Meu filho queria jogar Far Cry 6. Que essa informação conste nos autos. Entretanto, antes de eu finalmente conseguir comprar o outro jogo da Ubisoft a um valor aceitável, a gente tinha disponível Ghost Recon Wildlands por uma fração do preço. Por que não tentar? É mundo aberto, tem armas de fogo, tem modo cooperativo, é literalmente da mesma produtora. É Far Cry com outra atmosfera, certo?
Não exatamente. Ghost Recon traz a grife de Tom Clancy, o autor de thrillers políticos intensos e realistas, enquanto Far Cry nasceu com um pé no absurdo e evoluiu para ser um parque temático da violência.Não que não haja uma glorificação da violência armada aqui, mas o fato é que Ghost Recon Wildlands está livre dos excessos quase caricatos da franquia Far Cry. Não há chefes absurdos e exóticos, não há momentos cômicos ou mesmo um vilão histriônico e onipresente que nos atormenta e nos persegue. Para ser absolutamente sincero, El Sueño, o grande chefão do cartel boliviano, mal aparece ao longo de nossa guerrilha.
Ghost Recon Wildlands, portanto, prima pela atmosfera muito mais realista, quase cínica. Aqui, meu filho e eu não somos indivíduos normais que ascendem à posição de libertadores da tirania através de métodos quase místicos. Somos profissionais. Somos integrantes de uma unidade de elite das forças armadas americanas, recrutados por Karen Bowman, uma operativa da CIA, para desestabilizar um cartel de drogas em uma Bolívia corrupta. O simples detalhe do jogo dar nome aos bois e não se esconder atrás de um país ficcional já revela o nível de seriedade que a Ubisoft buscou (para o bem e para o mal). Entretanto, não se trata somente de uma cruzada contra o narcotráfico, mas de um exercício de vingança, uma vez que o tal El Sueño foi o responsável pela morte brutal do parceiro de Bowman. Nesse caminho, teremos múltiplas violações de leis internacionais, execuções e torturas, mas não importa porque somos os mocinhos. Pelo menos, Far Cry nos deixava com o benefício da dúvida sobre a bússola moral de nossos personagens.
Felizmente ou infelizmente, meu filho e eu estávamos pouco nos importando com a trama e as missões. Até porque o jogo não faz um esforço muito grande para contextualizar nossos ataques e infiltrações. Até porque meu filho estava com pressa para jogar Far Cry 6 (que já tinha sido comprado). Nossos (múltiplos) alvos do cartel Santa Blanca acabaram sendo pouco mais do que um quadro no PowerPoint, uma lista que ele ia marcando. Não há fortes diálogos ou personagens verdadeiramente interessantes, não há tramas paralelas relevantes, ainda que o jogo nos presenteie aqui e ali com missões fora do contexto, com direito a participações surpreendentes de personagens conhecidos do universo de Tom Clancy.
Taca-lhe Pau!
O maior entrave de Ghost Recon Wildlands não é sequer narrativo. O verniz de seriedade da guerra às drogas cumpria seu papel. O maior entrave mesmo é a dificuldade exacerbada. Ao buscar uma conexão maior com o realismo, a Ubisoft investiu também em outro diferencial: combates costumam ser letais. Ainda que sejamos soldados de elite, não havia uma única trocação em que o perigo de morrer não fosse extremo.
O nível de dificuldade não está na complexidade de suas mecânicas. Ghost Recon Wildlands não tenta ser um simulador, em que cada detalhe da arma influencia drasticamente seus efeitos ou onde a velocidade do vento impacta a trajetória da bala. Não se trata disso e eu entenderia se a Ubisoft escolhesse esse caminho. Certamente, sequer jogaria, mas entenderia a decisão. A abordagem que os desenvolvedores adotaram foi dar olhos de águia para todos os inimigos e a capacidade de convergir automaticamente para sua posição ao primeiro sinal de que você está ali. Além disso, há um estoque aparentemente infinito de soldados nas fileiras inimigas e todos os seus tiros são devastadores.
O impacto foi tão forte para dois jogadores mal-acostumados com as mordomias de um Far Cry que optamos de comum acordo em abaixar a dificuldade para Fácil. Se somos soldados de elite, que o jogo entregue essa experiência. Ainda assim, determinadas missões seguiram bastante desafiadoras.
Também contrariando nossas expectativas, a evolução dos personagens é quase imperceptível. Terminamos o jogo comprando praticamente todas as habilidades que desejávamos em seu maior nível e eu, particularmente, não senti que meu personagem estava melhor em relação ao seu início. Por outro lado, eu, como jogador, havia me entendido com o ritmo e as mecânicas de Ghost Recon Wildlands, ao ponto de finalmente me sentir confortável, um bad motherfucker de charuto na boca, cabelo moicano e dedo leve no gatilho.
Dessa experiência toda, sentirei falta do recurso do drone, um excelente espião e auxiliar de combate, antenado com as práticas modernas de guerra. Nas poucas vezes em que joguei sem meu filho (para juntar recursos), pude perceber que a IA dos meus companheiros de batalha é razoavelmente eficiente. Nesse momento, Ghost Recon Wildlands se torna quase um título tático, em que você emite ordens e as vê sendo executadas com eficiência. É sádico, mas satisfatório, posicionar três inimigos sob a mira de seus aliados e ver os três inimigos tombando simultaneamente ao seu comando.
Cansados da Bolívia
Um dos grandes méritos do jogo é trazer um mapa colossal, realmente colossal, colossal demais até. Temos montanhas com estradinhas beirando o abismo, temos áreas cobertas de neve, temos deserto, temos pântano, temos planícies de sal, temos campos de mineração, temos áreas urbanas. Não falta diversidade de ambientes naquele que possivelmente é um dos maiores mundos abertos desenvolvidos pela Ubisoft.
E tudo isso é muito bonito. Ghost Recon Wildlands seria um daqueles jogos que valeria a pena simplesmente pegar a estrada e cruzar o país de ponta a ponta, curtindo a paisagem se não fosse a presença quase constante de pessoas dispostas a te matar (e conseguindo). O motor gráfico brilha oito anos depois de seu lançamento. A cereja do bolo são as tempestades, com direito a relâmpago, que podem surgir do nada e encharcar o terreno com reflexos de luz na água empoçada e na pele molhada.
Em contrapartida, estamos falando de Ubisoft e a Ubisoft não consegue olhar um mapa e não encher esse mapa de mini-atividades, colecionáveis e jogabilidade extremamente repetitiva. Mesmo seguindo estritamente a campanha, Ghost Recon Wildlands acaba se tornando uma experiência longa demais, com muitos inimigos se misturando em uma única sopa de balas, incluindo comandantes de região. Além disso, para evoluir seu personagem são necessárias missões secundárias de captura de recursos para a guerrilha e essas missões são rigorosamente iguais.
Quando Ghost Recon Wildlands nos deu a opção de desestabilizar um pouco mais a infraestrutura do cartel ou partir logo para o confronto com El Sueño, meu filho escolheu encerrar logo nossa campanha. Não julgo. Não havia nada mais para evoluir em termos de armamento ou personagens, muito menos narrativa. Vimos os créditos subindo e o jogo nos deu novamente a opção de permanecer na Bolívia e desbloquear outro final. Escolhemos Far Cry 6.
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