Retina Desgastada
Idéias, opiniões e murmúrios sobre os jogos eletrônicos
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11 de novembro de 2023

Jogando: The Invincible

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(publicado originalmente no Gamerview)

Em minha pré-juventude, a ficção científica me cativou. Eu saciava minha sede frequentando sebos, em busca de livros mais em conta. Fui seduzido por um universo de obras publicadas nos anos 70, com capas produzidas lá fora nos anos 60 ou 50. Edições clássicas de Isaac Asimov, livros de bolso de Perry Rhodan, coleções de editoras que nem existem mais funcionavam como janelas para um futuro que nunca visitaria. O que The Invincible faz é resgatar um romance de 1964, do mestre Stanislaw Lem. Mais do que isso, ele oferece algo que apenas um jogo eletrônico poderia fazer: colocar o “leitor” no centro. Depois de décadas, eu estava ali, dentro de uma daquelas capas maravilhosas, em absoluto 3D.

A polonesa Starward Industries presta um tributo para um dos maiores escritores de seu país, ao mesmo tempo que nos apresenta o melhor exemplar de retrofuturismo de toda uma mídia. No controle da doutora Yasna, não estamos perdidos somente na solidão de uma paisagem alienígena, mas estamos vagando por um lugar fora do tempo, o futuro analógico que se imaginava nos anos 60. Entretanto, no cerne de tudo, está uma questão que transcende épocas ou lugares: qual é o papel do Homem no universo? Nos acreditamos invencíveis. Essa história prova o contrário.

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The Invincible Reluz Em Sua Sinestesia

Em linhas simples, The Invincible é um jogo de mistério. Yasna acorda sem memórias no desolado planeta Regis III. A astronauta da Corporação precisa entender o que aconteceu com ela e que destino tiveram seus companheiros de expedição, enquanto vaga por paisagens desoladas, mas de tirar o fôlego. A nau capitânia da poderosa Aliança, batizada de Invencível, está vindo. Corporação e Aliança refletem a Guerra Fria, que se estendeu para as fronteiras do espaço. Em Regis III, suas pífias disputas não tem lugar. O ser humano é irrelevante aqui.

Acima de tudo, essa é uma jornada filosófica. O jogador não deve esperar batalhas monumentais, maximização de estatísticas, itens para serem equipados. Na verdade, a única batalha da qual participei é mais um exercício de desespero do que de ação. O jogo se resolve sozinho, não exige habilidade. Ele exige o olhar curioso, para mergulhar nessa proposta, para explorar esse mundo e paciência para ouvir os diálogos. São muitas conversas, algumas bastante longas, mas são as melhores em muitos anos. The Invincible não tenta “gamificar” o que não se deve, não tenta negar sua origem literária.

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O pano de fundo é um dos pilares desse jogo. O visual é um colírio que usa e abusa de cores e de sépia para evocar as capas dos livros antigos. O trabalho de recriação da Starward Industries é fenomenal: quantas e quantas fotos não tirei, usando o modo Foto embutido no jogo ou simplesmente a tecla F12? Cada imagem capturada poderia ser facilmente a capa de um livro ou de um álbum de rock progressivo. O encantamento é inevitável.

A tudo isso, temos a estética retrofuturista presente até o último fio de cabelo. Nada é digital. O analógico impera. Sondas e máquinas capturam imagens em slides estáticos, uma excelente oportunidade para o departamento de arte criar quadrinhos que servirão como um resumo da história. Cada tecnologia apresentada nos soa familiar, mas estranha, como fruto de uma linha evolutiva que seguiu outro caminho.

The Invincible traz uma otimização absurda. Mesmo no limite da configuração mínima, obtive uma experiência próxima do Epic, inclusive fazendo gravações. Acabou se tornando um dos títulos mais belos, visual e conceitualmente, que joguei esse ano. Porém, não pude deixar de reparar que, em determinados lugares, as texturas nem sempre carregavam corretamente, mesmo deixando a configuração de texturas no High.

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“Nem Tudo Em Todo Lugar É ara Nós…”

A imersão não se quebra com mecânicas obtusas. Yasna interage com seu ambiente com extrema naturalidade, ela navega por labirintos com relativa facilidade. Tampouco nossa heroína é sobrecarregada com habilidades excepcionais. Ela é falha, frágil. Ela representa o Homem diante do inexplicado, diante de suas limitações enquanto ser biológico, ainda que repleto de presunções. Yasna vai desvendando o quebra-cabeças que é Regis III enquanto paralelamente vai desmontando tensões muito humanas.

A rara falha de The Invincible está em seu último terço. Quando se soluciona o enigma do planeta, com uma cena de puro choque, a narrativa perde ligeiramente o fôlego. Alguns eventos anteriores permanecerão sem respostas ou sentido. Ou talvez eu tenha seguido outro caminho. Apesar do título não ser totalmente baseado em decisões, como um título da Quantic Dream ou da Telltale Games, existem alguns momentos em que o jogador pode fazer escolhas impactantes. Além disso, algumas informações que Yasna reúne são objetivos opcionais.

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A conclusão da trama, pelo menos para mim, não foi retumbante, mas o resultado de um conjunto de conversações entre personagens. Não é Star Wars, é Star Trek das antigas. A desenvolvedora não força a mão para que o jogador tome esse ou aquele partido em relação aos eventos e eu também aprecio essa liberdade.

The Invincible cruzou a vastidão do tempo e do espaço para me apresentar um horizonte nostálgico. É uma peça rara em um mundo de Starfields e No Man Skies, um anacronismo, um trabalho de paixão da Starward Industries que merece ser apreciado.

Ouvindo: Masayoshi Soken - Rival Wings

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Blog criado e mantido por C. Aquino

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