Retina Desgastada
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1 de maio de 2024

Jogando: Phantom Fury

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(publicado originalmente no Gamerview)

Nostalgia vende e o fenômeno dos "boomers shooters" veio para acariciar a memória dos tiozões que distribuíram chumbo grosso na segunda metade dos anos 90 e apresentar um estilo que o tempo esqueceu para a molecada de dedo nervoso. Afirmar que Phantom Fury se encaixa no movimento seria injusto. A personagem Shelly "Bombshell" Harrison surgiu um jogo isométrico chamado Bombshell, que deveria ter sido um título estrelado por Duke Nukem, mas problemas de licenciamento atrapalharam os planos. Shelly cresceu para se tornar a resposta empoderada do personagem mais famoso, ganhando seu próprio FPS 3D, chamado Ion Fury.

Chegamos então na continuação. Phantom Fury não pega carona nos "boomer shooters": Shelly tem DNA daquela era distante, é a filha perdida da 3D Realms, a sucessora legítima de uma geração. O novo jogo entrega tudo que se espera do gênero de quase três décadas atrás, com algumas poucas mudanças na fórmula e alguns poucos equívocos.

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3D is My Passion

Em termos de história, Phantom Fury entrega o básico: nossa protagonista acorda em uma mesa de operações após os eventos do jogo anterior. O lugar ao redor está caindo aos pedaços e ela precisa fugir. Daí pra frente, é uma questão de ir acumulando armas e ir capotando os inimigos que aparecem pelo caminho, enquanto um fiapo de trama é passado por comunicadores. Não importa realmente. É tudo uma desculpa bem tênue para o recheio do jogo: explorar mapas e meter bala.

Os mapas são ao mesmo tempo imensos e pouco complexos. A tecnologia evoluiu desde os tempos áureos da 3D Realms e limitações foram removidas. Agora, é perfeitamente possível estender as fases por centenas e centenas de metros, com paisagens colossais, sem explodir a memória das máquinas.

Em contrapartida, de alguma forma, isso tornou a criatividade dos designers mais acomodada. Partes significativas dos mapas não apresentam nenhum conteúdo que valha a pena ser descoberto, são apenas partes funcionais do mundo real. Raramente, é possível encontrar um recurso adicional aqui e outro ali, mas, em grande parte, se você se desviar do caminho principal, vai ser por sua conta e risco, sem recompensas.

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Dopefish vive!

Além disso, nos tempos de outrora (sim, eu vivi aquilo), era comum que muitas partes dos mapas se conectassem entre si, criando um labirinto interessante. Phantom Fury é muito mais linear nesse aspecto e não precisava: Supplice, outro "boomer shooter", tem mapas igualmente enormes, com tantas partes conectadas, que dá até para se perder. Para complicar, o layout das fases de Phantom Fury, ainda que perca em densidade para tantos outros títulos, nem sempre é claro sobre o caminho certo.

Bala na Cabeça

Se explorar mapas não é exatamente prazeroso por aqui, pelo menos o tiroteio é caprichado. Já passamos da fase de nos deslumbrar com ambientes 3D em jogos de tiro, certo? O que conta para os dias de hoje é o impacto das armas e a variedade dos inimigos.

Novamente, Phantom Fury acerta um pouco e erra um pouco. O arsenal Shelly "Bombshell" Harrison é vasto, com armas alternativas em quase todos os slots. Dessa forma, temos dois tipos de pistola, dois tipos de metranca, dois tipos de escopeta e por aí vai. Além do lugar comum, existem também algumas armas mais exóticas. Não é nada que lembre o inesperado de um Blood ou de um Shadow Warrior (o original), mas é uma seleção que faria o velho Duke Nukem dar um sorrisinho de canto de boca.

As armas do jogo também podem ganhar vantagens adicionais em quiosques de evolução, assim como a própria protagonista conta com habilidades extras fornecidas por seus implantes biônicos. Não é nada que revolucione a jogabilidade, mas adiciona um tempero para os confrontos.

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Infelizmente, os inimigos não correspondem ao que se espera de um FPS descerebrado dos anos 90. Todos podem ser facilmente divididos em duas categorias: forças paramilitares cibernéticas e mutantes. Os primeiros tem várias classes, mas são todas difíceis de distinguir na hora do sufoco. A falta de uma sinalização visual mais clara dificulta quando é necessário escolher a melhor arma para cada inimigo. Além disso, todos os inimigos tem a habilidade de enxergar a heroína a cem metros de distância, quando eles mesmos são pouco mais do que uma mancha de pixels na tela. Para piorar, os inimigos acertam com frequência irritante, mesmo de muito longe, enquanto é complicado para Shelley cravar um tiro certeiro em uma mancha que se move.

Apesar dessa baixa variedade de inimigos e das vantagens injustas que eles desfrutam, o combate é gostoso. O desafio está no ponto certo. Cada batalha pode ser vencida com a combinação exata de destreza e equipamento correto. Mesmo que se saia de algumas lutas com vida baixa, há a certeza de que curas e armaduras foram bem distribuídas pelo mapa.

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A Fúria Fantasma de Phantom Fury

O apelo da nostalgia é muito forte. Em muitos aspectos, Phantom Fury nos lembra daquela demo perdida de Duke Nukem Forever, perdida no distante ano de 2001. As aventuras de Shelley nos levam para bases de mísseis controladas por forças hostis, para uma metrópole, para o interior do Grand Canyon, para a estrada, ambientes que tinham sido apresentados para nós no trailer da quarta aventura de Duke Nukem. Ali, o falastrão original dirigia veículos e detonava geral. Aqui, nossa heroína dirige veículos e detona geral. Se o Duke Nukem Forever real lançado muitos anos depois foi uma grande decepção, Phantom Fury é um resgate temporal do que poderia ter sido.

Ficou faltando a trilha sonora arrebatadora dos clássicos do passado (ou de um Doom moderno). Shelley está nos devendo essa. Há também alguns problemas técnicos miúdos, como física bizarra em alguns momentos, cadáveres flutuando no céu e uma eventual queda pra fora do mapa. Nada que não possa ser corrigido com patches, que fique bem claro.

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Shelly "Bombshell" Harrison talvez nunca saia da sombra dos grandes títulos da 3D Realms ou nunca conquiste a popularidade de Lo Wang, Duke Nukem, Caleb e tantos outros, mas ela marca aqui seu nome na base da bala, no grande mural dos FPS que não se fazem mais.

Ouvindo: Pink Floyd - Autumn '68

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