"A pergunta é simples: o que te motiva a jogar?". Uma pergunta realmente simples enviada por um camarada blogueiro que afirma ter perdido a motivação para jogar. E explica:
Li algumas teorias por aí sobre "motivação para jogar video game", alguns textos bem bons e com bons argumentos, mas nenhuma me convenceu.
Ultimamente, salvo ***, que jogo pela diversão no modo online, ando bem afastado de jogos. Mais por não saber o que me leva a jogá-los, ou por não conseguir enxergar neles mais do que "perda de tempo" (onde ***, aliás, se enquadra também).
Simples pergunta, uma ova! É a pergunta mais complexa que já tive que responder no Retina Desgastada.
Uma das justificativas pelas quais as pessoas procuram os jogos eletrônicos é o escapismo. Você já ouviu esse discurso antes: "sujeito joga para fugir da realidade", comentário geralmente vinculado ao conceito de alienação. Embora seja inegável que determinados jogadores utilizam as virtualidades como um lugar para ser feliz, não acredito que este seja o motivo principal de boa parte de meus leitores ou das pessoas de quem ouço falar. Tampouco é o meu caso. Acho questionável a teoria de que "a realidade está quebrada", de Jane McGonigal. Ou, pelo menos, a forma como ela é utilizada para menosprezar o meio.
Muitos séculos antes do primeiro pixel mudar de lugar em uma tela eletrônica, as pessoas já submergiam em livros. Décadas antes, sessões de cinema. Programas de rádio, novelas, fotonovelas, esportes, discoteca. Onde houver um ser humano, haverá alguém disposto a "perder" um pouco do seu tempo em atividades recreativas ou mundos imaginários. Na verdade, estes mundos imaginários fazem parte da realidade, da realidade intelectual de cada indivíduo.
Remover de uma pessoa a capacidade de abstrair, de se imaginar em outras situações, de sonhar acordado é condená-la aos mecanismos predatórios da objetividade plena. Somos humanos, não Borgs. E das fantasias, criamos: arte, metas, família, profissões, cada um destes elementos do chamado real nasceu primeiro dentro de sua cabeça.
No ano passado o programa de televisão CQC fez uma... matéria, vamos chamar assim, sobre os jogos eletrônicos. A abordagem é preconceituosa em diversos pontos, mas prefiro me concentrar no momento em que a produção leva dois garotos, jogadores de Mario Kart e títulos de esporte no Wii para experimentar uma corrida de verdade, boliche de verdade e tênis de verdade. A ideia embutida é que nós jogamos porque desejamos experimentar aquelas ações no mundo real e, estaríamos nos privando de realizá-las justamente por estarmos entretidos em jogá-las em mundos virtuais.
Na verdade, seria o equivalente a pegar um leitor de Guerra e Paz, colocá-lo no meio de uma planície, colocar o exército russo de um lado, colocar o exército napoleônico de outro e perguntar para o sujeito: "e aí, está gostando agora? É melhor que o livro?". Ou introduzir um fã de O Poderoso Chefão à famiglia...
Não acredito que os jogadores de Fallout 3 estejam torcendo por um apocalipse nuclear e um festival de tiro ou que os jogadores de Uncharted tem como ambição maior sair pelo mundo descobrindo tesouros. Há exceções, mas constituem uma fração mínima do todo. Embora os jogos eletrônicos ofereçam um cenário virtual onde é possível experimentar vidas e atos que não seriam possíveis no mundo real, é fato que nenhuma destas experiências é alienígena ao que o indivíduo já traz dentro de si, sua bagagem mítica de ser humano. Cada fuzileiro espacial, explorador, guerreiro de fantasia, encanador e deus da guerra presente em todos os jogos é uma nova faceta do Mito do Herói, presente na cultura humana desde que os primeiros antropóides começaram a rabiscar nas paredes das cavernas ou grunhir histórias em volta da fogueira.
Interpretar literalmente a natureza de cada avatar eletrônico é desprezar seu valor metafórico: quando se vence uma corrida de Kart na telinha, não é o desejo de correr em Kart que se realiza, mas o desejo de ser herói, de vencer, de triunfar sobre as adversidades dentro de um cenário de regras claras, de dominar o ambiente ao seu redor e conquistar seus objetivos a partir de seus próprios méritos. Brincar se faz necessário. Simular faz parte da vida.
O agora congelado Tumblr How Games Saved My Life traz um punhado de histórias que pessoas que conseguiram enxergar a metáfora e usaram os jogos como ferramenta de incentivo não para se tornarem corredores, ou pistoleiros, ou jogadores de tênis, mas Heróis de suas próprias vidas.
Uma parte significativa dos jogadores está nessa para vencer o próximo. A indústria sabe disso e a febre multiplayer não tem data nem hora para terminar. Com o advento da banda larga, o que antes se restringia ao quintal de casa, ao terreno baldio do quarteirão ou à conexão discada com um amigo sortudo, agora se globalizou. Graças a Killing Floor, superei meu triste histórico em jogos multiplayer. Se você contasse para o seu pai, em 1968, que passou a tarde com pessoas de diferentes estados (ou países!) em contato através de uma tela enfrentando criaturas, ele iria perguntar o que você andou lambendo por aí. Para nós, representantes da atual geração, tudo é natural, mas estamos vivendo o futuro da ficção-científica de quarenta anos atrás.
Para estar junto dos amigos, vale tudo: até comprar a milésima iteração de Call of Duty. Headshot, killstreak, instakill, fatality, friendly-fire, teabagging, l33t skillz, todo um novo vocabulário foi inventado para os peladeiros virtuais, um dicionário tão hermético que confunde e assusta a velha mídia. Narrativas, fugas da realidade, novos ambientes para serem explorados, nada disso importa diante do desafio, diante da súbita euforia do torneio. Em muitos casos, a diversão, a companhia (ainda que não necessariamente física) e a farra são mais importantes que a própria tela, que o próprio controle, que a própria vitória. Viramos crianças de todas as idades.
Como categorizar o prazer proporcionado por Tetris, sem personagens, sem enredo, sem nada além de blocos? Como quantificar a resposta emocional de um To The Moon, que mal pode ser classificado como jogo? Como metrificar o brilho no olhar de uma criança perante o primeiro salto de velocidade de Sonic ou a primeira visão de um italiano bigodudo? O que dizer da força poética de um Journey? Como negar a força dos temas propostos em títulos como Spec Ops: The Line ou Silent Hill 2 ou de Baldur's Gate 2? Não são simples perguntas, não é uma simples pergunta a do camarada desanimado.
O que me motiva a jogar?
(meus sinceros agradecimentos ao outro camarada Michel Oliveira que me ajudou a reencontrar o vídeo The World is Saved)

15 Comentários
Eu não acho tão complexa a resposta mas a verdade é que a minha resposta só vale apenas pra mim, pois a resposta é exatamente isso:muito pessoal.Eu jogo simplesmente por prazer,me sinto bem jogando um jogo que proporcione isso, seja de um console ultrapassado como o PS2, ou o jogo (repetido) de PSX através do emulador ou jogando pela segunda vêz Dead Island.Simples assim , não me apego á convenções ou modismos.E por ter menos tempo que antes o prazer fala ainda mais alto na hora de escolher o próximo jogo e se termino ou não ele.É isso ,jogo por prazer e enquanto ele estiver proporcionando isso, seja velho ,novo ou repetido.E o caminho que venho seguindo é exatamente o do nosso amigo do post:os multiplayers.São neles que venho sentindo prazer...
...oque me leva á uma outra pergunta: porque gostamos tanto de um determinado jogo?
Na verdade, seria o equivalente a pegar um leitor de Guerra e Paz, colocá-lo no meio de uma planície, colocar o exército russo de um lado, colocar o exército napoleônico de outro e perguntar para o sujeito: "e aí, está gostando agora? É melhor que o livro?". Ou introduzir um fã de O Poderoso Chefão à famiglia..."
Eles acertaram nesse ponto. Jogos eletronicos são simulações para pessoas com deficiencia tecnica e falta de aptidão fisica pare realizar determinado esporte. A unica habilidade necessária é destreza nas mãos e dedos e ja dá pra jogar corrida,luta, futebol,etc... E ler um livro sempre vai ser inferior a experimentar a vida real, não importa o quão bom é a ficção em questáo...
Eu jogo porque gosto de jogos, considero um bom passa tempo(perca de tempo sim,claro), e gosto de desafio,mas como não tenho nenhum esporte competitivo na vida real fazer o que...
um prego no meu ventrículo direito seria menos preciso:
http://maisumblogdegame.blogspot.com.br/2012/12/a-ardua-tarefa-de-manter-um-blog-sorte.html
que ela foi raquitizada por um sistema de jogo chato e mal-acabado. e não, não é o breno usando o perfil de conta do shadow.
P.S.: lindo texto Aquino. parabéns.
agora ficou claro que não é o breno, pois ele nunca usaria a palavra "lindo" pra elogiar um post rsrsrs.
Tipo, quando moleque eu imergia nos jogos, me sentia parte deles, viajava na história e me apegava aos personagens... hoje, aos 33 anos apesar de ainda gostar muito de RPGs, não consigo mais atingir tal nível de imersão, mesmo os jogos possuindo mais enredo, graficos e sons melhores que os de antigamente.E não culpo os jogos, e sim a minha imaginação que está enferrujada!
Perdi essa! kkkkkk, essa foi foda. quer poesia vai ler um livro de poesia,isso não constitui um jogo. Eu realmente fico fulo da vida quando o pessoal começa a incluir "jogos" do tipo aperte o botão para a proxima recompensa como To the moon, Journey, Dear Esther... Essas coisas são apenas proteções de telas interativas. movimentar um avatar pra frente e pra traz não constitui um jogo.
desculpe se estou ficando insensível, mas não consegui ver poesia nenhuma em jogo de pular e andar pra frente.
veja o caso de Flower: é basicamente uma visão artística embalada em belos gráficos. mas a jogabilidade é mais variada. há exploração dos cenários. há coisas para achar e completar. em journey isso não acontece: só dá pra pular e pegar umas luzes que ninguém sabe pra quê serve em três cenários que são pallet swap uns dos outros.
claro, journey desperta sim muitas boas sensações. mas não classificaria ele como um jogo também não.
Eu mesmo nunca fui bom em futebol, nunca me interessei muito, acho que só tive um video game de futebol na vida. Muitos outros que não se interessam pelos esportes também não jogam eles virtualmente.
Por outro lado, trabalho como motorista e detesto jogos de corrida...
Quanto ao seu simplório comentário Breno, eu só posso dizer que é devido a mentalidades como a sua que os games simplesmente não são levados a sério ainda por mta gente.
Jogos podem ser bem mais do que apenas pular, correr e atirar. Aliás, essa mecânica repetitiva é algo tão antigo e obsoleto que me admira que a esmagadora maior parte dos jogos e jogadores fiquem satisfeitos com apenas isso.
Um jogo de tiro, por exemplo, pode ser somente algo como "mate um nº gigantesco de inimigos para sua recompensa!". Isso é um jogo? Não é somente algo tão simples e restritivo quanto "aperte um botão para ver a próxima cena"? Pra mim algo assim pode ser descrito como um papel de parede interativo tipo "atire no pato". E a grandíssima diferença entre isso e os "não jogos", como o Breno provavalmente classicaria, é que esses não jogos te transmitem algo, um sensação, emoção, algum tipo de narrativa. E os jogos tipo "atire no pato", transmitem o quê?
Além da tão falada "jogabilidade" (o que isso realmente significa? Correr, pular e movimentar seu personagem? Só isso?) jogos podem ter inúmeros elementos que podem ser artísticos (além ds óbvios roteiro e personagens, muitas vzs ignorados tb), como direção de arte, trilha sonora, edição e mixagem de som e etc, enfim, coisas que de fato formam a estética de um game.
Os jogos evoluíram pouquíssimo desde que surgiram. Os gráficos deram passos largos, mas grande parte dos jogos ainda hoje, infelizmente, não são muito diferentes de Pong, Pacman ou Pitfall em roupagem de luxo.
E não que eu não curta jogos que eu mesmo considero bastante "descerebrados" (tipo aquele filme que vc sabe que é imbecil mas é divertidinho e vc assiste mesmo assim), mas tenho convicação e consciência de que games podem ainda ser mto mais, e transcender as próprias limitações e mecânicas a que se restringiram.
Uma coisa que eu não entendo no seu comentario Ed é que vc pede que os games transcedam limitações e mecanicas se tudo o que vc fala no seu comentario se refere a parte de graficos,trilha sonora, direção artistica,etc... Tem muito jogo por ai que faz isso que vc fala, na parte dos fps eu poderia citar o simulador militar ARMA 2(que nem é uma novidade) e sua modificação DayZ. Tem jogos de estrategia riquissimos por ai que não precisam da minima dose de graficos modernos e trilha sonora orquestral para fazer o cara passar noites sem durmir e por ai vai...
Sobre a pergunta do post, jogamos por que sim, não precisamos nos explicar e criar teorias complexas que nos embasem e nos conforte do porque jogamos. Apenas jogamos.