Retina Desgastada
Idéias, opiniões e murmúrios sobre os jogos eletrônicos
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18 de janeiro de 2014

Galeria da Infâmia: Converter ou Destruir

Left Behind Eternal Forces Apesar de meu ateísmo não apenas não considero esta posição relevante para o blog, como ela também não me impediu de experimentar o livro Deixados Para Trás e o  jogo baseado nele, Left Behind: Eternal Forces. E, apesar de ter detestado ambos, por sua paupérrima execução no dois casos, e de ter inclusive jogado o livro no lixo, algo que nunca fiz antes, estou aqui na posição de defensor do jogo. Não de suas qualidades, que são ausentes, mas da falsa acusação de incitar o ódio.

Por que aqui é a Galeria da Infâmia, onde jogos perseguidos injustamente são analisados. E, de certa forma, redimidos.

Para quem não está familiarizado com a história, Left Behind, a saga, se expandiu por 16(!) livros, quatro jogos, 5 graphic novels, três filmes de baixo custo e um novo filme a caminho estrelado por Nicolas Cage. Resumindo a grosso modo sua premissa, a saga é sobre o Arrebatamento, quando o Deus Cristão leva para seu lado apenas os bons de coração e deixa para trás na Terra (daí o título)  os impuros e os "mais ou menos". A história gira em torno dos "mais ou menos" que precisam reconstruir a sociedade, provar que são dignos de um novo Arrebatamento e ao mesmo tempo enfrentar a aliança que se estabeleceu entre os caras maus e o opositor de Deus. Qualquer semelhança com The Stand, de Stephen King, deve ser descartada de imediato, por que este último é muito bem escrito.

Em 2006, a Inspired Media Entertainment, posteriormente rebatizada de Left Behind Games, trouxe ao mundo o primeiro jogo inspirado na história do livro. Ambientado em uma cidade dividida em zonas, o título de estratégia traz a Tribulation Force, formada por novos Cristãos, em embates contra a Global Community, um governo mundial controlado pelo Anticristo. No meio do fogo cruzado, NPCs neutros que não seguem, por enquanto, nem um lado e nem o outro. Como todo jogo do gênero, você controla unidades, constrói prédios (no caso, transforma prédios existentes nos tradicionais prédios que fornecem recursos), coleta recursos. E mata a oposição. Ou converte. Com cantigas e um bom papo, você pode converter um personagem neutro ou mesmo do Global Community para sua causa. Se tudo mais falhar, manda bala nele.

NY em chamas Modern Warfare? Não, Left Behind.

Irei pular as críticas à péssima jogabilidade, aos gráficos toscos, às cutscenes em live action de imensa canastrice e ao enredo primário, porque concordo com todas. Left Behind: Eternal Forces não durou 2 horas instalado aqui. Irei me concentrar nas acusações de sexismo, apologia à violência e preconceito racial. Por sexismo, entende-se que determinadas classes do jogo só estão disponíveis para personagens masculinos, por violência entende-se a opção de matar quem não professa a mesma fé e por preconceito racial entende-se a representação repleta de clichês de personagens árabes.

Eu imagino que nenhum destes críticos tenha jogado qualquer outro jogo de estratégia na vida.

Left Behind Eternal Forces

Uma vez que no primeiro Age of Empires, todos as unidades são masculinas. Uma vez que no segundo Age of Empires, as únicas personagens femininas são camponesas. Uma vez que não havia unidades femininas em Dawn of War até o lançamento da expansão Soulstorm. Uma vez que Starcraft é pródigo de soldados masculinos e a mulher mais relevante da franquia é uma vilã. Se você vai criticar Left Behind por não ter uma distribuição igualitária de posições entre personagens femininos, é melhor se preparar para criticar todo o gênero. A História da humanidade tem sua honrosa cota de soldadas, mas tradicionalmente a guerra é um assunto masculino.

E matar aquele que não é semelhante? Não se trata disso cada jogo, de estratégia ou não, lançado até os dias de hoje? O conflito ideológico ou cultural não é o cerne de Age of Empires, Starcraft, Dawn of War ou Command & Conquer. Mesmo entre os jogos de estratégia, poucos são os títulos que, pelo menos, dão a chance de converter o soldado inimigo para o seu lado. Assim como o sacerdote de Age of Empires, em Left Behind a mesma alternativa está disponível. Mas o foco dos censores está no tiroteio, no ato de matar o diferente. Esquecem também que dentro da própria mecânica do título, a violência é o último recurso e que exaure um atributo do personagem, podendo levá-lo de volta para a neutralidade ou... para o lado sombrio.

Uma representação preconceituosa dos árabes? A mesma representação limitada despejada por Hollywood, por CoD, por Medal of Honor, por Frank Miller... Left Behind não faz mais do que seguir a manada, que simplifica e hostiliza o povo muçulmano em sua totalidade com base nas ações de um punhado de fanáticos. Lamentável, mas nada de especial novamente.

A Tal Moral Cristã

O que está em questão não é o jogo em si, obviamente. Fosse Left Behind destituído de elementos religiosos, seria apenas mais um jogo de estratégia de quinta categoria abandonado na gôndola de promoções do supermercado. A partir do momento em que ele levanta a bandeira do cristianismo, automaticamente ele passa a ser analisado pelo viés da tal moral cristã.

Nas palavras de JClove, blogueiro e leitor do Retina Desgastada:

"(...) poucas empresas se aventuraram em produzir jogos com conteúdo evangélico lançados discretamente e sempre com qualidade muito inferior os jogos "normais" (apesar do esforço de produtores, como é o caso de Bible Champions e Catchuman), sem quase nenhum destaque. No entanto, com os avanço tecnológico, os games ganharam um espaço a cada maior na mídia, e hoje constituem uma indústria que movimenta milhões e atinge um público maior até que o cinema em alguns casos. Ao mesmo tempo, o número de evangélicos também cresceu, e com isso a preocupação de pais e igrejas com os "brinquedos" de seus filhos, visto que o realismo dos games atuais e os temas cada vez mais adultos das grandes produções gamísticas podem ser uma má influência para o desenvolvimento ético e moral dessas crianças."

The War in Heaven Então, o jogo dito cristão precisa ser revestido de uma ética e moral que devem ser superiores aos jogos não-religiosos, formando uma cisão já na definição: jogos cristãos seriam adequados para o seu público e jogos não-cristãos seriam dúbios ou imorais. Felizmente, nem todo mundo leva essa divisão a ferro e fogo, mas uma minoria ruidosa insiste na diferença.

O que leva a situações, no mínimo, contraditórias. A longa (e obscura) história dos FPS cristãos mostra bem o dilema entre seguir os parâmetros estabelecidos pelo gênero e ao mesmo tempo se colocar em um pedestal. O primeiro deles, Super Noahs Ark 3D, utiliza soluções não-violentas em sua mecânica: Noé não atira nos animais para matar, mas lança frutinhas que os fazem cair no sono e cessar seus ataques contra o profeta. Entretanto, o título licencia a engine de Wolfenstein 3D, tantas vezes criticado por grupos religiosos ao mesmo tempo que burla o sistema de licenciamento da Nintendo com astúcia para ser lançado comercialmente no SNES. 

Depois dele, os FPS cristãos desistiram de vez de pregar a não-violência. The War in Heaven retrata a luta no Paraíso entre as forças de Lúcifer e os Anjos, com direito a armas brancas de todos os tipos e projéteis "sagrados". Farto em representações demoníacas, o título até mesmo permite que o jogador assuma o papel de um servo do Coisa Ruim, ousadia poucas vezes vista em FPS maniqueístas. Mas é Quake que ganha a fama de diabólico ou Duke Nukem 3D que supostamente traz mensagens subliminares... A bem-sucedida (dentro do seu nicho) franquia Catechumen traz o protagonista enfrentando demônios na Roma Antiga com espadas, armas de raios e até uma BFG(!). O que diferencia este personagem do fuzileiro solitário de Doom é que aquele mata em nome do Senhor e o último em nome de sua própria sobrevivência, uma vez que os inimigos são da mesma origem. Eternal War: Shadows of Light leva a batalha para o interior da mente de um suicida, mas o anjo protagonista enfrenta o Mal da mesma forma que milhões de jogadores já enfrentaram antes: com truculência, em cenários macabros.

Eternal War

Estetica e mecanicamente, não há nada que diferencie estes títulos de suas contrapartes "laicas". Ao tentar emular seus pares de estratégia, Left Behind: Eternal Forces encontrou opositores por quase toda parte. Lei do Karma?

Liberdade de Credo

Durante a Christian Game Developers Conference 2011 (sim, existe uma conferência para desenvolvedores cristãos), o pastor David McDonald, de uma comunidade no Michigan, implorou (em suas próprias palavras) para ministrar uma palestra. E foi contundente:

"Eu não acho que jogos podem evangelizar ou tornar as pessoas cristãos melhores. Quando alguém senta e diz 'vamos fazer um jogo eletrônico para criar melhores cristãos', elas estão com um problema'.

Jesus for The Win McDonald, aos 40 anos, entende de jogos. Ele tem e usa um PlayStation 3, curte Heavy Rain, Shadow of the Colossus e Echochrome. El Shaddai: The Ascension of the Metatron despertou sua curiosidade por se apropriar de mitos do livro de Enoque. E sua palestra ressoou bem entre os ouvintes. Para o pastor-jogador, um título deve ensinar os fundamentos cristãos não de uma forma óbvia ou pedagógica, mas através de metáforas. Não é um espaço de doutrinação, mas uma mídia para se contar boas histórias. E boas histórias podem mudar as pessoas em direção de valores.

Ao contrário do que se poderia imaginar, tochas e forcados erguidos no ar não fazem parte da tônica da CGDC. Não houve uma declaração de guerra aos jogos mainstream ou uma divisão apocalíptica entre o que é sagrado ou profano. Na verdade, de acordo com a reportagem do Kotaku, a brochura da conferência abre com a frase "Tente evitar debates religiosos". Trata-se de uma fatia de mercado tentando entender qual é o seu papel na indústria e como produzir jogos melhores.

Deve um jogo cristão ser apenas sobre rodas de cantigas, flores, anjos e leite com mel? Não está a Bíblia repleta de momentos épicos ou sangrentos, com muralhas desmoronando ao som de trombetas, cidades queimando com fogo dos céus ou anjos da morte ceifando a vida de primogênitos de uma nação hostil?

Poderia Lara Croft, em sua sofrida jornada no mais recente jogo, buscar forças em uma influência externa ao contrário de si mesma? Seria menos "Lara Croft"? Seria uma afronta aos princípios cristãos? Não poderia todo o jogo se revelar uma metáfora dos tormentos de Jó? Ou as críticas voariam de ambos os lados do debate? E este é apenas um de inúmeros exemplos que se aplicam. A trilogia Mass Effect tem mais simbolismos religiosos do que o próprio Left Behind. Por serem discretos e estarem atados a altíssimos valores de produção e uma história envolvente, nunca ganham o foco ou são questionados (embora alguns tenham percebido).

Liberdade de expressão é uma via de mão dupla. Eu reinvindico meu direito de me expressar porque asseguro o seu direito de se expressar. Podemos não concordar, e a discordância e o debate limpo são saudáveis para a evolução de todos, mas não devemos oprimir este ou aquele grupo por seus pensamentos. Parafraseando o encerramento de Alexandre Taú em sua brilhante coluna, eu não quero jogar Left Behind, mas defendo até a morte que outras pessoas queiram fazê-lo. Mesmo que o jogo seja ofensivo ou, pior, uma merda.

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7 comentários:

Marcos disse...

bom artigo, mas ainda sou muito receoso por Left Behind justamente por apresentar violência religiosa em algum ponto. Tudo bem que é fictício, mas o jogo tem uma leve proximidade a nossa realidade, só basta tirar a parte inicial do arrebatamento, e temos um jogo de estratégia com violência religiosa entre os cristãos e os não-cristãos. Catechumen ja é um caso um tanto bizarro, gostei da proposta de fazer um fps não violento, afinal o protagonista aponta uma espada com poderes divinos da conversão e em alguns momentos enfrenta criaturas malignas, mas a indústria de jogos cristãos é meio parada no tempo em termos de sofisticação no desenvolvimento, fazendo parecer jogos estranhos que propõe alguma mensagem, afastando boa parte dos usuários. pra mim duas coisas podem ajudar a indústria de jogos cristã: 1° ela tem que parar de tentar desenvolver jogos que se assemelhem com ja existentes. 2° os desenvolvedores devem ter mais liberdade no desenvolvimento dos jogos, podemos tirar como exemplo dessa liberdade os tantos jogos indies que sempre passam ótimas mensagens. Ou até tentarem algo mais ousado como fizeram com Messiah e Requiem, jogos não religiosos mas que exploram a mitologia cristã. ainda que levemente zoado

Shadow Geisel disse...

"um título deve ensinar os fundamentos cristãos não de uma forma óbvia ou pedagógica, mas através de metáforas".

é engraçado, pois mesmo sendo ateu eu me interesso muito por livros, jogos e outros que explorem esse tema de religiosidade. talvez o fato de vermos retratadas coisas que sabemos que não fazem parte da realidade deixe o assunto mais interessante que ler um livro chato que pode te condenar ao mármore do inferno.

Edilson Jr de O Pinto disse...

Shadow Geisel, seja mais correto em sua frase. Troque o "sabemos" por "supomos" ou "tenho convicção". Não existe certeza sobre nada no universo e até hoje a comunidade científica transita entre um lado e o outro. Inclusive a propaganda que o Cristianismo atrasa a evolução científica se esquece que grandes descobertas vieram dos Cristãos, mesmo quando a igreja falava que a Terra é plana e na Bíblia deixa bem claro que é redonda! Mas acredito que esse não é objetivo do texto... acredito.

Os jogos Cristãos passam por uma relutância na aceitação entre a sua própria comunidade. Isso é muito engraçado, pois eu vejo uma batalha hipocrisia sem tamanho. Enquanto uns acusam os filmes Senhor dos Anéis e Crônicas de Nárnia de serem "evangelizadores", de religiosos, os Cristãos acusam esses filmes de serem "anti-cristãos".

O que o pastor disse na CGDC faz todo o sentido. Praticamente 100% dos jogos possuem alguma "crença" embutida, mas a enorme maioria coloca a religião apenas como pano de fundo, não como fator principal e parece que as pessoas absorvem mais conhecimento relacionado ao assunto do que algo direto.

Shadow Geisel disse...

Realmente, Edilson, o objetivo do texto (e do post) não é iniciar discussão religiosa, mas gostaria de rebater algumas de suas afirmações (maldita mania de "não fugir de uma briga"):

-quando vc fala que não se sabe nada sobre o universo, com certeza vc deve estar se referindo aos religiosos, pois a ciência já foi (e continua sendo) muito bem sucedida em explicar diversos fenômenos que antes eram considerados milagres ou manifestações demoníacas;

-trocaria o termo "sabemos" por supomos com muito prazer, mas nunca pelo "convicção", pois ciência é observação de fatos. achismo e crença pessoal é da esfera do pensamento religioso, que está longe de ser alguma forma de ciência (forma de estudo organizado);

-grandes descobertas vieram dos cristãos, a exemplo de Mendel e suas contribuições para a genética, de fato. mas grandes descobertas também vieram de filósofos, como Aristóteles e Platão, e a religião dessas figuras tem muito pouco ou quase nada a ver com o avanço científica de seus trabalhos. muito pelo contrário: se dependesse do pensamento religioso, aberrações como São Tomás de Aquino (e sua teoria de que o pecado original foi propagado na espécie humana através de herança genética) seriam aceitas até os dias de hoje.

Ed R. M. disse...

Texto genial!

Davi disse...

E eu que pensei estar livre da cristandade pelo menos nos jogos.

Isaac Moreira disse...

Faço minha as palavras de Rookmaker: "A arte não precisa de justificativa". Arte é arte e assim eu defendo.

É só agora que os cristãos vem mudando seu conceito do que é aceitável ou não consumir quanto a entreterimento. As coisas vem melhorando, pelo menos na minha realidade kkk

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