Bater nos clássicos é um exercício de futilidade. Não importa o que eu escreva, o que eu argumente, o que eu construa, nada vai demovê-lo da absoluta experiência do passado. E não há nada de frustrante nesse cenário, é assim que a cognição funciona. Se você ama um clássico, muito provavelmente essa paixão está conectada com um contexto muito único, uma época de sua vida livre de preocupações (em condições ideais). Assim como provavelmente essa paixão está conectada com um momento em que todos os referenciais ainda estavam sendo construídos.
Desta forma, Full Throttle é um clássico imortal da LucasArts, um dos títulos seminais da carreira de Tim Schafer. Próximo de completar trinta anos de existência, para muitos, Full Throttle está ligado a cheiro de Nescau no lanche da tarde, está ligado a biscoitos de maisena, está ligado ao computador do pai liberado por apenas algumas horas ao dia, está ligado com o primeiro contato com o rock and roll ou o primeiro contato com os jogos multimídia proporcionados pela revolucionária tecnologia do CD-ROM. Para muitos, Full Throttle é o paradigma dos adventures, um tipo jogo que exige mais do cérebro do que da agilidade, é uma porta de entrada para uma animação interativa, é a combinação perfeita de música, estilo, design e história libertária do antigo conflito entre o mundo corporativo e a liberdade das estradas.
Jogar Full Throttle pela primeira vez em 2025 não é preencher uma lacuna em meu currículo de jogador, mas testemunhar de perto que as lentes rosadas da nostalgia fazem uma falta tremenda. Jogar Full Throttle pela primeira vez em 2025 é atravessar o inferno de uma jogabilidade extremamente arcaica, punitiva, pouco lógica, para receber uma trama pueril de Sessão da Tarde.
Controlamos Bem, um motoqueiro da velha guarda em um futuro distópico nem tão distante. Bem é acusado do assassinato de um industrial, fabricante de motos turbinadas, e precisa desvendar essa trama para provar sua inocência e capturar o verdadeiro culpado. Ao longo de pouco menos de três horas de enredo, ele irá encontrar personagens caricatos, resolver puzzles incongruentes e pilotar muito pouco, até os créditos finais.
Infelizmente, Bem também irá morrer ou empacar muitas e muitas vezes. Full Throttle pertence à geração que fundou o estilo dos adventures que fazem pouco sentido, em que sequências absurdas precisam ser realizadas na ordem correta para algo acontecer. São sequências tão absurdas que beiram o cômico, como utilizar uma tropa de coelhos de pelúcia movidos a pilha para cruzar um campo minado. Completar Full Throttle sem um guia não é uma atestado de inteligência, mas um mergulho na mente insana de Tim Schafer, algo que ele exigiria novamente de seus jogadores no irracional Broken Age. Em outras partes, o que Schafer exige é paciência para que os elementos se alinhem ou os comandos respondam da forma adequada.
Três décadas depois, se salva o requinte visual. Em definitivo, o design dos personagens e dos cenários é um legado que permanecerá em minha mente. De resto, Full Throttle, mesmo em sua versão Remastered (que destaca os objetos interativos), é um exercício de frustração, tentativa e erro e consultas constantes a um guia. Completei o jogo aos trancos e barrancos e o registro está presente no canal. Porém, deixo essa estrada sem olhar para o retrovisor.
0 Comentários