Retina Desgastada
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26 de novembro de 2012

Doritos, Kickstarter e Molyneux

Robert Florence Robert "Rab" Florence pode ter pedido as contas depois do caso do Doritos, mas não vai ficar calado. O dublê de comediante e colunista começou um Tumbler e já está atirando para todos os lados. A mais ácida postagem até agora é um tapa na cara do Kickstarter de uma forma geral e uma declaração de guerra a Peter Molyneux. Novamente, traduzo o texto na íntegra:

Eles vão matá-lo.

Não tenha dúvidas. Estes estabelecidos veteranos da indústria, que poderiam atingir seus objetivos através de caminhos tradicionais, irão matar o Kickstarter com sua ganância.

“Ganância” parece um pouco duro. Mas aqui nós vemos Peter Molyneux, uma figura tão estabelecida na indústria dos jogos quanto é possível, pedindo para sua audiência que assuma todos os riscos associados com seu novo produto. Aqui temos um homem que super-prometeu e sub-entregou por mais de uma década, pedindo para pessoas como eu e você que paguem adiantado por seu próximo empreendimento.

Você acredita por um segundo que seja que Molyneux não poderia encontrar este apoio financeiro em outro lugar? Eu não acredito.

Kickstarter nos mostrou muitos casos onde pessoas criativas que não conseguem encontrar o financiamento para realizar suas visões únicas são salvas por pessoas com a mesma mentalidade que desejam ver esses projetos acontecerem. Isto é uma coisa boa. Eu não estou falando sobre estas pessoas. Pequenos times, grandes ideias, forasteiros. Isto tudo é bom.

Mas estes animais capitalistas, Molyneux e Braben para nomear apenas dois, estão transformando o Kickstarter em um site de compras para produtos que ainda não existem. Eles embalam seus produtos com "bônus" ridículos que a audiência de jogadores está pagando pequenas fortunas para garantir. Esta é a mesma audiência de jogadores que, há apenas alguns anos atrás, estava rindo da Bethesda por cobrar uma pequena quantia de dinheiro por uma armadura de cavalo. E nós pelo menos sabíamos alguma coisa sobre aquele jogo.

Nós estamos sendo explorados. 

Molyneux e Braben usaram ambos o mesmo truque de marketing também. Braben retornou para os jogos espaciais que nós sempre desejamos que ele retornasse. Molyneux retornou para os simuladores de deus. Eles estão ambos dizendo "EI, CARAS, NÓS ESTAMOS DANDO A VOCÊS O QUE VOCÊS PEDIRAM! AGORA VAMOS FAZER ESTA COISA JUNTOS!". É um truque. Ou talvez Molyneux chamaria de "um experimento". O que aconteceu com o bom e velho investimento, rapazes? Você sabe, onde alguém dá a vocês algum dinheiro e compartilha o risco e talvez realmente GANHANDO alguma p*** em algum ponto? O que aconteceu com AQUELE experimento?

O que está acontecendo é cínico, e é feio. Estes game designers estabelecidos descobriram que as pessoas estão começando a usar o Kickstarter como uma coisa que os ajuda a definir quem elas são o que elas gostam. Quando alguém apóia um projeto, não é totalmente a respeito daquele projeto específico. Se você apóia um adventure point and click, você está dizendo ao mundo que ama aquele gênero. Você está dizendo que aquilo importa para você. Isto faz com que você seja fácil de explorar. É a coisa mais fácil do mundo para um filho da p*** frio de terno explorar alguém com coração.

É magnífico ter pessoas que curtem suas coisas. É magnífico ter apoio. O que é ainda melhor é você apreciando que ELES SÃO aqueles que VOCÊ devia estar tentando pagar de volta pelo apoio. Se as pessoas curtem o que você faz e tornaram-no de alguma forma relevante em nossa cultura, VOCÊ deve a ELES alguma coisa.

EI, VOCÊ ME AMA, PAGUE-ME PARA EU GRAVAR MEU NOVO DISCO!

EI, VOCÊ ME AMOU ANOS ATRÁS, PAGUE-ME PARA EU RE-FAZER MINHAS ANTIGAS IDEIAS!

EI, EU SOU MEIO QUE FAMOSO, PAGUE-ME PARA EU FAZER ALGUMA M*** TALVEZ, NÃO SEI, QUALQUER COISA!

Você acha que eu já não considerei rodar um Kickstarter? Você acha que eu já não pensei comigo mesmo - "Ei, eu poderia fazer um Kickstarter para este blog de jogos, levantar dinheiro para filmar umas coisas, levantar dinheiro para um equipamento melhor, levantar dinheiro para que eu possa passar mais tempo nessa e tal, levantar dinheiro para acariciar meu ego!".

Mas então eu paro e me pergunto se eu não posso fazer isso sozinho.

E se você puder? Mesmo se for complicado? E AINDA ASSIM você começa um Kickstarter?

Então F***-SE, Molyneux. E todos os outros que vieram antes de você.

E, deprimentemente, todos aqueles que ainda virão.

Ao contrário da clássica coluna na Eurogamer, eu acredito que Florence está ERRADO desta vez. E já comecei usando uma caixa-alta logo na primeira frase.

Contextualizando a questão, ele se refere ao projeto GODUS de Molyneux e o novo Elite de Braben. Acusar dois veteranos da indústria com um histórico impecável de glórias passadas (descontando as tolices de Molyneux sob o teto da Microsoft) de "ganância" é algo que o próprio Florence reconhece que pode ser forte demais. Ao questionar, porém, se eles não poderiam encontrar financiamento através de canais tradicionais, leia-se "investidores com bolsos cheios, cifrões nos olhos e pouco interesse no mundo dos jogos", a resposta seria "claro que sim". Mas é preciso entender que Molyneux, por exemplo, abandonou o próprio estúdio que fundou (e foi assimilado pela Microsoft) para perseguir a independência de tais produtores. Porque ninguém coloca dinheiro em um projeto sem desejar ter alguma influência em seu desenvolvimento. Se David Braben, diretor e proprietário de parte da Frontier Developments, bem-sucedida third-party do Xbox e da Nintendo, tem que pedir dinheiro para pessoas comuns para tocar a quarta iteração de sua cria mais famosa é justamente porque ele não quer ter que escrever relatórios para ninguém, exceto os fãs.

Project Eternity

É estranho ver um titã como a Obsidian passando o pires para produzir um jogo? Não, se considerarmos que 90% do trabalho criado pela desenvolvedora foi feito sob encomenda de outras empresas e pode não corresponder àquilo que seus funcionários gostariam de fazer. Trabalho nem sempre a gente escolhe e, no final do mês, as contas precisam ser pagas. Esta é a mesma Obsidian que perdeu seu bônus de faturamento da Bethesda por um ponto no Metacritic. A mesma Obsidian que entregou Knights of the Old Republic II repleto de bugs e conteúdo cortado por pressão da LucasArts, para alcançar a data de lançamento marcada. Com mais de quatro milhões de dólares levantados em sua campanha para Project Eternity, a Obsidian agora pode trabalhar em seu jogo sem se preocupar com interesses alheios à produção interferindo no desenvolvimento.

E tantos outros desenvolvedores estavam, na verdade, na rua da amargura ou próximos dela, totalmente fora da indústria dos jogos eletrônicos ou sobrevivendo do mercado casual e social. São mentes criativas que se encontram afastadas do que mais gostam: projetos ousados em gêneros esquecidos. É possível que nem todos tenham mais a capacidade ou a idoneidade de entregar o que prometem. Mas, afirmar com palavras fortes que cada um deles é um oportunista em busca de fortuna extraída da boa-vontade dos fãs é uma generalização perigosa.

Sobre desenvolvedores da velha guarda com planos vagos de desenvolvimento, os fãs já estão desenvolvendo anticorpos. O agora infame "Old-School RPG" do mestre Tom Hall e Brenda Brathwaite não chegou perto de alcançar sua meta e foi rapidamente cancelado. Os próprios responsáveis admitiram que não foram muito claros sobre o que pretendiam criar. E, vejam vocês, tanto GODUS quanto Elite: Dangerous estão tendo dificuldades para manter o fluxo de financiamento entrando e podem não conseguir alcançar suas metas.

Godus

De fato, o Kickstarter vem sendo usado como forma de expressão, como símbolo de apreço por um determinado gênero. Mas eu pergunto: o que há de errado nisto? Os grandes sucessos de financiamento do Kickstarter até agora são jogos de nichos específicos que não estavam sendo atendidos pelo mercado de forma adequada. Por que os investidores tradicionais NÃO estão interessados em nada que seja diferente dos campeões de venda. Por que os investidores tradicionais são avessos a riscos. Enquanto os investidores do Kickstarter ainda não se deram conta de que existem riscos.

Neste ponto, Florence acerta. Existem riscos. Olhe para o lado e veja quantos jogos financiados pelo Kickstarter foram lançados. Não muitos, eu garanto. E, até agora, nenhum da lista dos mais apoiados. Projetos podem fracassar. Projetos podem atrasar. Projetos podem atrasar muito. Um bom desenvolvedor de jogos pode ser o mestre da narrativa, o ninja da programação, o maior artista digital que o mundo já viu e ainda sim ser um desastre financeiro que gasta mais do que arrecadou e não chega até o final. A Ion Storm, no início dos anos 00, tinha em seu quadro John Romero e Tom Hall, produziu Deus Ex e Anachronox. E faliu. Por que Romero torrava dinheiro como um desvairado.

Shut and take my money

No momento, estamos no ápice da onda eufórica do financiamento. Gigantes esquecidos do passado estão encontrando uma nova chance, fãs saudosistas estão vivendo um sonho. A onda vai quebrar, as pessoas verão que perderam dinheiro e se dar conta de que nunca houve garantia de retorno: na melhor da hipótese, kickstarters entraram com o risco, o desenvolvedor saiu com os lucros.

E o que dizer de um colunista que foi catapultado para a fama após uma denúncia e agora luta para se manter no topo? Talvez Florence devesse mesmo começar um Kickstarter, para ter mais tranquilidade. Caso contrário, irá perder relevância tão rápido quanto conseguiu. Ou estou sendo um pouco "duro"?

Ouvindo: Assassin's Creed - Access The Animus
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10 comentários:

Dori Prata disse...

Concordo plenamente com você e se levarmos em conta o fato de que as editoras praticamente não correm mais riscos, preferindo apostar seu dinheiro em sequências atrás de sequências, não é difícil imaginar que títulos pertencentes a gêneros pouco populares hoje em dia não conseguiriam financiamento de grandes estúdios, como é o caso de god games ou adventures.
Acho válido o argumento levantado por Florence, mas penso que dessa vez ele passou um pouco do limite, mesmo porque, valendo-se do nomes de lendas da indústria ou não, ninguém é obrigado a apostar num Kickstarter.

Marcos A. S. Almeida disse...

Esse caso específico eu não posso julgar porque tenho pouquíssimas informações sobre.Mas toda boa idéia que envolva muito dinheiro será pervertida para dar mais dinheiro.Foi assim com os DLCs,Bundles e até os free-to-play.Com o Kickstarter não seria diferente.E como não existe nenhum orgão regulador desta modalidade de arrecadação, incautos com muito dinheiro , muito tempo ocioso e pouco discernimento cairão como patos.Acho que este contraditório é válido até pra alertar esses mesmos incautos ou os fãs mais afoitos.

Valber disse...

Meio que sem sentido esse texto do Florence, ate pq ainda acho que Molyneux nao ta totalmente queimado na industria, ele ainda é uma máquina de hype que poderia ser aproveitada por qualquer publisher, se ele quisesse. Nao vejo essa ida dele ao kickstarter como oportunismo. Foi irônico ter chamado o cara de "animal capitalista", pois seria ainda pior se ele continuasse explorando esse modelo de hype com as publishers, com esse culto à personalidade dele. Eu to achando esse kickstarter dele bem discreto. Essa vontade dele de querer resgatar suas idéias antigas me parece sincera...So concordo com a critica que Florence faz ao modelo dos kickstarters de uma forma geral, com esse esquema de "bônus" que é mesmo ridículo, e que realmente lembra a ganância tao comum das publishers, com DLCs e tudo mais.

Por outro lado, nao posso dizer o mesmo de Warren Spector, que hoje parece ser o novo Molyneux, quando fez a promessa de que seu Epic Mickey 2 faria todo mundo esquecer Deus Ex, e ainda aproveitou pra criticar o design de jogos como Thief, de seus antigos colegas da LGS. Acho que esse culto a personalide de game designers deveria acabar, e isso vale pra Molyneux, Spector, Ken Levine, etc.

Ah, e obrigado, Aquino, por traduzir esses textos ;)

Marcos A. S. Almeida disse...

Putz, é verdade Valber, a primeira coisa que me veio á mente foi agradecer o Aquino pela tradução, mas as ideias foram brotando e eu esqueci de agradecer.Obrigado Aquino!

Carlos Wilson disse...

O texto de Florence é interessante no seu questionamento inicial mas uma tragédia em justificar o seu ponto de vista. Parece que ele teve um ataque de raiva e precisou escrever uma carta para aliviar os sentimentos.

Molyneux (uma figura influente) não poderia encontrar este apoio financeiro em outro lugar??? - OK, projeto GODUS é um "god game", jogo de "nicho"! mas temos jogos como From Dust e Legend of Grimrock que não passaram pelo Kickstarter e tiveram boa aceitação e vendas. Será que Molyneux nem ao menos tentou buscar apoio financeiro na industria???

Aquino disse: "estamos no ápice da onda eufórica do financiamento". Talvez estamos apenas no início, apenas fazendo experimentos sobre essa nova coisa chamada Kickstarter. Apenas recentemente depois do grande BUMM do projeto de Tim Schafer que desenvolvedores maiores olharam para o Kickstarter e perguntaram: "-O que é isso? o que podemos fazer com essa coisa?"

Não sabemos se o Kickstarter é moda de hipster e em 5 anos estará morto ou se será algo marcante ao ponto de mudar a indústria. Como pode mudar? A industria vai se acomodar em apostar apenas em COD's e qualquer coisa diferente vão dizer: "coloca no Kickstarter e vejo no que sai".

Valeu por mais uma tradução Aquino!

Breno disse...

"Mas é preciso entender que Molyneux, por exemplo, abandonou o próprio estúdio que fundou"

Ele não teria vendido o seu estudio?

Shadow Geisel disse...

postei um comentário enorme mas foi parar em lugar algum do blog. vai entender...

C. Aquino disse...

Shadow, seu comentário foi parar lá no Sonic: Generations...

Gabriel disse...

Realmente eu concordei mais com o Aquino, do que o cara...enfim, não li todo o texto do ex-redator, pois senti que muita coisa é se manter como "A ovelha negra das coisas pra chamar atenção e conseguir um trabalho bom e fazer um livro e ganhar uma boa grana, as custas da popularidade dos outros".
Eu aposto nesse projeto do Peter(Eu gostei de quase todos os jogos do cara, sério) e achei a pagina dele no Kickstarter(Mais hipster a pagina não tem).
Aqui o link para quem quer dar uma olhada:
http://www.kickstarter.com/projects/22cans/project-godus?ref=live

Alexandre disse...

Pois pra mim Florence acertou em cheio. Molyneux e Braben não precisam de investidores se não quiserem; eles têm fama, capacidade e currículo suficientes para conseguir financiamento da maneira normal (leia-se "empréstimo em banco"). Teriam o dinheiro sem ter ninguém no pé deles.

Mas claro, é mais fácil esperar pela boa vontade de um monte de nerds do que ser um empresário.

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