Se minha visão anterior sobre o atual panorama da indústria dos jogos eletrônicos pode parecer um beco sem saída, então eu falhei em não mostrar alternativas. Existe um sólido e talvez inconsciente motivo para todos nós estarmos acumulando uma vasta biblioteca de títulos no Steam. Existe a saída do Kickstarter, onde temos projetos que jamais viriam a luz do dia dentro de um ambiente corporativo sendo bancados por quem está mais interessado.
E, por uma característica ímpar do universo do PC, existem os mods.
Sem nenhum retorno financeiro, pelo puro prazer da curiosidade ou pela paixão de melhorar um produto de outra empresa, esses geniais e devotados criadores de conteúdo tem mantido a chama acesa e produzido obras que rivalizam com títulos comerciais fabricados na linha de produção dos grandes estúdios.
O Ataque do Mod Vivo
O mais famoso modder atualmente é Dean Hall, criador da febre DayZ. Se você não conhece sua criação, basta dizer que ele é a principal razão para ArmA II: Combined Operations figurar na lista dos mais vendidos do Steam por meses, apesar de ser um jogo de 2010. Dean Hall, funcionário terceirizado da Bohemia Interactive, responsável pela franquia ArmA, viu a oportunidade de ouro e pensou no que estava faltando no complexo simulador militar: zumbis. Em suas horas vagas, ele desenvolveu o mod e colocou no ar. É um mundo aberto persistente, sem scripts ou histórias, onde os jogadores exploram uma imensa região geográfica assolada por mortos-vivos e onde a vida vale muito pouco. Alguns jogadores viraram bandidos. Outros se uniram para melhorar suas chances. Histórias espontâneas surgiram deste experimento, sagas de sobrevivência, contos de dor e solidão. A imprensa especializada louvou o título. Em três meses de existência, o mod ultrapassou a marca de um milhão de jogadores registrados.
Um milhão de jogadores de um mod criado por um programador. Colocando esse número em perspectiva: é mais gente do que o estado atual de Star Wars: The Old Republic, o mais caro MMORPG já feito, com anos de desenvolvimento e um exército de programadores. DayZ ainda está em estado alfa. Ele é gratuito, mas precisa da instalação de um jogo que custa 30 dólares. Seu próprio processo de instalação é uma dor de cabeça que agora começa a ser resolvido com um programa terceirizado. E atingiu um milhão de inscritos.
Assim como a Valve abraçou Counter-Strike, a Bohemia Interactive se aliou a Dean Hall e até o final do ano deve sair uma versão stand-alone do jogo, que não necessitará mais de ArmA II: Combined Operations para rodar. Hall afirma que o jogo será mais polido e novas funcionalidades serão adicionadas, como a presença de cachorros que podem seguir o jogador. Com acesso integral ao código-fonte, funções de ArmA II não usadas em DayZ serão descartadas, tornando o novo título mais leve. Sobre o preço do produto final, Hall garante que será mais barato que um jogo de lançamento, na mesma linha que Minecraft.
Retorno do Jedi
Há muito tempo atrás, em um Galáxia distante, um time de desenvolvedores foi recrutado para uma missão especial: dar continuidade a um dos mais elogiados jogos ambientado no famoso universo de Guerra nas Estrelas. Pairando nas sombras do desenvolvimento, estava o contratante, sua sinistra influência clamando por um lançamento precoce para o Natal de 2004. Incapaz de fazer frente a sua nefasta força, o time cumpriu o prazo estabelecido da melhor maneira possível. Conteúdo foi removido. Perguntas não foram resolvidas. O final do jogo era uma imensa lacuna de incertezas. Seu nome seria jogado na infâmia por gerações.
Estamos falando de Knights of the Old Republic II, da desenvolvedora Obsidian e da toda-poderosa LucasArts.
Qualquer um que tenha jogado o título sabe que é um dos melhores trabalhos da Obsidian e uma das melhores histórias de Guerra nas Estrelas já contada. Qualquer um que já tenha jogado o título sabe que havia algo de estranho, que o final não estava correto, que o ritmo se acelera de forma exagerada na última jornada.
Graças ao esforço de sete anos de um time de quatro abnegados rebeldes, o jogo foi corrigido. The Sith Lords Restored Content Mod (TSLRCM) é fruto desta devoção. Como exploradores de segredos ocultos, eles escavaram o código-fonte e as pastas e arquivos do jogo e encontraram ali tudo que havia sido cortado do RPG. Zbyl2, DarthStoney, Hassat Hunter e VarsityPuppet. Quatro sujeitos que nunca receberam um centavo para fazer o que fizeram conseguiram restaurar o jogo àquilo que a Obsidian queria ter feito mas não deu tempo.
Sua recompensa é a certeza de um trabalho bem-feito e o agradecimento de toda a comunidade de fãs. Em especial, o agradecimento de Chris Avellone, cabeça da Obsidian:
"Eu tenho um bocado de respeito pelo TSLRCM por ter restaurado o conteúdo, e eu estou grato que isto possa ter visto a luz do dia. Havia muito mais que nós queríamos ter colocado no título, obviamente e o mod de restauração deverá provar isto"
Estes caras deveriam ganhar muitas saudações por seu trabalho duro, então, para todos que jogarem o conteúdo restaurado e curtirem, deixem os outros fãs saberem e deem crédito a quem merece: ao TSLRCM."
Aparentemente, a Obsidian tem um histórico em deixar conteúdo para trás, pois em Fallout: New Vegas aconteceu a mesma coisa. Ainda que ninguém tenha reclamado de finais incompletos ou situações sem sentido, um modder chamado "Moburma" vasculhou os arquivos e códigos do jogo e encontrou material escondido. Sua restauração ainda está em andamento, mas parte do conteúdo não-aproveitado já foi trazido à tona.
O Chamado de Vvardenfell
E dez anos depois de seu lançamento, The Elder Scrolls III: Morrowind continua funcionando como estímulo para modders. Se Skyrim empurrou os gráficos da franquia para a frente, a proposta dos modificadores é justamente evoluir o visual de Vvardenfell:
Morrowind Overhaul 3.0 ainda está em desenvolvimento e pretende ser um substituto para o complicado Morrowind Overhaul 2.0. ATUALIZAÇÃO (01/10): O mod foi concluído e já está disponível para download!
Iniciativas como esta ou os milhares de mods gratuitos já existentes garantem uma sobrevida ao título da Bethesda, mantendo o seu preço no patamar de 20 dólares, apesar da idade. Ciente desta peculiaridade, a desenvolvedora é uma das que mais investem em kits de modificação gratuitos para a comunidade.
Nomes como a Valve (nascida na comunidade modder e agora inovando outra vez com o Steamworks), CD Projekt Red (e seu recém-lançado kit para The Witcher 2), Frictional Games (e os capítulos adicionais para Amnesia: The Dark Descent) e outras apostam nesta parceria entre os fãs e as desenvolvedoras. Enquanto isso, tantas outras cobram por skins de personagem, roupas extras, mapas novos, carros exclusivos e outras migalhas...
25 Comentários
Há algum tempo, um sujeito teve a cara-de-pau de afirmar que estamos vivendo a "Era de ouro" dos games.É claro que discordei, pois ele estava óbviamente se referindo aos jogos "de marca".Mas se ele tivesse dito o mesmo sobre os indies e a comunidade dos abnegados "modders" eu não acharia nenhum exagero.E a iniciativa "free-to-play" Aquino deveria fazer parte de seu pertinente post.
Aliás, A Dona Aquina e o Aquininho viajaram?Chuva de posts!Ooobaaa!!
Sobre o Kotor 2, antes tarde do que nunca. Outro que ja recebeu mod de restauração foi Vampires the Masquerade Bloodlines.
Outros jogos online com temática semelhante à do DayZ que estão por vir, além do The War Z, são Survarium (da Vostok Games) e Class4 (da Undead Labs).
Achou pouco? Teremos ainda outras abordagens ao tema com Dead State, State of Decay, The Last of Us, Human Element, Dead Island: Riptide, Zombeer...
Alguns testemunhos:
- Não tinha coisa mais frustrante que meter 2 headshots de espinguarda à queima roupa num bandido em Clear Sky e ver o infeliz vivinho da silva... nada como uma simples modificação nos valores do jogo!
- Meus olhos brilharam quando achei uma simples modificação que me permitia usar as "miras de ferro" das armas em Far Cry!
- Para mim, S.T.A.L.K.E.R.: Priboi Story é o quarto jogo da série!
Um muitíssimo obrigado, comunidade modder! :D
Eu recomendo para quem já "decorou" o Shadow of Chernobyl e/ou gosta da história e narrativa da série.
A propósito, você conhece a build 1935 do Shadow of Chernobyl?
http://www.rockpapershotgun.com/2009/03/03/older-original-stalker-released-for-free/
Alguns mods que joguei e recomendo:
Brutal Doom- moderniza os tiroteios do jogo, deixando ele mais barulhento,sangrento e inimigos com AI mais refinada.
The Dark Mod(Doom 3) - Pra quem cansou de esperar Thief 4( Tambem conhecido como Thi4f)esse mod é bem ambicioso! Thief 1 e 2 também tem varias missões feitas por fãs!
Wing Commander - The Darkest Hour - Remake spin off the Wing Commander 4, feito na engine de Freespace 2! O legal dele é que é um stand alone,ou seja, não precisa do jogo original!Campanha super longa
2027 e ZODIAC(Deus Ex) - Otimas campanhas adicionais para Deus Ex! Cade o suporte a mods de Human Revolution?
Pra quem tá ansioso pelo Lost Alpha e gosta de explorar a Zona, é uma ótima pedida.
Tem bugs e alguns problemas de estabilidade, mas como você citou, nem a versão final esteve livre disso. Eu recomendo! :D
¹ http://www.moddb.com/mods/the-nameless-mod
² http://www.moddb.com/mods/deus-ex-unreal-revolution
Já falei que eu AMO mods? :)
@fabio - Tem outro mod hilário para Deus Ex, o Malkavian mod. E realmente me esqueci do The Nameless Mod! Ele é mais sequencia de Deus Ex do que Invisible War e Humar Revolution juntos(pelo menos em relação a mecanicas)!
@Marcos A. S. Almeida se não me falha a memória, a IA do jogo por diversas vezes me ignorava, ou só ficava me seguindo.
escrota essa postura das empresas de não incentivar ou dar crédito ao DFC (downloadable fan content). idolatrar seus jogos, pagar dez vezes pelo mesmo jogo e trabalhar de graça pra elas pode, mas receber por isso não pode?
Já que parte do assunto são os mods, dê uma olhada neste comentário que fiz no Xboxplus:
http://www.xboxplus.net/2012/08/29/construa-sua-casa-e-adote-criancas-com-skyrim-hearthfire/#comment-114531
Uma "pequena" lista de alguns dos mods que uso com uma breve descrição de cada. Minha esperança é que a qualidade dos mods o faça pegar o Skyrim para que nos diga suas impressões. :)
Bom, já que não pretende pegar o Skyrim agora, não terá problema se assistir este meu vídeo:
http://www.youtube.com/watch?v=V676R2n7BfM&hd=1
É um playthrough completo, 20 minutos, de Into the Depths, um mod que adiciona uma quest e dungeon de horror ao Skyrim. A quest é bem curta e um tanto simples demais, mas o cara conseguiu criar uma atmosfera de horror e, como se pode ver no vídeo, dei uns pulos aqui jogando. O cara já está trabalhando em outra quest bem mais longa e complexa e, de certeza, lançará mais até que compre Skyrim, então pode assistir sem medo.
Reza a lenda que um grupo de modders está tentando recriar o Morrowind usando as ferramentas de modificação do Skyrim. Os caras querem recriar o jogo todo. É um projeto ambicioso, mas sabe-se lá até que ponto isso vai prestar ou não. Não sei se o charme do Morrowind é transportável para corpo tecnologicamente mais avançado do Skyrim.