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22 de junho de 2014

Minecraft: A Origem

Gripado até a alma, mas sem sono, me esbarrei no sofá de madrugada e coloquei na TV, através da mágica gambiarra do Cabo HDMI Comprido da Perdição, o documentário Minecraft: The Story of Mojang. Notch e sua trupe estão tão inseridos no espírito de sua época que o longa-metragem inteiro está disponível de graça no YouTube oficialmente, com legendas em inglês.

E este método de distribuição não poderia ser diferente.

Notch

Minecraft nasceu do trabalho solitário de Markus "Notch" Persson, um sueco de trinta e poucos anos que desenvolveu o jogo do zero nas suas horas vagas, enquanto trabalhava na King. A mesma King que lançaria Candy Crush e outras pragas do universo móvel logo depois. Um dia, o simpático desenvolvedor chutou tudo pro alto e resolveu dedicar um ano inteiro para aperfeiçoar o jogo e começar a vendê-lo modestamente em seu site.

Antes do Early Access se tornar um modelo de negócios, antes do Kickstarter, antes dos YouTubbers se tornarem milionários, Notch foi um pioneiro com um jogo delicioso que é o maior sandbox já criado. Minecraft era desenvolvido em tempo real, enquanto os usuários já desfrutavam dele, o dinheiro que entrava era investido de volta no jogo e, sem a viralização proporcionada pelos vloggers, nada disso seria possível. Era o título certo no momento certo e o resultado foi um fenômeno cultural.

Junkboy

Como bem diz um dos protagonistas do documentário, o hilário ilustrador Junkboy, que nunca mostra seu verdadeiro rosto, Notch ganhou o suficiente para passar o resto da sua vida cheirando carreiras do traseiro de prostitutas, mas nunca fez nada disso.

Com uma equipe modesta de apenas sete pessoas em um apartamento em Estocolmo, Minecraft evoluiu 99% para aquilo que é hoje. Atualmente a Mojang opera de um escritório bem maior e profissional, mas nos anos milionários onde as vendas não paravam de crescer, o desenvolvedor modesto não mudou um milímetro o seu jeito de ser. Até o último minuto da primeira Minecon, uma conferência inteira dedicada aos fãs do jogo, ele se recusava a acreditar que merecia tudo aquilo.

Molyneux

O documentário conta com os depoimentos de gênios do passado, como Tim Schafer e Peter Molyneux. O primeiro se inspirou no modelo de Minecraft e passou a vender jogos inacabados. O segundo, visivelmente corroído pela humildade, parece olhar para Notch e ver tudo aquilo que poderia ter feito, mas não alcançou. Até hoje, Molyneux está perseguindo seu "último grande jogo". Não é uma passagem de bastão agradável de se ver.

Vemos como o jogo influenciou também jornalistas, vloggers, nerds, crianças de diversas idades e até professores. E como ele se tornou um fantasma pairando sobre a carreira de Notch. Sabendo que seria uma meta muito forte tentar superar ou aperfeiçoar Minecraft, ele deixou o jogo aos cuidados de um dos programadores e passou a realizar experimentos em outros gêneros. Sem stress, sem arrependimentos, sem sonhos loucos ou crises de ego.

Crianças jogando

Minecraft: The Story of Mojang foi financiado pelo Kickstarter e traz a lista dos mais de 6000 patronos no final dos créditos. Apesar de gratuito no YouTube, é possível reservar edições de luxo ou comprar material relacionado, como a trilha sonora relaxante.

Certamente, será difícil nascer outro Minecraft. Muitos tentaram. Mas parte da indústria aprendeu que é possível oferecer apenas as ferramentas e o espaço para os jogadores e deixá-los construir suas próprias narrativas. O resultado tem sido boas vendas, ainda que a maioria dos jogadores prefira liberar seu lado mais primal. Outra lição aprendida é que é possível fazer dinheiro com produtos inacabados, desde que os YouTubbers o abracem.

A maior lição, entretanto, continua enterrada no documentário. Nas palavras do próprio Notch, o importante é fazer jogos pelo prazer de fazer jogos. Copiaram seus métodos, suas mecânicas, seu modelo de desenvolvimento.

Mas esqueceram o principal.

Ouvindo: AlienHand - The Zone
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3 comentários:

Gledson A. disse...

Outro exemplo de pessoa a ser notado. Esse post e o da CD Projekt RED foram ótimos, Aquino. Parabéns!




"[...]Sem stress, sem arrependimentos, sem sonhos loucos ou crises de ego."

Quando li "crise de ego", já lembrei do autor de Fez... ugh!

aRexxx disse...

Terminei de asssistir ontem o Indie game: the movie e gostei bastante , pretendo assistir esse sobre minecraft ainda mais depois desse texto muito bom.

Aquino (ou algum leitor)sabe se tem mais alguns filmes sobre jogos indie ou desenvolvimento de jogos ?

Obs: Concordo com seu texto sobre o Indie game: the movie, faltou mostrar alguns desenvolvedores de jogos que não fizeram tanto sucesso e sobre o Phil Fish, no filme já dava para ver que ele tem um ego bem grande.

Shadow Geisel disse...

quase me contaminei com a descrição de gripe no começo do texto. até a alma é o termo certo...

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