(originalmente publicado em http://www.dorkly.com/comic/58310/dayz-ed-and-confused)
DayZ ainda está em Early Access e conseguiu vender um milhão de cópias, em plena Holiday Sale do Steam. De pequena pérola semi-obscura criada por um funcionário da Bohemia em suas horas vagas para um fenômeno cultural sustentado por relatos de horror. Basicamente, a pedra fundamental sobre a qual se ergueu um novo, bem-sucedido e perturbador gênero: Mundo-Cão Online.
Tudo que é desprezado, bloqueado, proibido, criticado em jogos para múltiplos jogadores encontra seu lar debaixo do mesmo teto: um mundo aberto sem regras ou roteiro onde o mais forte sobrevive e o mais fraco vive em constante medo. É o triunfo do mito do huehuebrbr, sem fronteiras, aplaudido e rendendo milhões de dólares para os cofres dos desenvolvedores que abriram as porteiras do Inferno.
Um grupo de jogadores cerca um desavisado e lhe dá uma escolha: cantar para os bullies ou ser morto. Tudo devidamente documentado no YouTube, porque não seria engraçado se não fosse público. Outro grupo funda um "culto", que anda sem calças, carrega machados e se comporta de forma... estranha. Um jogador no Steam descreve o jogo como o único título onde é possível "correr seminu com um bastão de baseball, gritando 'LEEEEEROY JENKINS' e soltando canções-temas aleatórias de diversos filmes". Outro relata que foi amarrado, forçado a comer 5 maçãs podres, baleado na perna e largado na floresta. E pobre daquele que tentar uma aproximação mais cooperativa.
DayZ não está sozinho. Pavimentado o caminho, outros vieram em sua esteira: o infame WarZ (renomeado para Infestation: Survivor Stories), 7 Days To Die, The Dead Linger. E Rust.
Rust tem o pedigree do criador do Garry's Mod, que é essencialmente uma sandbox em cima da Source Engine. Em sua nova sandbox, a Facepunch Studios resolveu levar a sério o seu nome e acrescentou diversas mecânicas para estimular a fina arte de tornar a vida de outro ser humano desagradável. A mais famosa análise do jogo descreve como um jogador construiu sua casa ao redor da casa de outro jogador, o transformou em seu prisioneiro e ficou alimentando-o com uma dieta de comida enlatada e maus-tratos. Traição, tortura, truculência e trollagem são a tônica do jogo. Ultrapassou DayZ como o mais vendido e o mais jogado.
Do paraíso prometido da "narrativa emergente", das histórias criadas pelos jogadores, brotam apenas sangrentos post-its do pesadelo. "É apenas um jogo", afinal.
Zumbis? A ameaça global que deveria unir todos em torno do mesmo propósito? Pouco vistos, raramente mencionados, irrelevantes. Não me espantaria de vê-los removidos totalmente em uma futura atualização ou em um próximo clone. A maior de todas as ameaças é o seu semelhante.
Mais de vinte anos depois da refilmagem de Noite dos Mortos-Vivos, alguém finalmente entendeu o recado do mestre Romero: zumbis são e sempre foram uma metáfora. Nós somos eles. E eles são nós.
6 Comentários
"Tem tantas pessoas que se acham demais por serem uns babacas nesse tipo de jogo. Ser um babaca não é uma skill que deveriam se orgulhar"
Até acho interessante essa dinâmica , pois é mais desafiador tentar sobreviver á outros e aos zumbis, mas essa mesma dinâmica me afasta deste tipo de jogo , pois não tenho interesse em participar de um grupo , o que significa praticamente um suicídio.Desativar o Player vs player seria uma ótima solução pra mim, mas com certeza desagradaria a muitos.
Falo em tom de brincadeira, mas a verdade é que o Steam é um fenômeno ainda pouco estudado , meio que um antídoto contra a pirataria.Mas infelizmente muitos "especialistas" não querem enxergar ou aceitar isso, seja lá por que motivo.