Retina Desgastada
Idéias, opiniões e murmúrios sobre os jogos eletrônicos
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19 de março de 2014

Nem Todas as Batalhas Podem Ser Vencidas

Joel Green

Na semana passada morreu Joel Green, derrotado pelo câncer com apenas cinco anos. Talvez você tenha ouvido falar dele. Talvez não. Sua batalha viverá por mais tempo, virtualmente eternizada na forma de um jogo. Ainda que em pixels e lembranças, Joel Green permanecerá.

Vida e morte não são totalmente estranhos ao mundo dos jogos, seja em produções AAA ou títulos independentes. Mesmo a platinada trilogia de Mass Effect pode ser interpretada como uma alegoria do tema. Outras produções são mais diretas, como To the Moon.

O desejo de permanecer é inerente ao Homem. E, até que me provem o contrário, só existem duas maneiras de se atingir tal objetivo. Uma delas é através do seu legado. Como diz o ditado popular, "para ser imortal, plante uma árvore, tenha um filho ou escreva um livro". Uma vez que já realizei as três, posso dizer que platinei a vida e agora estou tentando melhorar o placar.

O outro caminho para permanência é a memória dos que ficam. Neste ponto a Arte oferece um excelente veículo de perpetuação, mesmo que ninguém tenha descoberto até hoje quem foi Gioconda.

Memorial

Joel Green não estará sozinho em seu Valhalla digital.

Ele estará acompanhado de Vile Rat, diplomata dedicado em Eve Online, morto em um atentado terrorista. Eternizado por uma comunidade que muitos julgam ser cruel, sem saber.

 Tina Wiseman, atriz, mãe, esposa e agora presença virtual em uma ilha tropical de Entropia Universe.

James Hand

Ele estará acompanhado de James Hand, também vítima de câncer. Ele teve sua efígie perpetuada como um soldado romano em um cerco infindável a Cartago em Rome: Total War II. Com sua doença diagnosticada como irreversível, James conseguiu realizar o sonho de visitar os estúdios da Creative Assembly, jogar a versão pre-alpha do título e opinar sobre a jogabilidade. Cientes do pior, os desenvolvedores escanearam seu rosto. James nunca viu a versão final ou a homenagem.

Roger Rall é outro jogador cujo nome agora faz parte da franquia que tanto amava. Participante assíduo de sua guilda no primeiro Guild Wars, sua morte repercutiu profundamente na comunidade. Cartas e e-mails foram enviados para a Arenanet pedindo uma homenagem. Em Guild Wars 2, o mundo Sanctum of Rall (Santuário de Rall) foi batizado em seu nome.

O suicídio de Bill Ilburg provavelmente foi um acontecimento chocante. Mas é sua vida como Lord Brinne em MMOs e membro ativo de fóruns de RPGs que será lembrada por uma geração de jogadores. Sua personalidade virtual era tão querida que Lord Brinne foi homenageado em Ultima IX, Might and Magic VIII, The Elder Scrolls III: Morrowind e Deus Ex.

Michael Mamaril Michael Mamaril também foi levado pelo câncer, aos 22 anos. Fã incondicional de Borderlands, ao falecer em 2011, recebeu uma elegia da Gearbox Software e uma promessa de que faria parte da sequência do jogo. E a homenagem não poderia ser mais apropriada: Mamaril é agora um NPC valioso em Sanctuary, a base dos jogadores. A cada conversa com o personagem, é possível ganhar itens raros do lendário Vault Hunter.

Nenhuma destas homenagens pode acobertar a totalidade destas vidas que se apagaram. Nenhuma homenagem, por maior que seja. Qual era o brinquedo favorito de Joel Green? Qual era a opinião de Tina Wiseman sobre a vida e a morte? Por que "Lord Brinne" fez o que fez? Mamaril jogava com qual personagem? Poucos sabem as respostas e menos saberão na medida em que o tempo inexorável segue seu curso.

Porém, por menor que seja essa parcela que sobrevive, alimentada pelo carinho e pelo reconhecimento, ela carrega o todo até onde é possível carregar.

E talvez seja por isso que a Gioconda sorri.

Ouvindo: Interstate 76 - Track18
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6 comentários:

Davi disse...

É! Como ateu esse foi um assunto que sempre me perturbou bastante. Apesar de não gostar de pensar nisso, a dor das histórias chega a ser poética. Mas no fim, não passam de eufemismos. :-/

Shadow Geisel disse...

se eu fosse dos mais sensíveis (e não tivesse levado tantos shoryukens da vida) estaria escorrendo lágrimas do meu rosto agora. Muito lindo o texto, Aquino. As homenagens das desenvolvedoras também. isso me fez lembrar de um vídeo do vlogger Yuri, do canal Eu Ateu. ele fala sobre o suicídio de uma garota chamada Roberta Baeta, se não me falha a memória. o que mais me marcou naquele vídeo foi o conselho do Yuri, o de pensar duas vezes antes de cometer suicídio e se apegar às coisas boas que temos na vida, nem que seja um jogo de videogame. talvez não houvesse ninguém por perto para lembrar a Bill Ilburg como a vida virtual dele era significativa para muitos.

Shadow Geisel disse...

Davi, acho que todo ateu já passou por isso. eu desencanei disso tudo há muito tempo, pois tem coisas na vida que não tem jeito mesmo. depois de oficializar meu ateísmo ficou até mais fácil de lidar com esse tema de morte. eu, pelo menos, passei a viver de forma mais leve e menos preocupada com essas questões.

Isaac Moreira disse...

Que final de texto emblemático cara!

Bem "a vida é um sopro", por isso é preciso aproveita-la enquanto ainda há tempo.

E pelo menos o livro eu já estou providenciando kkk

Shadow Geisel disse...

Blog conta como livro? pois sou péssimo de jardinagem e um filho, por enquanto, tá fora de cogitação. rsrsrs

Davi disse...

Concordo com você, Shadow. De fato, quando realmente percebemos que não acreditamos em mais nada, temos uma sensação de liberdade e essas questões param de aparecer tão frequentemente. É como se nós resolvêssemos um problema, e no fim não importa muito a resposta, pois afinal, fechamos um ciclo.

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