American McGee era um dos lendários componentes da id Software do Velho Testamento e um dos mais loucos, o que é uma afirmação surpreendente para uma desenvolvedora que tinha o gênio dos números John Carmack, o radical John Romero e o simpático doidivanas Tom Hall. Para o bem ou para o mal, a id Software foi uma incubadora de mentes criativas que se digladiavam constantemente, antes de virar apenas uma engrenagem dentro da Bethesda dentro da Microsoft. American McGee foi demitido e foi para a Electronic Arts, que também, um dia, foi outro celeiro de artistas. O mundo dá voltas.
Nos braços da EA, McGee pegou o conto de fadas lisérgico de Alice no País da Maravilhas e Alice Através do Espelho para injetar uma dose ainda maior de psicodelia, com fortes influências de estética gótica e violência quase extrema, se não fosse cartunesca. Nascia uma releitura inigualável de um clássico, uma década antes de Tim Burton seguir pela mesma estrada. Guardada as devidas proporções, era o Mario 64 do Crepúsculo de Cubatão, uma obra-prima do seu gênero, que tive a felicidade de completar antes mesmo do blog nascer.
Depois disso, American McGee largou a EA devido a frustrações nos bastidores. A EA demitiu um colaborador e fechou o estúdio de McGee. McGee foi parar na China, se envolveu com o medíocre Scrapland e desenvolveu o polêmico e incompreendido Bad Day LA, enquanto buscava uma forma de retornar aos mundos de fantasia. Tentou adaptar o Mágico de Oz, fez uma adaptação meia boca dos contos dos irmãos Grimm, mas o dinheiro faltava.
Foi a EA Games que sacudiu uma maleta de dinheiro para McGee retornar e fazer uma sequência de Alice.
Tudo Novo De Novo
Alice: Madness Returns saiu em 2011 e foi o projeto derradeiro de McGee, encerrando a carreira exótica de uma mente inquieta. Adiei mais do que deveria o meu retorno à insanidade, porém, lamentavelmente, o encanto durou muito pouco.
O início da história é extremamente promissor: Alice está no mundo real. Ela é uma órfã, após um incêndio que matou sua família inteira (é algo que já era abordado no primeiro jogo e, supostamente, já estava resolvido). Alice vive em um orfanato e faz tratamento para superar o trauma e as alucinações que teriam sido seu envolvimento com o País das Maravilhas. Então, controlamos Alice por essas vielas sujas e escuras de uma cidade portuária decadente e exploramos esses recantos, seguindo um coelho branco. É apenas um pretexto para a inevitável transição que irá levá-la de novo ao mundo da fantasia.
O contraste entre as cores do real decadente e a exuberância mágica do País das Maravilhas é muito bem executado e imaginei que a narrativa ficaria indo e vindo nesses delírios. Ledo engano. Alice retorna ao mundo real somente ao final de cada capítulo e suas andanças por lá são extremamente breves e irrelevantes.
No País das Maravilhas, Alice está de volta a sua rotina de saltar e batalhar por cenários ora encantadores, ora assustadores, mas sempre surreais. Como o nome já diz, a loucura retorna. O primeiro capítulo é uma deliciosa jornada de entendimento das novas regras, das novas tramas e ameaças que Alice precisará conhecer.
O jogo degringola de verdade a partir do segundo capítulo, quando suas engrenagens começam a ficar expostas pela repetição. É o capítulo em que Alice perde completamente o foco de sua missão e American McGee nos empurra uma sucessão infinita de personagens bizarros que parecem que só estão ali para dilatar a duração do jogo e que entram e saem de cena sem muita cerimônia.
É também o capítulo em que fica clara a estrutura das fases. Alice esbarra em um entrave para seguir em frente e precisa resolver três enigmas ou três batalhas ou uma combinação de batalha e enigma para desbloquear o caminho. Avança, repete a estrutura. A rotina fica extremamente cansativa. O que era prazeroso se torna arrastado.
Alice: Madness Returns também é prejudicado por bugs catastróficos que fecham o jogo completamente. Se a repetição natural já era um problema, ela se agrava quando somos obrigados a refazer determinado trecho por causa de um travamento. A facada final na repetitividade está na curva de dificuldade, que escala quase perpendicularmente a partir do segundo capítulo e morremos e repetimos e morremos e repetimos múltiplas vezes tentando avançar poucos metros no mapa. Tudo isso é agravado por controles que poderiam ser melhores e um sistema de câmera impreciso.
Visualmente, Alice: Madness Returns é espetacular, um digno sucessor do jogo original. Entretanto, quando esse verniz desaba, o que sobra é uma reciclagem do que o primeiro jogo tinha, embalando uma jogabilidade frágil e banal.
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