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21 de novembro de 2016

Brasil dos jogos: Marcelo Barbosa

(publicado originalmente no Código Fonte)

O mercado de jogos eletrônicos nacionais explodiu nos últimos anos, com novos títulos chegando às prateleiras digitais em ritmo acelerado. Essa série busca traçar um perfil de alguns destes desenvolvedores brasileiros que lutam por um espaço nesse mercado em ascensão.

Marcelo Barbosa é um desenhista de animação por paixão que virou desenvolvedor de jogos eletrônicos para dar uma nova vida ao seu personagem mais famoso: o garoto rechonchudo Tcheco Nenê. O guri de voz engraçada e universo maluco já teve sua própria série animada em 1999, transmitida por um canal público de televisão em Porto Alegre, sua cidade natal. Barbosa cuidava não apenas dos desenhos, como também da dublagem, em uma estrutura quase artesanal. Hoje em dia, ainda é possível assistir vários episódios em um canal no YouTube.

Quinze anos se passaram e o personagem mudou de mídia: Tcheco no Castelo do Sarney nasceu como jogo gratuito, ganhou diversas melhorias e, através de um financiamento coletivo completado em 24 horas, se tornou Tcheco in The Castle of Lucio, disponível no Steam desde Junho de 2015. Com 65 níveis aparentemente desconectados, o jogador precisa atravessar o interior de um castelo repleto de desafios, referências à antiga série animada do personagem e a elementos da cultura pop. É um título que remete ao passado despretensioso dos jogos de plataforma, com um nível de dificuldade que não deixa nada a dever aos clássicos do arcade.

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Capa original da versão gratuita, em uma citação à Turma da Mônica e sátira a uma certa figura dos bastidores do comércio dos jogos eletrônicos no Brasil.

Tudo isso montado sem muita experiência prévia: Marcelo Barbosa mexia com hacks de cartuchos nos anos 90, mas nunca se definiu como programador. Mas, com a cabeça nos jogos clássicos da década e um personagem de animação, a união das duas paixões era inevitável.

1) Tcheco é um personagem que se tornou um nome facilmente reconhecível no meio underground de Porto Alegre. Mas, porque ele tem esse nome?

O personagem foi inspirado em um amigo de infância chamado Diego. “Tcheco” é uma variação de Diego.

2) Ele sabe que é o Tcheco? O que ele acha do vulto que a brincadeira tomou?

Sabe, sim. Mas acho que não se importa (até porque o personagem tem quase nada em comum com ele).

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Tcheco in the Castle of Lucio

3) A primeira animação de Tcheco surgiu em 1999 e o jogo foi lançado somente em 2014. Por que esse hiato tão grande?

Porque não sou programador e demorou muito até conhecer softwares que permitissem a criação de jogos de maneira mais simples. Mas desde a década de 1990 eu tentei trabalhar com outras pessoas para a criação de softwares com o Tcheco (só não tinha dado certo nenhuma dessas tentativas).

4) Como começou essa relação com os jogos eletrônicos? Quais são suas influências?

Eu comecei a jogar aos 5 anos, no Atari 2600. A maior influência pro Tcheco foram os jogos do Nintendo 8-bits (tanto os considerados bons quanto os ruins).

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Bugs Bunny Crazy Castle foi uma das inspirações para Barbosa.

5) Quais ferramentas foram utilizadas na produção do jogo e das animações?

O jogo foi feito basicamente só com o Scirra Construct Classic. Agora ele está sendo refeito no Construct 2.

6) Poderia falar mais sobre seus planos para esse remake do jogo?

Construct 2 é uma engine aparentemente bem mais estável que a Construct Classic. Não existirão novas fases. Estou fazendo melhorias técnicas, implementando algumas sugestões e pretendo deixar o jogo aberto e facilmente modificável por mim pra receber ainda mais atualizações no futuro.

Estou implementando um menu com opções pro jogador poder configurar o jogo, por exemplo. Eu não fiz um de propósito na primeira versão, mas o pessoal pelo jeito gosta de configurar, hehe.

A dificuldade do jogo será levemente alterada – algo que eu faço a cada atualização. A princípio eu quero colocar um sistema de passwords nessa versão, vamos ver se corre tudo bem.

Não tenho ideia de quando a nova versão ficará pronta. Quem tem a versão Steam do Tcheco vai receber a atualização gratuitamente.

7) A trilha sonora do jogo também foi bastante elogiada. Como você chegou até o compositor Ozzed e como foi trabalhar com ele?

Na verdade não trabalhei com ele. As músicas estão disponíveis no site do Ozzed para quem quiser usá-las. Selecionei as que queria e coloquei elas no jogo.

8) Como tem sido a receptividade de Tcheco in the Castle of Lucio no exterior?

O jogo faz muito mais sucesso no Brasil (quase metade das vendas são feitas pra brasileiros), mas é curioso ver os vídeos e artigos estrangeiros sobre o Tcheco. Talvez pelo senso de humor e referências culturais, o jogo seja mais fácil de ser assimilado por aqui mesmo. É comum ver gente de outros países gostando, mas não entendendo muito o clima do jogo.

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Tcheco in the Castle of Lucio

9) 99 centavos é muito barato! Por que essa escolha de preço pelo jogo?

Essa é uma versão expandida e revisada de um jogo que foi lançado de forma gratuita. Então o justo seria cobrar o mínimo possível por ela.

10) Há planos para adaptar o jogo para outras plataformas?

Sim. Eu espero que em 2017 estejam disponíveis versões para Android e IOS. Mais pra frente quero lançar pra Mac, Linux e (se possível) até para consoles antigos.

11) Já são mais de quinze anos dedicados profissionalmente ao mesmo personagem. Ainda podemos esperar por mais conteúdo do Tcheco no futuro?

Sim. Tenho vontade de lançar mais jogos e mais desenhos animados no futuro.

12) Ainda há muita resistência do público brasileiro contra jogos nacionais ou isso vem mudando nos últimos anos?

Nunca percebi isso, pra ser honesto.

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Tcheco in the Castle of Lucio

13) Como é a sua relação com outros estúdios brasileiros? Rola uma camaradagem ou o ecossistema por aqui ainda é muito isolado?

Minha relação é quase inexistente. Trabalhei com uns poucos estúdios (fazendo trailers dos jogos deles), mas conheço mesmo e sou amigo de um ou outro desenvolvedor apenas.

14) Você voltou à ativa produzindo hacks para jogos antigos da Nintendo em seu blog. É um ensaio para um novo projeto?

Não. Eu faço hacks pra jogos de Nintendinho de vez em quando, como hobby, desde os anos 90. Mas tem quase 10 anos que não publico nada dessas minhas modificações (o último que disponibilizei foi em 2007).

15) Como você vê o cenário dos jogos nacionais nos próximos dez anos?

Vai ter se profissionalizado de vez. Por um lado é uma pena, porque gosto desse clima amador e sem rumo da indústria de hoje. Mas é inevitável que ela entre nos eixos e gere grana num futuro próximo.

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16) Nas horas vagas, quais são os jogos preferidos?

Eu quase não jogo mais, mas de vez em quando dou uma conferida em jogos retrô, indie, modificações, etc. Hoje gosto mais de estar envolvido na produção dos jogos que necessariamente de jogar eles.

Ouvindo: Billy Idol - Don't need a Gun (Meltdown Mix)
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