Retina Desgastada
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28 de abril de 2018

(não) Jogando: Geneforge 1

Geneforge 01

Jeff Vogel já era um desenvolvedor indie antes mesmo desse termo ser cunhado. Jeff Vogel já blogava sobre os bastidores da criação de jogos mais ou menos na mesma época que eu comecei. Jeff Vogel é um apaixonado por jogos eletrônicos de RPG desde sempre e certamente irá morrer em cima de um teclado produzindo um novo título para sua Spiderweb Software. Daria para contar nos dedos quantos criadores como ele existem, na ativa há quase vinte e cinco anos, com uma produção constante, entregando jogos para um nicho muito específico de jogadores, se sustentando desse trabalho e se mantendo fiel ao seu estilo após tantos anos.

É igualmente inacreditável que eu nunca tenha tentado jogar nada dele pra valer nos últimos 20 anos.

Se não me falha a memória, experimentei a demo de Nethergate em 1998 ou 1999, para descartá-la por sua complexidade retrô em alguns dias. Para Geneforge, dediquei bem mais do que isso e mergulhei por 14 horas, em diversas sessões, nessa jornada por seu mundo fantástico.

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Apesar de ter sido lançado em 2001, o título, que abre uma saga que se estendeu por cinco jogos, parece algo que escapou de 1991. Não apenas os gráficos tem aquela qualidade de Windows 95, como a própria jogabilidade dispensa muitas das facilidades modernas que vieram depois, como controles por teclado, diálogos dublados, texturas que você não teria vergonha de mostrar para sua mãe, resolução acima de 800x600... Em outras palavras, Geneforge 1 não envelheceu mal: ele nasceu arcaico. Mesmo com um mod gráfico desenvolvido por fãs, não há muito o que melhorar.

Ainda assim, a mente brilhante de Jeff Vogel cativa e ele claramente se recusa a seguir as convenções do gênero que ama. Em Geneforge, tecnologia e magia se misturam em uma realidade dominada pelos Shapers, soberanos de um vasto Império com a habilidade de criar vida, projetar e conjurar servos animados capazes de executar as mais diversas funções. No lugar de máquinas, Serviles que fazem as tarefas mais básicas, como agricultura, pecuária, serviços domésticos. No lugar de tanques, monstros de combate. No lugar de chaves-mestras, organismos capazes de abrir fechaduras. No lugar de armas de projéteis, estruturas orgânicas capazes de disparar espinhos. No lugar de computadores, criaturas deformadas constituídas basicamente de cérebros e um corpo obeso fixo em um ponto, catalogando, registrando, oferecendo informações.

O jogador interpreta um desses Shapers, um iniciante que tanto pode ser da própria casta especializada em conjurações, como também pode ser um guardião ou espião dessa casta. É a visão de Vogel para a tradicional trinca Mago-Guerreiro-Ladrão. Entretanto, todos são capazes de invocar criaturas e elas serão seus companheiros nessa saga.

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A grande reviravolta se dá logo na abertura do jogo: atacado em uma viagem pelo mar (à bordo de um barco vivo!), me vi náufrago em uma ilha não mapeada, que outrora foi uma estação de pesquisas dos Shapers. Nessa ilha esquecida por todos, por motivos misteriosos, as criações aprenderam a desenvolver sociedade, longe de seus mestres. E daí vem o dilema: esses construtos são dotados de consciência, então, eles merecem ser tratados como iguais? Sem rodeios, Vogel coloca você no centro da polêmica. Muitos títulos abordaram o conceito da escravidão (Fallout que o diga) ou o conceito do que é uma alma (Legion, de Mass Effect 2 manda lembranças). Mas em Geneforge 1, você é o opressor, você é o escravocrata.

Se a premissa já é instigante em si, Vogel ousa se posicionar em cima do muro e não tecer qualquer juízo de valor. As sociedades aqui existentes são dignas de compaixão? Para mim, certamente. Mas não porque ele força a mão nesse sentido. Como os bons RPGs que não se fazem mais e como muitos outros RPGs contemporâneos gostariam de fazer, Geneforge 1 dá liberdade plena aos jogadores para seguir seu caminho: cabe a ele se tornar o tirano que irá purificar essa heresia de criações com vontade própria ou se transformar no salvador que irá conduzi-los para uma nova era de igualdade. Todos os caminhos são válidos aqui. Há diferentes soluções para vários dilemas e diálogos.

Não há decisão certa ou errada nessa ilha, mas isso também não significa que não haja consequências. Seus feitos viajam longe e as comunidades irão reagir de acordo com sua posição em relação a elas.

Geneforge 04

Infelizmente, esse universo fascinante e original é prejudicado por uma interface arcaica, combates limitados de opções mas brutais e um bocado de idas e vindas para conseguir se curar. Não adianta muito tentar encarar os inimigos de peito aberto, mesmo com o combate por turnos. Aqui não é Diablo e você irá morrer em profusão se não for meticuloso. Tampouco espere um loot constante ou itens poderosos aparecendo: Geneforge é econômico, para não dizer muquirana, nesses quesitos e você estará enfrentando não apenas feras renegadas como também a constante falta de grana para comprar poções de cura.

Mesmo com todos esses fatores lutando contra mim, persisti até onde podia. Conhecer mais desse estranho universo engendrado por Vogel se tornou meu combustível. Aprendi a conjurar novas e mais poderosas criaturas, embora nenhuma delas passasse qualquer sensação de evolução na escala de letalidade. A tela de morte era minha companheira mais fiel.

Geneforge 08

No final das contas, foi o escopo de Geneforge 1 que me venceu. Em 14 horas, alcancei menos de um quarto de toda a ilha. Visualizar o mapa inteiro na internet foi meu erro. Exaurido, capitulei diante da visão de dezenas de horas ladeira acima. Apenas torço agora para que não se passem outros 20 anos até retornar à obra de Jeff Vogel.

Ouvindo: Faith No More - Faster Disco
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Um comentário:

Luiz Carlos disse...

Comprei um Pacotão da Spiderweb em alguma promoção por 26 reais, todos os geneforge, boa parte dos avernum(faltando só o 3 que ainda tava sendo refeito na época) e os 2 primeiros jogos avadon. Acabei jogando só o avernum, terminei o primeiro jogo que me custou 66 horas, foi um bastante divertido, mas não me via gastando essa mesma quantidade de horas pra terminar o segundo jogo logo em seguida, acabei indo pra outro jogo e assim outro. Acabei nunca retornando pro avernum. Diferente do que li você falando do geneforge, avernum não me deu muitos problemas quanto a dificuldade, morri poucas vezes no inicio e logo virei uma maquina de destruição, matador de dragões e demônios antigos. O ultimo Boss acabou me matando algumas vezes, mas fora isso foi uma viagem tranquila.

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