As primeiríssimas imagens de Borderlands mostravam um jogo genérico, acinzentado, sem vida. Em algum ponto do seu desenvolvimento, ele adquiriu um diferencial: uma identidade. Se essa identidade foi roubada de outro projeto ou não é uma questão que lamentavelmente foi esquecida pelo tempo. O fato é que essa identidade destacou aquele título de tiroteio espacial de outros títulos de tiroteio espacial de sua mesma época. Borderlands se tornou descolado.
Por essa aura de insanidade moderninha, eu tentei dar uma chance para a franquia. Joguei o primeiro Borderlands em modo solo, com resultados insatisfatórios. Joguei Borderlands 2 na companhia do meu filho e não conseguimos completar a campanha. Eu tento convencê-lo a dar uma terceira chance com o terceiro título e ele me ignora.
E, apesar de tudo isso, eu acreditava que exigiria muito pouco esforço para levar aquela aura de insanidade moderninha para os cinemas. Se, mecanicamente, aqui em casa, achamos chata a experiência de jogar Borderlands, pelo menos, da minha parte, eu reconheço que seu universo é curioso, é divertido. Borderlands não se leva a sério, brinca com clichês de cenário pós-apocalíptico e ficção científica, adota diversos elementos da linguagem cinematográfica, se aproxima de sua estética. Com tantos diretores que conseguiram produzir obras igualmente verborrágicas, intensas e hiper-violentas, bastava escolher um, abrir a carteira e levar Borderlands para o cinema.
Aparentemente, Guy Ritchie (Snatch) não estava disponível, James Gunn (Guardiões da Galáxia) não estava disponível, Joe Carnahan (Smokin' Aces) não estava disponível, Navot Papushado (Gunpowder Milkshake) não estava disponível, David Leitch (Bullet Train) não estava disponível… eu poderia ficar um bom tempo citando diretores que se divertiriam com o universo de Borderlands com competência. Diálogos ligeiros, cenas de ação constantes, brutalidade, personagens fora da caixa, já é quase um subgênero a essa altura de Hollywood.
Mas eles só tinham Eli Roth. Sou obrigado a confessar que tenho pouco interesse em sua carreira como diretor, geralmente envolvendo filmes com propostas que não me atraem. Porém, assim como em Borderlands, eu reconheço que ele tem uma assinatura, uma assinatura marcada pela violência extrema e um senso de humor bizarro.
Então, acreditei que a combinação de Eli Roth e Borderlands seria um casamento, se não ideal, pelo menos satisfatório. Não poderia estar mais errado. A adaptação cinematográfica de Borderlands comete um dos maiores pecados de uma produção cultural: ela é insossa. Está muito longe de ser boa, mas também não é um trem descarrilhado de ruim. É tão somente um filme insignificante e enfadonho que se arrasta na tela.
Reza a lenda que o estúdio ficou chocado com o excesso de violência do filme. Não é incomum que executivos adquiram direitos de adaptação sem nenhum conhecimento prévio do teor da obra original. O filme não poderia ser lançado sem uma classificação indicativa R, para adultos, o que reduziria o seu alcance de público e, consequentemente, reduziria seu potencial de lucro. Não é incomum que executivos ignorem exceções bem sucedidas, como Logan ou Coringa, para nos mantermos no campo das adaptações. Eles teriam solicitado refilmagens para Eli Roth, o diretor não teria concordado e Tim Miller, diretor de Deadpool, teria sido chamado para adulterar o filme ao gosto de quem estava pagando a produção. Por razões sindicais, o nome de Eli Roth permanece na direção, e Tim Miller foi creditado somente como produtor.
Eli Roth nega essa história e diz que sempre quis fazer um filme que fosse destinado para toda a família. É difícil de acreditar, a partir do momento em que o filme de Borderlands destoa da grande maioria de suas obras. É difícil de acreditar quando o universo de Borderlands é um parque de diversões da violência. A adaptação entrega um produto que poderia caber perfeitamente na carreira de Os Trapalhões. É um filme de ação sem ação, onde muitas balas são utilizadas e nenhuma delas parece matar de verdade, é claramente um filme que foi suavizado em todas as suas arestas para não chocar ninguém em momento algum.
No papel, talvez Borderlands funcionasse, ainda que o roteiro seja bastante corrido. Em determinada cena, uma legião de inimigos armados com lâminas avança por um corredor para pegar um personagem que decidiu fazer um sacrifício pelo grupo. Em mãos competentes, essa cena poderia conter algum nível de tensão ou uma coreografia de combate que fosse interessante. Infelizmente, não é o que acontece. Na verdade, nenhuma das cenas passa a adrenalina que deveria passar, nenhuma afirmação transmite o peso que o roteirista achou que transmitiria. Não sou um conhecedor do lore da franquia, então não posso afirmar o nível de fidelidade atingido, mas posso afirmar que a história apresentada tem buracos enormes, um vilão inofensivo e um time de heróis com quase nenhum aprofundamento ou desenvolvimento de personalidades. É de partir o coração ver um talento como o de Cate Blanchett desperdiçado em diálogos sofríveis e sequências de ação que flertam com o ridículo.
A única exceção, e também me parte o coração ter que afirmar isso, é Jack Black. Jack Black está em seu elemento natural fazendo o irritante Claptrap, que sempre foi uma presença irritante nos jogos.
Borderlands: O Destino do Universo Está em Jogo consegue ser mais genérico, mais acinzentado e sem vida do que a versão original do jogo. É um fenômeno duplo, porque também consegue fazer com que um diretor notoriamente autoral (ame ou odeie) e brutal produza um resultado que é impessoal e inofensivo. Parabéns a todos os envolvidos.
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