O telefone toca e é aquela voz de novo e está fazendo um calor infernal em Miami nesta época do ano ou em qualquer outra época do ano porque essa voz abafada tem um serviço para mim e esse serviço envolve algo que eu não consigo parar de fazer, um loop catártico de dor, morte, fracasso e sangue que pulsa como neon em minhas veias saturadas. Eu aceito o serviço, é claro. Eu sempre aceito a porra do serviço. Coloco minha máscara, solto meu animal, respiro fundo, abro a primeira porta, a música pulsa dentro de mim e o balé de sangue começa. Morro. Mato. Repito. Morro. Mato. Repito. E não consigo parar e o telefone toca outra vez e Miami me odeia assim como eu odeio cada minuto desta vida, assim como eu amo o jorro vermelho, o impacto do meu joelho na cabeça de alguém, o corte da faca, os miolos voando de um filho da puta que tenta me acertar com um bastão de ferro. Minha vista treme, tenho certeza de que o mundo está balançando, movido pelas ondulações invisíveis de um sonho insano tirado direto dos anos 70, mas não os anos 70 idílicos dos hippies malucos, mas aquela brutalidade dos filmes policiais regurgitada e retroalimentada por um niilismo dos anos 90. É exploitation, é pulp fiction, é hardcore, é Boca do Lixo, snuff movie, é seriado de TV, é música eletrônica e eu não sei em que década estou agora ou que máscara estou vestindo ou como vou foder com a vida daquele cachorro filho da puta patrulhando o corredor logo ali na frente. O telefone toca, outra missão, outra parada para conversar conversas estranhas com animais com corpo de gente, para tentar entender o que esse calor miserável tem a ver com as mortes ou com a violência. "Você gosta de machucar pessoas?", pode apostar que sim, me mostra o lugar, me liberte, sou tigre faminto, sou galo louco, sou porco selvagem, bam!, nem viu o que o atingiu e agora está ali caído em sua própria poça e eu morro, renasço, recomeço, a música me entorpece, me seduz e me leva para um estado mental caótico onde cores berrantes e cenários pixelizados são meu novo lar. Ninguém me conhece. Um estranho me conhece e me dá coisas de graça. Estranhos não me conhecem e me dão listas de coisas para fazer, alvos para derrubar e eu nem sei o motivo. Só sei que é bom. Só sei que a máscara aperta. Só sei que é impossível continuar porque morro morro morro morro e a música não dá sossego, uma rave em câmera lenta de tiros e truculência. Serial Killer. Hitman. Mistério. Pode apostar que eu gosto disso. Eu amo. Eu odeio. Morro. Renasço. Sangra, desgraçado! Uma trilha de corpos espalhados por todos os cômodos possíveis, em diferentes posições de louvor para o Deus Morte, pintando de rubro minha retina corroída pelos excessos cometidos apenas para ser atingido por uma faca no último quarto rápida demais para contra-atacar e estou de volta ao ponto de partida. Os controles são estranhos, o descontrole, o caos, a anarquia disfarçada de boate de submundo e birita barata. Mas a música é tão boa. A adrenalina tão forte, correndo a centenas de quilômetros por hora em veias saturadas de pedantismo e sedentarismo. E repito. E Morro. Desisto.
Tiro a máscara.
Está tudo em paz agora.
A Lista Avança
OutcastThe Walking DeadPaper SorcererNecrovisionZeno ClashGRIDDungeonlandRace the SunSang-FroidForeign LegionHotline Miami- STALKER Call of Pripyat
- The Bridge
- Brothers
- Papo & Yo
- The Witcher
11 Comentários
Eu comprei ele numa promoção da Nuuvem e achei o jogo uma versão psicodélica de Postal 1 mas... É muito "morre e repete" pro meu gosto (o jogo é muito apelão). Em pouco tempo a minha paciência esgota e eu fujo correndo para o silêncio e a devastação de New Vegas (onde ainda existem lugares que não explorei) e sinto como se estivesse voltando para casa.
Abçs
Luiz
Naquele tempo, até mesmo a pirataria estava engatinhando e os downloads eram longos e tinham a triste mania de parar aos 99% por queda na conexão (sem direito a continuar de onde parou).
Então, quando se comprava um "joguinho" só restava ao gamer tentar até conseguir não importando quanto tempo isso levasse.
Hoje, quando pego um jogo que me faz repetir a mesma fase durante várias vezes, na terceira tentativa eu já começo a lembrar dos jogos que comprei na promoção de fim de ano da steam e que ainda nem baixei.
Eu não me obrigo mais a "vencer" um jogo se eu não estiver gostando muito dele.
Afinal, como eu já li numa postagem aqui no blog e concordo plenamente:
A vida é curta e os jogos são muitos (e baratos). :)
http://www.gamasutra.com/blogs/RamiIsmail/20121029/180408/Why_Hotline_Miami_is_an_important_game.php
Anônimo, o que você descreveu é exatamente o que nós passamos , e esse é um dos motivos pelos quais eu considero essa época a "Era de Ouro " dos jogos.Não é só a criatividade que estava em ebulição nessa época, tudo o que envolvia os jogos era novidade. Digo isso com saudade mas sem nostalgia.
Marcos e Marcos, esse é um jogo que eu vou lamentar muito não ter a capacidade ou a paciência de concluir. Estava sinceramente curtindo adoidado.
Tais, inicialmente o Steam nem estava aceitando minha review. Dava erro. Achei que fosse pela formatação. Ou pelos palavrões... mas era bug mesmo. No final, acabou indo do jeito que está.
Anônimo 1, assinaria cada linha do seu comentário! Não poderia ter descrito melhor aquela época e meu sentimento atual. Com o agravante que eu estava gostando de Hotline Miami!
Anderson, vou dar uma olhada nesse artigo aí. Estou fortemente tentado a ver um gameplay do jogo para ver como a história avança... é muito enigmática.
Anônimo 2, minhas impressões INICIAIS do The Witcher estão aqui: http://blog.retinadesgastada.com.br/2014/09/adiando-witcher.html
Na minha opinião, o texto conseguiu capturar de forma correta a natureza psicodélica, frenética e violenta do jogo, e acho que é nisso que nós deveríamos nos focar quando falamos a respeito da mecânica que, para muitos, é taxada simplesmente de "mata, morre, repete".
Essa mecânica não foi colocada por mero capricho ou somente como uma forma de estender o jogo, mas sim como parte essencial da narrativa. Estranho, não é? Bom, pense na forma como você joga a fase, você vai repetindo tudo de novo e de novo, até ter completa maestria sobre os padrões, até decorar todos os trajetos possíveis de todos os inimigos e seus diferentes comportamentos. Quando você chega nesse ponto, você faz tudo com tamanha frieza que, quando a música para abruptamente (isso acontece quando o ultimo inimigo é derrotado) você leva um pequeno choque, sendo deixado com aquele torpor de quem não está entendendo o que está acontecendo.
E é nesse momento que o jogo te obriga a fazer o trajeto de volta para o carro. Você é obrigado a ver tudo o que fez em um silêncio incômodo.
Na época do lançamento do jogo diziam que isso era a forma da obra de apresentar a culpa. "Um jogo violento contra a violência" ou algo do tipo. Não o via somente dessa forma, mas sim como essa frieza causada pela repetição me deixava cada vez mais em sintonia com o personagem.
O impeto de matar, o frenesi, tudo lhe é dado e tudo lhe é tirado da mesma forma instantânea, te deixando mentalmente nu a toda aquela violência. No começo você sente culpa, mas depois, com o desenrolar da estória, você não sente mais. Não há porque sentir.
É meio confuso. O final verdadeiro te oferece um questão de moral dúbia a se pensar, entre outras coisas... e quase entramos na área dos spoilers, desculpa.
Não irei estragar para aqueles que não terminaram. Só digo que vale muito a pena ter que morrer diversas vezes só para poder vivenciar essa obra de forma completa.
E que venha Hotline Miami 2.
Acompanho já a anos o blog. Meus parabéns pelo trabalho.