Era uma vez um projeto de animação para adultos chamado de Love, Death & Robots. A ideia partiu do diretor e produtor Tim Miller (o mesmo alucinado que fez a primeira adaptação de Deadpool para os cinemas). Especialistas em efeitos digitais de computação e animadores tradicionais foram convidados para deixar a imaginação e o estilo voarem alto, sem pretensão, criando mundos impressionantes, cômicos, assustadores, sedutores, sem limites ou padrões. O projeto deu tão certo que rendeu três temporadas na Netflix. Era basicamente um quintal para os artistas brincarem, sem medo de ser feliz.
O talento de seus criadores ganhou o reconhecimento merecido e toda a equipe e os estúdios envolvidos foram contratados para uma encomenda: usar a mesma abordagem e fazer um "Love, Death & Robots" temático para os jogos eletrônicos (e alguns nem tão eletrônicos assim). O resultado são os 15 episódios irregulares de Secret Level.
O maior chamariz do novo projeto é a possibilidade de se trabalhar com universos e personagens já consolidados e queridos pelo público. O maior defeito do novo projeto é a falta de liberdade que vem com a obrigação de se trabalhar com universos e personagens já consolidados e queridos pelo público. O espírito caótico de Love, Death & Robots é deixado de lado em prol de narrativas que muito provavelmente precisaram passar pelo crivo de comitês de quem está pagando as contas. Tudo é muito certinho, muito limpo, muito esterilizado e pouco acrescenta aos conceitos já estabelecidos em suas respectivas marcas.
A única e louvável exceção está no episódio dedicado a Pac-Man. Diante da aparente impossibilidade de se contar uma história em cima de um jogo tão minimalista, seus realizadores optaram por um nível de abstração enorme e por uma atmosfera de horror primal. É um momento em que se é possível vislumbrar a ousadia que foi tão marcante antes. Ainda assim, mesmo esse lampejo é perturbado pela revelação posterior de que a recriação de Pac-Man não partiu dos animadores, mas faz parte de um novo jogo da Bandai Namco, batizado de Shadow Labyrinth. Nem o episódio aparentemente mais criativo de Secret Level foi decidido pelos seus animadores.
Na vasta maioria dos demais episódios, a impressão que se fica é que estamos diante de um comercial longo para suas franquias, com pouca ou nenhuma intenção de se contar uma história ou expandir o que já foi feito. Puxam-se as cordas certas para animar a base de fãs e nada mais. Ainda assim, não posso negar que me empolguei com os episódios de Dungeons & Dragons e Warhammer 40K e o episódio de Unreal Tournament despertou lembranças que julgava sepultadas.
Secret Level poderia ser algo maior e melhor, mas escolhe os caminhos mais seguros em todos os seus casos. É praticamente o anti-Arcane: enquanto a Riot extrapolou todos os limites do que se esperava de League of Legends, aqui Tim Miller e sua turma se rendem ao convencional. Tudo isso acaba culminando em um episódio final constrangedor, que deveria servir como uma grande ode aos jogos eletrônicos em si, mas termina sendo tão somente uma vitrine para os exclusivos do PlayStation. Fica muito claro quem está assinando cada cheque.
Seria impossível comentar sobre Secret Level sem mencionar o episódio de Concord. E aqui gostaria de deixar muito claro que eu amei o episódio. É um universo fascinante, com personagens carismáticos e ação caprichada. O episódio de Concord consegue ser muito mais interessante do que o jogo em si, mas também destaca o crime que foi abandonar algo que claramente foi desenvolvido com paixão. Remover esse episódio da lista seria um desastre ainda maior. Deixe Concord viver, nem que seja na boa lembrança de uma história curta.
0 Comentários