O velho hábito de fechar portas continua funcionando. Assim que eu subi as escadas, ouvi a criatura socando a porta lá embaixo no primeiro andar, querendo entrar, claramente tentando seguir meu rastro. Até aquele momento, eu não sabia se os monstros eram capazes de derrubar portas, mas agradeci mentalmente a mim mesmo pelo hábito de fechar depois de passar. E engatilhei a pistola no alto da escada.
Um ou dois minutos se passaram, com a respiração suspensa. Encontrava-me ferido, em território desconhecido, sozinho, sem itens de cura e havia uma coisa forçando a porta. Mas a porta não cedeu. Mais tranquilo, explorei o segundo andar. Pela janela, vi outros dois zumbis lá embaixo. Pela janela, fui avistado por outros dois zumbis lá embaixo. Eles correram para a mesma porta em que já havia a primeira criatura.
Não sei e continuo sem saber se a paciência dos monstros é infinita. A minha certamente não é. Com as barras de fome e sede caindo e a certeza absoluta de que o único outro jogador no mapa inteiro não poderia vir em meu resgate, percebi que havia outra porta na parte da frente da casa. Meu plano era simples: abrir a porta da frente e correr, correr sem olhar pra trás.
Avancei para a porta da frente e aparentemente os monstros sentiram meu cheiro ou ouviram meus passos e correram para a mesma porta. Era um impasse. Sem parar para pensar melhor no plano, abri a porta assim mesmo e tentei correr. "Não sabendo que era impossível..." começa aquela pérola da sabedoria popular.
... foi obrigado a recuar, derrubou um zumbi na pistola e foi devorado pelos demais, deveria terminar aquela maldita pérola de sabedoria popular.
Era minha segunda morte, mas sem dúvidas o ápice da minha experiência com Lifeless e meu batismo de fogo no sub-gênero.
Sem Vida
A graça desse tipo de jogo é o fato de que nada está preso por roteiros. A jogabilidade emerge dos riscos de desafiar as regras de um mundo invariavelmente hostil. Como em Minecraft, mas com muito, muito menos possibilidades de interação e muito, muito mais tensão. Em seus melhores momentos, Lifeless me lembrou a franquia S.T.A.L.K.E.R.. Mas uma lembrança meio vaga.
A menos que você tenha ficado congelado nos últimos cinco anos, já sabe que esse tipo de jogo explodiu em popularidade, deste o modesto começo como um mod para Arma II e o pioneiro DayZ, até uma enxurrada de clones de todos os tipos, de todas as desenvolvedoras. Até então, eu observava a febre de longe e com boa dose de cautela (para não dizer desprezo). Assombra-me a desfaçatez em que esse tipo de jogabilidade descamba rapidamente para fantasias de poder e tortura sobre outros jogadores, pouco importando o cenário ou os monstros, um simples verniz para o lobo humano caçar outro lobo humano.
Mas a curiosidade matou o gato. Descobri que Lifeless, apesar de recém-lançado, estava disponível por um dólar em um pacote no Green Man Gaming, loja que também produziu o jogo. Comprei para experimentar. Vi um par de vídeos e descobri que há um sistema de facção dentro de seu universo pós-apocalíptico, ou seja, pelo menos metade dos jogadores não está ali para te matar.
Um dos três NPCs na base da minha facção
Entretanto, a melhor (ou pior?) surpresa viria ao ligar o jogo e descobrir que há mais servidores disponíveis do que jogadores conectados. Os rumores nos fóruns é que a desenvolvedora abandonou o jogo em Early Access e, embora infundados, espalharam-se como fogo e os jogadores, o principal recurso do subgênero, debandaram em massa. Jogando durante a tarde, eu era o único explorador. De noite, a situação melhorou um pouco... contei 6 jogadores no mundo todo, quatro de uma facção, dois de outra, mas em servidores diferentes.
É claro que escolhi um dos muitos servidores vazios. Então, aqui estou eu com um playground de perigo e ruínas para explorar todo para mim, sem o risco de um tiro de fuzil vindo de lugar algum explodir minha cabeça porque alguém acha divertido. Cheguei a gelar quando recebi a mensagem que outro aventureiro (com BR no nick!) havia entrado no mesmo servidor. Mas o mapa é imenso, as chances de nossos caminhos se cruzarem e ele ser da facção rival eram muito baixas.
A longo prazo, talvez médio prazo ou mesmo curto prazo, esse "privilégio", essa "exclusividade" vai condenar esse mundo. Até lá, eu pretendo explorar um pouco mais.
3 Comentários
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