Chega a ser irônico (ou macabro) que eu não tenha comprado esse jogo. Alguém me deu de presente, se não me falha a memória, imaginando que seria o tipo de experiência que iria apreciar. Eu não lembro quem foi. E isso se encaixa maravilhosamente bem na narrativa que se desenrola nesse jogo brasileiro.
Em I Did Not Buy This Ticket, assumimos o papel de Candelária, uma carpideira. Só esse ponto de partida já seria instigante o bastante para se contar uma boa história. O que leva alguém a receber dinheiro para chorar no velório de pessoas que não conhece? De onde vem as lágrimas que fluem com profissionalismo insuspeito? Mas a situação de Candelária (e do jogador) se torna ainda mais complexa, quando ela encontra em sua bolsa uma passagem de ônibus que ele não comprou, de uma linha que ela não conhece.
O desenvolvedor Tiago Rech nos convida para uma viagem típica dos filmes de David Lynch, um passeio exótico pelo inexplicado, enquanto revela aquilo que Candelária esconde de si mesma. Ou não. Da forma como o jogo é construído, o jogador tem bastante liberdade para tomar suas decisões nos diálogos e tanto ir ao encontro do seu destino, como seguir fugindo para a névoa da negação. O jogo é uma visual novel, uma sucessão de telas abstratas que escancaram sentimentos opressivos e a única interação são árvores de diálogos. E, mesmo assim, cada jogador terá uma jornada única.
A minha jornada foi catártica, de uma forma que eu não imaginava encontrar em um jogo eletrônico. I Did Not Buy This Ticket é um tratado sobre a morte, sobre a culpa e sobre o que pensamos de nós mesmos. Há vários momentos incômodos, o jogo não se acanha e cabe a cada um decidir como reagir aos eventos.
A arte se complementa por um trabalho sonoro muito presente. Não apenas as faixas instrumentais que aumentam a sensação onírica dessas viagens, mas também os sons que conseguem amplificar o desconforto da personagem e o nosso. Em diversos pontos, o jogo flerta com o horror. Em outros, com o sublime.
Eu não comprei esse jogo. Mas ele é meu agora. E eu cheguei em meu destino. Obrigado a quem comprou.
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