Adaptar um dos jogos mais lucrativos da história da indústria é uma pressão colossal que atrasou o desenvolvimento do projeto por mais de dez anos. Adaptar um jogo que não tem uma história principal é um desafio adicional. Adaptar um jogo que basicamente consolidou seu próprio gênero e que possui uma estética, no mínimo, peculiar tornaria essa empreitada praticamente impossível. Diversos diretores e roteiros passaram pela mesa dos executivos. Em algum ponto, alguém com visão impecável de mercado tomou a decisão final de lançar do jeito que desse, porque o público lotaria as salas de cinema de qualquer forma.
Assim, surgiu Um Filme Minecraft, possivelmente a segunda adaptação de jogo eletrônico mais constrangedora da história do cinema, perdendo somente para o live action original de Super Mario Bros.
A despeito de todos os seus múltiplos deméritos, o filme que transporta o universo mágico de Minecraft para as telas conseguiu arrecadar quase um bilhão de dólares no mundo todo e provocou tumulto em salas de cinema. Virou um fenômeno e garantiu o sinal verde para sua sequência.
Estou ciente de que definitivamente não faço parte do público-alvo, ainda que seja um jogador frequente de Minecraft. O que realmente me espanta é que o seu público-alvo tenha se contentado com um caos histérico, incoerente e esteticamente horroroso, apenas por oferecer fragmentos de uma linguagem comum. A aventura sequer é engraçada ou emocionante, apesar de trazer personagens que funcionariam muito bem em outros contextos. O roteiro não se dedica quase nada a explorar suas limitações ou conflitos pessoais e sucumbe diante da overdose de cores, caras e bocas, gritos e correria. Acreditei que os longa-metragens da franquia LEGO já tinham ensinado o caminho de como fazer uma obra que explora o poder da criatividade em universos fantásticos, mas seja emocionalmente ancorada. Enganei-me por completo.
Um Filme Minecraft abre com uma longuíssima sequência expositiva, o que possivelmente sinaliza um de dois aspectos: um roteiro mal escrito ou uma audiência de teste que ficou perdida ou impaciente para ver logo o mundo de Minecraft. Jack Black, com seu Steve, conta durante quase dez minutos os eventos que nos levaram ao estado atual da trama. É de uma pobreza narrativa singular.
Entretanto, logo em seguida, somos apresentados aos demais personagens do filme e à cidadezinha pacata no mundo real onde tudo se inicia. Parece outro filme. Parece um filme melhor. Eu pagaria para ver um ex-campeão de videogame, uma família desestruturada e uma assistente de zoológico navegando por esse mar de vidas perdidas e bizarras. São dinâmicas que se encaixam muito bem e são momentos em que parecem que eles são pessoas de verdade, ainda que caricatas. É quase uma obra de Wes Anderson.
Infelizmente, o filme se lembra de que precisa viajar para o mundo de Minecraft. A partir daí, os personagens viram postes de entregar diálogos vergonhosos diante de óbvios telões de chroma key. Estão todos claramente perdidos em seus tons ou motivações, são blocos para avançar um fiapo de trama, envolvendo uma bruxa que comanda um exército maligno e deseja governar o mundo de Minecraft. Não há muito esforço, não há reviravoltas, não há sacadas inteligentes, é um roteiro de Powerpoint com bullet points sinalizando citações e easter eggs obrigatórios para reter a atenção de seus fãs.
Nesse elenco desamparado, Jack Black está enlouquecido e drena todo o ar ao seu redor. Ele é o touro na loja de porcelanas. Da extensa carreira do ator, repleta de personagens caóticos, seu Steve se destaca. Jack Black é um bom comediante, entretanto, sem freio, ao contrário do finado Robin Williams, ele decai. Seu Steve beira o insuportável na maioria das cenas e ultrapassa todos os limites quando cisma de cantar. Seria possível traçar um paralelo com o Doutor Robotnik de Jim Carrey, exceto que esse aprendeu a se conter quando necessário e interpreta um vilão, que tradicionalmente tem menos tempo de tela. Steve cansa.
Obviamente, nada do que foi escrito aqui (ou mesmo em veículos de muito maior renome) irá reduzir o alcance da obra. Um Filme Minecraft captura o espírito de sua época, embala sem ousar em nada e entrega uma experiência coletiva para jogar pipoca pro alto no escuro do cinema.
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A propósito, obrigado pela sua defesa em outra postagem aqui do blog (que acabei perdendo de vista). Fui internado no hospício de qualquer jeito, mas não demorou muito e já saí de lá.