Retina Desgastada
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11 de junho de 2014

Orgulho Polonês

CD Projekt RED

A CD Projekt RED é uma empresa que já arrancou elogios de Barack Obama e que é reconhecida pelo primeiro-ministro da Polônia como um patrimônio nacional. Com seus recentemente anunciados planos de expansão do GOG, The Witcher 3 no horizonte e outros projetos, o futuro parece ser glorioso para a desenvolvedora.

Mas nem sempre foi assim.

Uma extensa matéria na Eurogamer traçou as origens da empresa. É um enredo de RPG, com um começo humilde, grandes desafios e vitórias ao final.

Piratas e Bucaneiros

Marcin IwinskiNo final dos anos 80, Marcin Iwiński era um rapaz como muitos de seu tempo: fascinado por jogos eletrônicos. Mas quando se vive em um país socialista que faz parte do Pacto de Varsóvia e já foi invadido uma vez pela truculenta União Soviética que supostamente deveria protegê-lo dos horrores do Ocidente, é difícil encontrar qualquer coisa para jogar que não seja Tetris. Comprar um computador? Quase impossível. Um console? Está querendo ir pra Sibéria, camarrada?

Mas o pai de Iwiński era um documentarista e viajava com frequência para fora das fronteiras da então provinciana Polônia. E trouxe para o garoto uma joia da decadência ianque: um Spectrum Sinclair de "última" geração.

Iwiński queria jogos em quantidades que as viagens de seu pai não poderiam suprir. Felizmente, ele não estava sozinho. Embora as lojas locais não vendessem jogos eletrônicos, o mercado negro proliferava. Literalmente não havia legislação no país que proibisse a distribuição de material eletrônico protegido por direitos autorais. Era o paraíso da pirataria, desde que você desse a sorte de ter conseguido o hardware primeiro.

De consumidor de jogos piratas, Iwiński passou a fornecedor. Através de um contato na Grécia, conseguiu um outro simpatizante do Sinclair que não via problema algum em copiar os lançamentos e mandar pelos correios para o colega polonês. De uma hora para outra, Iwiński tinha se tornado o "cara que tem os lançamentos".

Quis o destino que Iwiński fosse reprovado em um teste para o Curso de Computação na escola. Sem alternativas, foi cursar Física Matemática, onde conheceu Michal Kiciński, que viria a ser seu parceiro na vida profissional. O que Kiciński fazia nas horas vagas? Vendia cartuchos piratas de Atari.

Michal Kicinski

Na mesma época, surgiu o CD-ROM. Era possível copiar dezenas de jogos em um mesmo disco, de forma rápida e barata. A dupla passou a importar títulos dos Estados Unidos e vender nas feiras livres de pirataria nas ruas da Varsóvia. E é por isso que sua empresa se chama "Projeto CD". Um viva ao tapa-olho e o papagaio no ombro.

Mas na Polônia daquela época a atividade não era ilegal e em 1994, Iwiński e Kiciński formalizaram a empresa no cartório. Eles tinham apenas um computador velho, dois mil dólares no bolso e um escritório funcionando no apartamento desocupado de um amigo.

A maior concorrência da CD Projekt eram os outros piratas. Por três libras em qualquer banca, você podia comprar um jogo que custava 15 libras nas lojas ocidentais, 48 horas depois do lançamento oficial. Como a dupla poderia se destacar neste meio? Indo na contramão. E se a fosse possível convencer as pessoas a pagar um pouco mais e comprar uma cópia legítima dos jogos?

A Fúria de Baldur's Gate

Baldur's GateCom essa ideia na cabeça, os dois jovens empresários de vinte anos compraram os direitos de distribuição do primeiro Baldur's Gate. Pagaram 30 mil libras à Interplay pelo direito de distribuir 3000 cópias oficiais do jogo. Gastaram uma soma igual na localização do jogo, incluindo a dublagem de vozes famosas na Polônia. A CD Projekt apostou todo o seu futuro nessa cartada.

Com 5 CDs de instalação, era um título que custava caro mesmo nas mãos dos piratas. Nas bancas, custava 15 libras. Nas mãos da CD Projekt, legalizado, saia pelo dobro. Mas vinha com conteúdo dublado na língua local, com todos os textos traduzidos, caixa bacana, mapa, manual traduzido e um CD com a trilha sonora. O costumeiro mimo que se tornaria a marca registrada da empresa.

As 3000 caixas se esgotaram em três meses. Três meses antes do lançamento. Licenciaram mais 5000, 6000, 7000, 8000 cópias com a Interplay. O trabalho de localização já estava feito, era só prensar os discos e produzir o material anexo. Tiveram que comprar um galpão para armazenar tudo. A aposta tinha valido a pena: no dia do lançamento, distribuíram 18 mil cópias para lojas e, ironicamente, mercados negros que aderiram ao pacote.

O acordo espantoso e o esmero do trabalho produzido com a Interplay, abriu as portas da CD Projekt para o mundo. A semente do GOG já estava plantada ali: esforço pesado de adaptação, valor agregado na forma de extras e bônus, preço baixo e nenhum DRM.

De Distribuidor a Criador

Baldur's Gate Dark AllianceCom o sucesso de Baldur's Gate, a própria Interplay fez questão que a CD Projekt fosse responsável pela venda de Baldur's Gate: Dark Alliance na Polônia. Mas havia um problema: era um jogo de console e o mercado de PC era muito mais forte no país. Não iria vender. A Interplay mandou na lata: "então, porque vocês mesmos não fazem um port?".

Iwiński e Kiciński sabiam que não estavam destinados a serem apenas "encaixotadores" de jogos. A vontade de desenvolver era grande desde os tempos das aulas de Física. A dupla aceitou o desafio proposto e contratou seu primeiro funcionário fixo: Sebastian Zieliński.

Zieliński era um programador e um dos responsáveis pelo primeiro Mortyr, um clone de Return to Wolfenstein que não foi muito bem aceito internacionalmente, mas se tornou um incrível sucesso na Polônia.

A segunda contratação foi Adam Badowski, responsável por storyboards de filmes. Badowski continua na empresa até hoje é o chefe do estúdio de produção de jogos. Um kit de desenvolvimento para o PlayStation 2 foi literalmente contrabandeado do escritório da Interplay em Londres para Varsóvia e o trabalho começou.

No meio do projeto, a Interplay cancelou o acordo. Talvez motivada por seus próprios problemas financeiros. Era tarde demais. A CD Projekt ia fazer um jogo, de um jeito ou de outro.

Era hora de fazer uma segunda aposta elevada. Se a CD Projekt iria criar um jogo, teria que ser épico.

Entra o Bruxeiro

Aqui no Ocidente, The Witcher é mais famoso devido ao RPG de computador. Mas, na Polônia, o livro veio primeiro. Seu autor, Andrzej Sapkowski, é um ícone nacional, carinhosamente apelidado de Tolkien polonês. Seu universo de fantasia é tão popular que já havia sido adaptado para cinema e TV com igual sucesso. Não há nome maior na literatura fantástica daquele lado da Europa.

WiedzminE foi atrás de sua obra máxima, Wiedźmin, que a CD Projekt bateu na porta do autor.

O nome é intraduzível fora do idioma que lhe deu origem. E, ainda assim, a CD Projekt foi lá e inventou o termo "The Witcher", criando uma franquia que impressionaria até mesmo Barack Obama.

O primeiro demo do jogo levou um ano de tentativas e erros para ser produzido. Segundo a própria equipe de programação, estava uma "porcaria". Mas Iwiński e Kiciński não se deixaram abater e levaram o produto para algumas produtoras.

Não deu certo, obviamente. O programador principal, Zieliński , empacotou suas coisas e foi embora. O projeto parecia condenado ao fracasso.

Mas o próprio Michal Kiciński assumiu a liderança da equipe de desenvolvimento. A equipe de 15 pessoas virou 100. Não havia profissionais em quantidade suficiente no país com a qualificação necessária para criar um jogo. A CD Projekt literalmente pegou médicos, banqueiros e outros assalariados e os transformou em game developers. Todo mundo estava aprendendo fazendo junto. Foram cinco anos de trabalho duro: no último semestre, dia de trabalho tinha 12 horas. Não havia final de semana. Não havia feriado. Foram gastos perto de 20 milhões de dólares, todo o dinheiro que a empresa tinha guardado mais diversos empréstimos. Ou dava certo ou as portas seriam fechadas.

A sorte sempre sorri para os audazes e para quem faz um bom trabalho: Greg Zeschuk e Ray Muzyka, da Bioware, que tinham virado amigos da CD Projekt depois do sucesso de Baldur's Gate na Polônia, deram uma força no uso da engine Aurora. A camaradagem era tanta que a Bioware cedeu espaço em seu estande na E3 para apresentar uma nova demo de The Witcher em 2004.

The Witcher

Em 2007, The Witcher foi lançado. Tinha 45 horas de jogabilidade. Criadas por um time que nunca havia feito um jogo na vida. Vendeu dois milhões de cópias e se tornou um sucesso de crítica.

Mundo Aberto

E agora tanto a saga de Geralt quanto a da própria CD Projekt está indo para sua terceira parte. Novamente, Iwiński e Kiciński apostam alto: The Witcher 3 é um mundo aberto de proporções colossais (maior que os dois anteriores somados) e, pela primeira vez, desenvolvido para múltiplas plataformas.

The Witcher - Infográfico

O jogo já está em pré-venda. Se no seu país, por algum motivo de impostos, o preço for maior que o preço para o mercado norte-americano, a CD Projekt dá a diferença em forma de créditos para gastar no GOG.

Mesmo diante de seu maior lançamento, a dupla de sonhadores não perdeu seu foco: respeito ao consumidor.

E nenhum DRM.

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5 comentários:

Raphael AirnMusic disse...

História incrível mesmo!

Estou com os dois bruxeiros engavetados na estante virtual do GOG e me preparando pra colocar ao lado seu irmão mais novo =D

Lucs disse...

Historia incrível.
Comecei a jogar The Witcher por causa desse Blog (parece que graças a uns d20 banhados a ouro), e gostei MUITO, e logo catei o 2.

Vale aqui a lembrança dos Enhanced Edition dos dois jogos, que foram grandes patches (gratuitos).Não cheguei a jogar o The Witcher "normal" mas falam que o EE melhorou as coisas.

Não entendo porque reclamam do combate do primeiro Witcher.Eu gostei.

Bom,agora é esperar e ponderar se fazer o pre-order do 3 é o que quero.

Ah, depois eu li alguns livros também.Recomendo a leitura de pelo menos dos dois de contos

Gledson A. disse...

Muito boa a postagem, Aquino, parabéns.

Que lição de vida, cara. Lembro-me que tive meu primeiro contato com a saga através da pirataria. Depois de saber das atitudes da empresa quanto ao consumidor (DRM-free, preço acessível e tal) me senti compelido a comprá-lo.

Não me arrependo. Principalmente agora depois de ter lido este post. O pessoal da CD Project merece o que tem hoje.

Shadow Geisel disse...

confiança na qualidade do próprio trabalho. é isso que falta aos desenvolvedores de hoje.

Marcel C. Da Silva disse...

Fiz questão de comprar The Witcher 1 e 2 tanto no GOG quanto na Steam(e já reservei na pré-venda no GOG, desculpa Gabe, mas a GOG é foda!)

Esses poloneses tem todo o meu respeito.

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