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20 de outubro de 2018

Eu Vi: Defiance (Série Completa)

Defiance

Quem diria que meses depois de ter visto e analisado o episódio-piloto e até meses depois de ter me despedido do MMO, eu não apenas ainda estaria atado ao universo de Defiance como também completaria as três temporadas da série? Ainda mais considerando que a última série que vi de ponta a ponta foi a inesquecível Lost, temos aqui um acontecimento singular.

Não que Defiance, a série, tenha uma qualidade excepcional. Tenho certeza de que há produtos melhores no mercado. Mas minha quase obsessão pelo jogo me levou à série, um episódio levou a outro, uma temporada emendou na próxima e quando dei por mim estava conectado com aqueles personagens, seus dramas e suas falhas, suas vitórias e, principalmente, suas quedas.

A princípio, Defiance parece uma série de ficção-científica, com diversas raças alienígenas, espaçonaves aqui e ali, armas que disparam feixes de plasma e até um monstro em CGI ocasional, quando o orçamento permite. Analisando com uma lupa, o que temos é um faroeste: a velha saga de uma cidade pequena lutando para manter seu povo unido contra ameaças externas, com ruas empoeiradas, pobreza, homens embrutecidos, xerifes de gatilho rápido e mulheres sedutoras. Não é a primeira vez que autores misturam gêneros, mas em Defiance essa combinação funciona a contento, quando seus roteiristas não estão tentando reinventar a pólvora.

Nolan e IrisaEm contrapartida, analisando com um microscópio, Defiance é extremamente similar a esse novo estilo de série que vem sendo feito na última década. A despeito de todo o cenário, a despeito de todos os elementos exóticos que possam porventura temperar a narrativa, o que vale mesmo são as interações entre os personagens, suas histórias individuais, suas traições, seus erros, seus posicionamentos, seus defeitos e qualidades se chocando nas pequenas coisas.

É algo que vi em Lost, The Walking Dead e todas as outras séries das quais vi somente pedaços: sua similaridade com as telenovelas, sua estrutura criada para que a gente se importe com as pessoas e não com seu universo, quase como uma fórmula que você pode transportar para uma cidadezinha assolada por zumbis, uma cidadezinha envolta por uma cúpula, uma cidadezinha nos confins do espaço, uma cidadezinha visitada por extraterrestres... e talvez seja melhor assim. Há muitos exemplos de séries que se perderam em suas próprias mitologias, negligenciaram o elemento humano e terminaram afundando ou sem respostas para tantas perguntas que levantaram.

E Defiance se perdeu no caminho, certamente. A mudança de tom entre a primeira e a segunda temporada é gritante. Se a primeira temporada foi marcada por um padrão de "problema da semana" com uma leve insinuação de trama maior subjacente, a segunda temporada mergulha de cabeça em um grande arco hiperbólico ao mesmo tempo que joga fora a atmosfera de esperança e triunfo sobre as adversidades em troca de uma perspectiva cínica e beirando o depressivo para tudo e para todos. Os vilões se tornam mais vilanescos, os mocinhos se afundam em vícios e dúvidas, o niilismo impera. Uma nova guinada na terceira temporada abre com a morte de nada mais nada menos que três personagens marcantes e a introdução não de um, mas de dois arcos maiores simultâneos, ambos aparentemente tirados da cartola. Felizmente, a decisão dos roteiristas de reduzirem o elenco e dobrarem os desafios parece acertada porque a série ganha ritmo acelerado e foco nos sobreviventes, embora a resolução dos dois arcos seja apressada.

Ao longo de 39 episódios vi muitos personagens evoluírem em grande estilo. Ironicamente, Nolan e Irisa, os dois protagonistas do episódio piloto e que aparecem no jogo, são eclipsados pelo núcleo da família Tarr, que nascem como vilões e crescem de tal forma ao longo das temporadas que você se vê obrigado a torcer por eles e pela possibilidade de uma redenção. A atriz Jaime Murray brilha no papel de Stahma Tarr, matriarca da família e dona de uma ambiguidade deliciosa que permanece intrigante e sutil quase até seus últimos minutos em cena. No polo oposto, Tony Curran empresta a Datak Tarr, dublê de marido e psicopata, uma interpretação vigorosa e assustadora, sem perder o charme, e ganha de presente o protagonismo do melhor episódio de toda a série, quando conhecemos sua infância, sua juventude e seu hilário momento de glória no presente. Outro destaque fica nas mãos de Trenna Keating, interprete da Doutora Yewll, o clichê ambulante do médico mal-humorado, mas que ainda consegue arrancar risos, ternura e horror de acordo com o momento.

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Os cinco minutos que sucedem essa cena conseguem ao mesmo tempo serem épicos e cômicos, o que se encaixa como uma luva no personagem.

A trilha sonora é digna de nota. Não apenas sua música-tema e as outras faixas instrumentais são um excelente trabalho de Bear McCreary, como também a série apresenta uma magnífica seleção de músicas dos anos 80 e 90 (ou reinterpretações destas), escolhidas a dedo para se adequar a determinadas cenas em alguns episódios.

Defiance, de forma sorrateira mas indelével, entrou agora na minha bagagem cultural. Havia muitos pontos que poderiam ser melhores, inclusive sua alardeada integração com o jogo e um final poético, mas sem sentido. Ainda assim, valeu a jornada e o arco de Saint Louis irá brilhar ainda por um longo tempo em minhas memórias.

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