicos
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25 de fevereiro de 2020

(não) Jogando: Table Manners

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(publicado originalmente no Gamerview)

Eu gosto de pensar que a culpa disso tudo é do bode. Desde que a Coffee Stain libertou aquele vídeo de anúncio de Goat Simulator, a indústria de jogos nunca mais foi a mesma. Eles provaram que dava para fazer um jogo divertido em que as coisas não funcionarem como deveriam faz parte das mecânicas. Estava fundado o gênero "simulador de trollagem".

Em Table Manners, você precisa agradar pretendentes românticos, em encontros em restaurantes, tendo literalmente na sua mão a pior física do planeta. O resultado é um festival de copos derrubados, pratos no chão, comida na cara, fogo se alastrando e uma paciência se esgotando em pouco tempo de jogo.

Tá na Mesa!

No jogo desenvolvido pela Echo Chamber Games.você está "na pista". Com um aplicativo de encontros aberto na sua frente, sua meta é entrar em contato com possíveis pretendentes do sexo que você escolher, xavecar por mensagem de texto, criar coragem e chamar para jantar. É nesse ponto que a jogabilidade mostra a que veio: tudo que você controla é literalmente uma de suas mãos, que se movimenta pairando sobre a mesa como um guindaste desajeitado ou uma daquelas máquinas de shopping de pegar bichos de pelúcia com um gancho.

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A graça desse tipo de jogo está justamente no fato de que no papel é fácil, mas fazer é difícil, quando não impossível. Desta leva, nós temos então Octodad, Surgeon Simulator, I’m Bread, Getting Over It with Bennett Foddy, Manual Samuel, a lista é imensa. Cada um desses jogos adiciona um elemento novo na fórmula e/ou uma premissa absurda em seu universo. Table Manners não podia ser mais simples em sua proposta: você é uma pessoa querendo impressionar seus parceiro(a)s com seus modos à mesa, sendo gentil e servindo as refeições.

Entretanto, o simples ato de colocar o sal no bife pode se tornar um tormento quando você precisa aproximar seu braço da posição exata do saleiro, nivelar os dedos no nível certo, agarrar o saleiro, girá-lo no pulso, conduzi-lo até o bife, girá-lo de novo e esperar o sal cair com precisão em cima da carne, de preferência sem derrubar nada mais na mesa, enquanto o medidor de paciência de seu par está diminuindo. Nem me peça para escrever sobre o ketchup e sua tendência realista demais de levar uma eternidade para descer do frasco.

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Ao longo de cada encontro, a pessoa que foi convidada vai pedir uma série de tarefas que vão se tornando progressivamente mais complexas em encontros cada vez mais mais complicados. Se você falhar, o interesse da pessoa diminui, até o encontro terminar de forma abrupta. Em muitos aspectos, Table Manners é um simulador de fracasso e o que muita gente chamaria de uma jogabilidade desafiadora é uma noite de sexta-feira para outros.

A Conta, Por Favor!

O que temos aqui, então, é o inverso das fantasias de poder que vem alimentando os jogos eletrônicos desde que um encanador salvou uma moça das garras de um gorila que arremessava barris. Você geralmente joga para se sentir capaz, para se sentir poderoso, para viver uma vida que não pode experimentar, seja um ninja espacial, um fuzileiro de operações especiais, um colecionador de monstrinhos de bolso ou um(a) arqueólogo(a) em busca de tesouros. Agora, você contempla sua própria inabilidade de servir vinho na taça sem derramar tudo na mesa.

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A graça desse tipo de jogo é o caos resultante de suas tentativas frustradas. Porém, depois de vários encontros que terminam com a mesa parecendo uma mesa coletiva de jardim de infância, a novidade se esvai bem rápido e é substituída pela frustração. Para avançar no jogo e liberar novos desafios, é necessário vencer os desafios anteriores. Em outras palavras, o jogo ao mesmo tempo diverte com seus fiascos, mas exige o seu sucesso para novas risadas.

Entramos então no defeito principal de Table Manners: seus controles são incrivelmente imprecisos. Pode-ser argumentar que a graça é essa, mas uma coisa é encarar os desafios que o jogo oferece e outra coisa é brigar com os comandos, independente do que precise ser feito.

É necessária concentração para que nada dê mais errado do que já está fadado a dar e uma boa noção de profundidade. Enquanto você está executando essas tarefas, com um olho na sua mão e outro no marcador de tempo, é difícil achar graça no contexto total. Riso nervoso seria uma reação mais apropriada a Table Manners. Ou ódio profundo a todo time da Echo Chamber Games.

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Como se a física já não fosse exagerada o suficiente, em que você se sente um búfalo em uma loja de cristais, o jogo ainda é assolado por bugs. Não sei o quão intencional é o comportamento do ketchup, mas outros elementos da mesa também nem sempre respondem da forma que você espera que eles respondam. Além disso, em uma determinada sessão, o "papel da conta", que encerra a partida e exibe sua performance, caiu em cima da minha mão, travando-a e impedindo que eu usasse a mão para clicar no botão de voltar. Sim, em Table Manners, o conceito de usar a mão é aplicado até mesmo para a interface.

Apesar de seu visual elegante e a música de cabaré que dá o tom cafona para suas aventuras românticas, Table Manners é uma piada que se esgota rápido, em que risos se transformam em suspiros exasperados por conta de uma mão que se move com os reflexos de uma lesma e o peso de uma bola de ferro em tarefas que se repetem. Termino minha mal-fadada rodada de encontros ainda achando que a culpa é do bode.

Ouvindo: Capital Inicial - Saturno
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2 comentários:

Shadow Geisel disse...

Stephen Hawkins Simulator... (eu sei, vou pro inferno por causa dessa piada).

C. Aquino disse...

MANO!
ahahAHAHahahAHAH!

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