Retina Desgastada
Idéias, opiniões e murmúrios sobre os jogos eletrônicos
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18 de outubro de 2014

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"Quando a história da minha glória estiver escrita, sua espécie será apenas uma nota de rodapé da minha magnificência. EU SOU SHODAN!"

Antes de GLaDOS, havia SHODAN.

BoxAntes de Bioshock, havia System Shock 2.

Quando a Irrational Games nasceu em 1997, das cinzas da finada Looking Glass, ela estava destinada a grandes feitos. Isso estava óbvio para qualquer um que tenha jogado seu primeiro jogo, em 1999. Meses depois do lançamento, menos de 60 mil felizardos haviam descoberto a pérola escondida. Desafiando as convenções vigentes dos FPS e das continuações, System Shock 2 se tornou um clássico instantâneo, apesar das vendas fracas, e arremessou a vilã SHODAN para todas as listas de maior inimigo dos jogos eletrônicos de todos os tempos.

Solidão, os erros e os limites da humanidade dão a tônica da obra de Ken Levine e sua trupe de engenheiros a partir deste ponto. Entender System Shock 2 é entender tudo o que veio depois.

Misturando elementos de RPG, como gerenciamento de itens e evolução de habilidades, Levine antecipou também Deus Ex em vários aspectos. Um deles era a habilidade de abordar os problemas de formas diferentes.

Mas onde Spector construiu uma narrativa intricada das relações humanas, ideologias e organizações, aproveitando o sentimento global de virada de milênio e brilhando em diálogos geniais, aqui a Irrational Games aborda a solidão do homem diante do infinito e dos perigos da tecnologia, aproveitando o silêncio e o vazio de uma espaçonave nos confins do Universo para encenar o confronto final entre o Homem e o Pós-Humano.

O Fim do Sonho

No futuro distante, a Humanidade se prepara para testar seu primeiro reator FTL ("faster than light", o mítico motor capaz de ultrapassar a velocidade da luz). A nave experimental Von Braun parte para o espaço, escoltada pela nave militar acoplada Rickenbacker. A bordo, instalações confortáveis, estufas, os melhores cientistas, centros de entretenimento para a longa jornada, a nata da tecnologia, a nata dos recursos humanos.

Com fanfarra e otimismo, a expedição parte.

Tudo terminará em tragédia.

Enforcado

Você começa o jogo acordando do sono criogênico após o desastre já ter ocorrido. Seus companheiros de viagem são cadáveres ou estranhos mutantes com sede de sangue. Através de logs de áudio, você irá desvendar o triste destino das duas espaçonaves e sua tripulação: uma infecção biológica autônoma que atende como Many ("Muitos") conquistou o corpo e a mente de todos, transformando sua carne e alterando seus pensamentos.

Qualquer semelhança com Dead Space, é algo a ser perguntado para a Visceral Games.

Com poderes psíquicos fazendo parte do universo de System Shock 2, as duas naves se tornam o protótipo da casa mal-assombrada no espaço. Há visões de acontecimentos violentos, há inimigos medonhos em cada esquina, há a sujeira e a deterioração de espaços antes tão utópicos, há o constante clamor da voz de Many em sua cabeça, pedindo, implorando, ameaçando para que você se junte à sua "glória".

O horror não está presente apenas nos combates de vida e morte a bordo da Von Braun ou da Rickenbacker. Ele também aparece em cabines abandonadas e semi-destruídas, em registros de voz de pessoas a beira do desespero, em histórias de amor despedaçadas sem dó ou pena, em personagens que cederam ao orgulho ou à culpa para fazer parte do Many.

Cadáveres

O ápice da civilização desmorona no vazio solitário. Você não tem aliados. Exceto Ela.

Despertar da Deusa

SHODAN é o principal elo com o jogo anterior. Não é necessário ter experimentado o primeiro System Shock para entender que ela é perigosa: uma Inteligência Artificial megalomaníaca que acredita do fundo de seus bits que é uma Deusa e despreza toda e qualquer forma de vida.

Seus experimentos do passado para criar uma nova biologia geraram o Many. Como uma criança que cansa de seus brinquedos, ela agora deseja sua extinção. Entre as duas abominações, você transita, tentando sobreviver a um fogo cruzado, onde não pode haver vitorioso algum.

Onde GLaDOS é ora calculista, ora sarcástica, mas sempre racional, SHODAN é a definição de insanidade. Se declara perfeita, mas seu discurso trava diversas vezes, como uma gagueira cibernética que seria cômica, se não fosse pela distorção, pela reverberação e pelo seu profundo significado: ela não é perfeita, é incapaz de admitir e as piores consequências podem advir deste falso senso de divindade.

SHODAN - Fan Art

Ao contrário de tantos chefes de jogo, que declaram suas intenções no começo do jogo e são confrontados novamente apenas no final, salvo por um ocasional interlúdio no meio, SHODAN aqui é enigmática e onipresente. Perdido em uma nave lotada de monstros e fantasmas, o jogador tem como único interlocutor a Inteligência Artificial psicótica.

Com o poder correto, SHODAN pode e vai erradicar a vida do Universo. Ou seria apenas outro delírio de grandeza?

Triunfo do Indivíduo

O herói aprisionado não tem nome, como tantos outros antes dele. Atende pela alcunha de Soldier G65434-2. Ele é um número de série em um duelo de inumanos.

Luta

Entretanto, a Irrational Games se recusa a construir outro fuzileiro espacial exterminador de monstros. O personagem é customizável, pode ser treinado em classes cuja jogabilidade varia, pode adquirir habilidades de acordo com a preferência do jogador, inclusive habilidades fora de sua classe. Ele é um papel em branco, mas um que pode ser recortado e moldado para ser algo único.

Em um confronto onde de um lado temos a massa homegeinizadora do Many e sua consciência coletiva e o niilismo cibernético de SHODAN, a Irrational Games opta por um protagonista que será ímpar para cada jogador, para cada partida, com liberdade de ação e de resolver os enigmas.

Em um ambiente tomado por monstros, você pode se esgueirar, pode tentar teleporte ou invisibilidade (se tiver esses poderes), pode invadir o sistema das torres de segurança e promover um massacre ou pode entrar no corredor de armas em punho e uma prece nos lábios.

Arma Psíquica

Essa liberdade não significa tranquilidade. System Shock 2 não é apenas um RPG ou um FPS, mas também um Survival Horror, com letras maiúsculas. O protagonista é frágil, seu equipamento se deteriora. É preciso gerenciar recursos escassos todo o tempo: há munições específicas para determinados inimigos, evoluções a se escolher para as armas, itens para se comprar em terminais espalhados, avanços tecnológicos para pesquisar, enquanto o tempo não para ao seu redor. Uma decisão errada pode trazer uma morte horrenda para o personagem.

Logoff, Reiniciar ou Suspender?

Desde 1999, espera-se uma continuação de System Shock 2. O final deixa claro que SHODAN não é um oponente a ser menosprezado. Seu fantasma assombra jogadores e desenvolvedores e esteve certamente presente na mente daqueles que criaram GLaDOS, o Marker, a Red Queen e tantos outros elementos influenciados diretamente pela obra de Ken Levine e seu conclave.

Por motivos jurídicos, talvez nunca haja um System Shock 3. Apenas o seu legado.

Mas, em algum lugar do limbo do ciberespaço, a Deusa aguarda, pacien01110100 01100101 00101110 00100000 01010011 01001000 01001111 01000100 01000001 01001110 00100000 01110010 01100101 01110100 01101111 01110010 01101110 01100001 01110010 11000011 10100001 00101100 00100000 01101001 01101110 01110011 01100101 01110100 01101111 01110011 00101110

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10 comentários:

Gledson A. disse...

Duas palavras: Malditos. Macacos!

Gledson A. disse...

Sem brincadeiras agora, ainda me resta zerar este jogo. Parei logo depois que entro em contato com uma cientista, mas o jogo é brutal e, caso você tenha o péssimo hábito de "salvar por cima", como eu, estará em maus lençóis quando cometer um erro de administração qualquer (seja com itens, munição ou armas).

=S

Ainda pretendo voltar, though.

Shadow Geisel disse...

excelente texto, de longe um dos que mais reunião um a quantidade avassaladora de elementos que me agradam em particular. obrigado, Aquino, por enterrar mais esse prego no meu defasado currículo gamer e o fazer sangrar, com a certeza da falta de alguém a conhecer. rrsrsrsrsrs.

Poesias à partem, existe alguma forma oficial de jogar os dois primeiros jogos sem ser pela Steam?

Shadow Geisel disse...

errata: os erros de digitação acima só podem ter sido causados por algum tipo de interferência superior no meu PC.

C. Aquino disse...

Malditos macacos e malditas aranhas também. Mas os macacos davam mais medo...

Shadow, o primeiro System Shock desapareceu da face da Terra. Só em sites de abandonware mesmo. O segundo pode ser encontrado no GOG (onde inclusive foi lançado antes do Steam).

Davi disse...

Esse post me lembrou que a primeira vez que li seu Blog foi um post sobre Sytem Shock. :-) Déjà vu

Gledson A. disse...

Você disse... aranhas?

Rs, estou vendo que tenho muito o que apanhar ainda.

Marcos disse...

Aranhas malditas e suas mordidas radioativas!


SS2 é muito foda! É difícil falar alguma coisa sobre esse jogo que quem ja jogou não saiba. Precursor de diversos elementos narrativos e de jogabilidade que vemos hoje. Não só sentimos falta de System Shock como também ja estamos sentido da Irrational Games e seus jogos com narrativas impressionantes e jogabilidades diferenciadas

Michel Oliveira disse...

Comprei System Shocck 2 No Steam numa promoção dessas, as ainda não instalei. Sempre que joguei antes não aguentava muito tempo e ao me matava.

Acho que vou das um tempo em Skyrim e temtar de novo

Káh' Ribeiro disse...

Essa SHODAN ai é q nem o Ultron né rsrs dois bocós.

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