Retina Desgastada
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6 de setembro de 2019

Jogando: The Dark Pictures Anthology: Man of Medan

(publicado originalmente no Gamerview)

Assustar alguém é algo que uma criança de oito anos é capaz de fazer, pulando de trás de uma esquina, gritando "buuu" e saindo rindo. Entregar uma experiência que mantenha o jogador no limiar do grito, apavorá-lo constantemente e entregar uma história que provoque a imaginação exige talento e maturidade.

Depois de surpreender o mundo com Until Dawn, a desenvolvedora Supermassive Games ousa levantar a bandeira das antologias de terror dentro do mundo dos jogos eletrônicos e entrega Man of Medan, o primeiro episódio de sua ambiciosa The Dark Pictures Anthology. O que o jogador irá encontrar a seguir é uma montanha-russa de emoções, com um ápice muito alto, mas uma chegada tranquila e insossa.

Até o Alvorecer

Se você é um fã de Until Dawn, não irá se decepcionar com The Dark Pictures Anthology: Man of Medan. A fórmula que consagrou o jogo anterior é repetida aqui praticamente à risca: controle de diferentes personagens, decisões que podem impactar no destino deles, mortes violentas, uma história tensa, uma reviravolta ou duas, infames quicktime events, sustos. Até mesmo o mecanismo das "previsões" do futuro reaparece descaradamente nesse jogo. Em contrapartida, se você estava esperando uma nova evolução na forma de contar histórias de terror, poderá sair frustrado de um título que termina por ser inferior ao seu antecessor em quase todos os aspectos.

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Man of Medan conta a história de um grupo de amigos em um barco, praticando mergulho e se divertindo, que é arrastado contra à vontade para um navio de guerra abandonado, castigado pelo tempo e cenário de uma maldição. Cabe ao jogador conduzir esses cinco indivíduos pela trama, tentando ao máximo mantê-los vivos, e resolver o mistério para se conseguir o melhor final possível. Novamente, a Supermassive Games capricha no seu fluxo narrativo e você pode obter diferentes conclusões para o jogo, desde uma em que todos escapam ilesos até aquela em que a morte encontra todos eles. O nascer do Sol traz consigo o final de uma jornada que pode ser amargo ou não. Como o próprio narrador informa, a decisão está nas suas mãos, embora a consequência exata de suas ações quase nunca seja clara.

A história se inicia com um prólogo, que dá uma pequena amostra do que aconteceu no navio nos anos 40. A partir da chegada dos protagonistas, já nos dias de hoje, é preciso vasculhar o interior enferrujado da embarcação em busca de pistas que ajudem a desvendar o que realmente aconteceu. É possível vislumbrar a solução logo no início do jogo, mas isso não diminui a força de sua narrativa nem tampouco o brilho criativo desse conto de horror.

É uma pena que o jogo não explore melhor as personalidades de seus protagonistas. Enquanto Until Dawn se escorava em velhos clichês de terror para compor seus personagens (a chata, o bonitão, o maluquinho, a inocente etc), Man of Medan parece trazer indivíduos menos caricatos, mas não se aprofunda em suas diferenças e assim cai, da mesma forma, na bidimensionalidade. Acredito que esse seja um dos preços a se pagar por uma aventura curta, que não consegue o tempo que precisava para desenvolver melhor cada um deles, assim como as interações entre si. Embora o jogo registre o relacionamento entre os protagonistas, como Until Dawn fazia, não há reflexos palpáveis dessas combinações no jogo.

Em uma espécie de metalinguagem, existe a magnética figura do Curador, uma espécie de entidade onipotente fora da história, que nos apresenta os fatos e funciona como uma mistura de narrador e mestre de cerimônia, que irá interligar todos os jogos que farão parte da The Dark Pictures Anthology. Ele quebra a quarta parede e dialoga com a audiência, o que traz uma camada a mais de desconforto para a experiência: somos ao mesmo tempo aquelas pessoas dentro do navio e alguém externo que zela por suas vidas, talvez aprisionado na mesma dimensão do Curador. O ator Pip Torrens empresta uma austeridade perturbadora para o personagem e promete ser o grande destaque da franquia.

Ouro da Manchúria

A embarcação surge em cena como o sexto protagonista do jogo e se torna um ambiente que irá castigar o cérebro do jogador com sua claustrofobia, seus ambientes extremamente escuros e sujos e seus "habitantes". Pode parecer uma pena que não estejamos diante de um mundo aberto ou com uma câmera livre, mas manter o jogador preso em corredores fechados com ângulos de visão meticulosamente preparados ajuda e muito a manter a tensão, conduzindo nossos personagens como ratos em um labirinto.

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Parte dessa magia, é claro, pode ser creditada aos gráficos soberbos. O realismo dá a tônica e contrasta com o surreal que a história impõe. Ainda que não se possa esperar o nível de detalhamento de cenários de um Gone Home ou Tacoma, Man of Medan mantém a verossimilhança de seus ambientes e nos oferece a quantidade certa de mementos para contar a história pregressa da embarcação e o cruel destino de seus passageiros. Essa é mais uma característica herdada de Until Dawn e colecionar "segredos" é fundamental tanto para ter uma visão mais ampla dos porquês de seu universo como também para desbloquear extras valiosos do jogo.

Nesses corredores sufocantes, o jogador será conduzido ao ponto mais alto da montanha-russa construída pela Supermassive Games. A desenvolvedora não dá descanso quando o horror finalmente engrena e eu me encontrei literalmente saltando da cadeira ou dando gritos, para o espanto de minha esposa. O nível de imersão obtido aqui merece palmas.

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Ainda assim, essa sensação de estar lá é prejudicada por alguns problemas técnicos. Em alguns momentos, as texturas carregavam diante de meus olhos. Os movimentos dos personagens não são tão fluidos quanto os que você encontra, por exemplo, em um título da Quantic Dream. Mesmo a captura das expressões dos atores não funciona da melhor forma possível e são frequentes as situações em que os protagonistas parecem cegos fitando o horizonte. Em outra ocasião, uma lanterna permaneceu parada, congelada no tempo e no espaço, enquanto a mão que a segurava se mexia na cena. Um determinado personagem não conseguiu mais se mover depois de interagir com um objeto e só recuperei o controle dele depois de interagir com o mesmo objeto uma segunda vez.

Os controles no PC tampouco são precisos. A tecla ESC para sair de um menu nunca funciona, o que me obrigava a clicar no botão. É um detalhe pequeno, mas gotas como essa vão se acumulando na lista do que pode e deve ser corrigido em uma atualização futura.

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Entretanto, o ponto mais crítico nos comandos são os momentos de quicktime event. Por ser um jogo mais conduzido pela história e as decisões, esses QTEs são bastante espaçados, o que não cria o reflexo condicionado para agir no jogador. O resultado são alguns milissegundos de atraso na minha resposta, um reflexo tardio que me custou a vida de dois personagens. Por outro lado, é possível desativar por completo a contagem de tempo para essas ações, mas há o risco do jogo se tornar fácil demais. Como tudo em Man of Medan, a decisão é sua.

Os modos multiplayer, talvez a única novidade em relação a Until Dawn, não chegam a empolgar. O chamado "Noite de Cinema" apenas organiza os jogadores localmente e permite especificar quem irá jogar qual ou quais personagens. Na hora daquele protagonista entrar em cena, o jogo pausa a tela e informa que é a hora do jogador X assumir o controle. Na prática, é um "hotseat" maroto (quem lembra?), algo que já daria para organizar informalmente em quase qualquer título, até mesmo em Until Dawn.

O modo realmente online permite que dois jogadores controlem simultaneamente dois personagens diferentes, com as ações de um refletindo diretamente no destino do outro. Podem acontecer momentos de espera, já que nem todos os jogadores tem o mesmo ritmo. Para evitar trollagens e frustrações, Man of Medan força que você interaja com amigos de sua lista de contatos na plataforma. Analisando o jogo antes do lançamento, não foi possível encontrar outro jornalista com acesso ao título no PC para avaliar esse tópico.

Calmaria

Descortinado o grande segredo do jogo, a aventura perde fôlego. O que vinha em um crescendo se esvazia. É um fenômeno natural na maioria das narrativas de horror, afinal, tememos muito mais aquilo que não entendemos do que aquilo que é explicado. Ainda assim, novamente, Until Dawn ressurge das sombras com outra comparação inevitável: em seu jogo anterior, a Supermassive Games conseguia fugir dessa armadilha e nos apresentava um clímax de peso que conseguia arrepiar.

Man of Medan fraqueja em sua reta final e nos oferece um último desafio que está muito longe de ter a força de tudo que vimos anteriormente. Para ser honesto, mal acreditei quando o jogo caminhou para seu epílogo. Depois de tudo que passei e a perda de tantos personagens (decisões erradas, reflexos ruins…), não foi alívio o que senti no final, mas um misto de frustração e "quero mais". Uma cena depois dos créditos, mesmo com uma pequena surpresa, não conseguiu me reanimar. Talvez haja finais e cenas pós-créditos melhores nessa encruzilhada.

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O desafio de se fazer um jogo com tantas variáveis funcionando é esse mesmo: nem todos os trajetos serão satisfatórios para todos os jogadores. Ainda assim, Man of Medan contém algumas falhas de encaixe, que apenas servem para quebrar a imersão. Por exemplo, o nome do navio. Ele é mantido em segredo por um longo tempo na aventura, até aparecer casualmente em um dos segredos que encontrei. Entretanto, minutos depois, ele é "revelado" como resultado de dois outros segredos, como se eu tivesse descoberto algo importante. Para piorar, não há qualquer influência perceptível na atmosfera ao se aprender o nome da embarcação maldita, assim como tampouco encontrei um sentido para o título do jogo. Afinal, quem é o Homem de Medan? São enigmas que talvez funcionem em outro alinhamento de decisões.

Em seis horas, é possível cruzar o jogo de ponta a ponta. Considerando que sou metódico e talvez tenha feito pausas para respirar, dar uma volta, fazer um lanche, acredito que alguns jogadores poderão completá-lo em cinco horas! A brincadeira que a Supermassive Games propõe é rejogá-lo, buscar rotas alternativas, decisões diferentes, jogar acompanhado, encontrar finais novos. Há até mesmo uma "Versão do Curador" com garantia de cenas inéditas e outras perspectivas, desbloqueada após a primeira travessia.

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Entretanto, o chamariz pode perder sua força depois que se completa a história, os sustos podem se tornar previsíveis. Além disso, nenhuma parte do jogo pode ser pulada, então quantas vezes alguém conseguiria atravessar o mesmo prólogo de novo e de novo ou as mesmas elucubrações do Curador, antes que a repetição anule por completo o impacto que Man of Medan possui? Não se engane: em seus melhores momentos, o jogo é um trem-fantasma descarrilhando, um frenesi de agonia que não deixa a desejar a grandes títulos do gênero. Infelizmente, o chamado "replay value" apenas depõe contra ele.

Esse é um perigo que a própria Supermassive Games precisa confrontar: quantas vezes eles podem repetir Until Dawn até não surtir mais o mesmo efeito? Essa é uma resposta que eu desejo descobrir e The Dark Pictures Anthology já tem seu próximo capítulo anunciado.

Ouvindo: Nick Cave - Gloria
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