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25 de novembro de 2018

Jogando: LEGO DC Super-Villains

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(originalmente publicado no Gamerview)

Um jogo LEGO é tão previsível como arroz com passas nos jantares de fim de ano: muda muito pouca coisa, tem quem vai continuar comendo e amando e tem quem vai continuar torcendo o nariz. Felizmente, estou do lado daqueles que seguem amando – os jogos LEGO, não arroz com passas.

Sendo assim, estou aqui para dizer que LEGO DC Super-Villains é mais do mesmo com algumas diferenças, e isso é bom, apesar de tudo.

É Bom Ser Mau

Depois de três jogos dedicados ao Batman (e um elenco cada vez maior de coadjuvantes), a TT Games seguia devendo um título da DC com o escopo de Lego Marvel Super Heroes. Faltava trazer para a DC uma aventura épica que se alastrasse por diferentes cenários de seu universo ficcional e trouxesse uma legião de personagens de todos os tamanhos e poderes. A desenvolvedora poderia lançar um LEGO Batman IV: Todo Mundo Mesmo Dessa Vez ou simplesmente um LEGO DC Super-Heroes, que iria vender do mesmo jeito, porque fã é fã e jogo LEGO é jogo LEGO.

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Entretanto, a TT Games resolveu pensar um pouco fora da caixa dessa vez e escolheu dois caminhos que se cruzaram nesse novo jogo: mostrar a visão dos super-vilões, os colocando no centro dos holofotes, e ampliar muito a agência do jogador, permitindo que ele crie um protagonista do zero. O resultado é LEGO DC Super-Villains.

A trama mistura elementos do multiverso DC, trazendo os vilões do Sindicato do Crime da Terra 3 para a Terra principal. Os heróis tradicionais são colocados fora de cena e cabe aos vilões clássicos descobrirem o que está acontecendo, tentando deter essa nova ameaça. Afinal, o planeta é pequeno demais para tanto bandido e Coringa, Lex Luthor, Adão Negro, Flash Reverso e outros figurões não vão aceitar essa concorrência inesperada. É claro que há algumas reviravoltas no caminho, nada muito surpreendente, mas é um prazer inesperado conduzir uma história inteira no comando de vilões, algo que não acontecia desde a campanha alternativa do primeiro LEGO Batman, lançado há dez anos atrás.

A TT Games evita a controvérsia óbvia de colocar o jogador na pele de psicopatas confessos como Arlequina ou Espantalho, ou mesmo criaturas bestiais como Solomon Grundy ou Tubarão-Rei, usando a ferramenta mais garantida de qualquer jogo LEGO: um senso de humor que não tem medo de se passar por ridículo. Assim temos uma Arlequina que passeia de patins com desenvoltura e repete frases como "Quem disse que eu não ia conseguir? Bem, não vou mesmo, mas não gostei nada disso" ou um Tubarão-Rei que dança hula-hula porque sim.

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Desta forma, os supervilões que infernizam os heróis no cinema e nos quadrinhos aparecem em cena como bufões incompetentes com personalidades que beiram o infantil, que mal conseguem coordenar seus esforços em conjunto, brigam entre si ou se atrapalham sozinhos em seus objetivos. É uma escolha mais do que acertada e LEGO DC Super-Villains diverte bastante, principalmente por estar livre das amarras de precisar adaptar fielmente outras obras – uma obrigação que afetou negativamente outros títulos da franquia, como Lego Jurassic World ou Lego Marvel's Avengers.

Esse é o jogo LEGO com o maior volume de opções de customização que já vi e é possível criar um número astronômico de combinações de poderes, habilidades e aparências. O editor de personagens chega a ser cansativo, principalmente no início da aventura, quando tudo que você deseja é dar partida na história – felizmente, não é complexo e pode ser navegado tranquilamente por uma criança (meu filho agradece). Impressiona que seu personagem participe das cutscenes, que são geradas em tempo real com seu modelo. Apesar da dublagem caprichada do jogo em português, não espere ver o seu nome falado em momento algum (por razões óbvias), então, para todos os fins, ele é o Recruta.

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Da minha parte, temia que o novo personagem "Recruta" fosse roubar as cenas dos já estabelecidos grandes nomes da vilania do Universo DC. O jogo não apenas permite que você crie seu próprio personagem como também te obriga a fazer, onde ele será colocado em momentos-chave do enredo. Entretanto, na maior parte do tempo, o tal recruta sem fala fica em segundo plano e quem brilha mesmo são Lex Luthor, Coringa e companhia.

Pisando em um LEGO

Em termos de enredo, LEGO DC Super-Villains perde para seu primo LEGO Marvel Super-Heroes ou mesmo para o saudoso LEGO Batman 2. Não chega a fazer feio, mas tampouco traz momentos empolgantes, passada a novidade de se estar no comando de vilões quase todo o tempo. A TT Games parece tímida em explorar todas as possibilidades de cenários do Universo DC e mesmo locações icônicas recebem mapas minúsculos. Isso se reflete depois no mundo aberto, extremamente pequeno do lado de fora, principalmente quando comparado com a Nova York da Marvel, ainda que contenha muitas áreas internas.

Quem nunca jogou um jogo LEGO na vida perdeu uma boa década de títulos, mas pode começar tranquilamente por esse. As mecânicas são as mesmas de sempre: você controla diferentes personagens, um de cada vez, e cada um deles possui as habilidades necessárias para resolver puzzles simples no cenário. Em tela dividida, dois jogadores podem se alternar entre os personagens também. Há combate quase o tempo todo, mas ele é tranquilo e sem consequências maiores. Para os veteranos de LEGO, é perceptível que a TT Games vem tornando os títulos mais fáceis a cada encarnação e isso pode ser observado nos desafios e nas lutas.

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Qualquer veterano LEGO também tem uma pergunta na ponta da língua: "E os bugs?". Não seria um título LEGO sem a costumeira diversão e seus bugs – porém, enquanto LEGO DC Super-Villains entrega uma dose satisfatória daquele, o jogo exagera nesse. Por incrível que possa parecer, há bugs demais no título. Mais do que a média, pelo menos.

Em cerca de doze horas de jogo, passei por um CTD ("Crash to Desktop", quando o jogo fecha inesperadamente por completo e te devolve para a Área de Trabalho do Windows), diversos bugs de animação onde o personagem travava no cenário e um momento em que era impossível avançar na história porque um NPC não fez a parte dele. Durante uma das partidas, meu filho caiu "embaixo do mapa", mas conseguiu fugir trocando para um personagem voador. Não podemos esquecer do mais clássico: desde 2008, se eu sou o Player 1, o jogo mantém minhas configurações de teclado, se eu sou o Player 2, eu preciso configurar tudo de novo. São dez anos com o mesmo bug, TT Games!

São defeitos que depõem contra todo jogo LEGO que se preza. São previsíveis como o arroz com passas nos jantares de final de ano. No final das contas, em nome da diversão proporcionada, a gente releva, dá um tapinha nas costas de seus criadores e segue recomendando – LEGO DC Super-Villains, não arroz com passas.

Ouvindo: Kill Hannah - Don't Die Wondering
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