Retina Desgastada
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10 de abril de 2023

Jogando: Road 96: Mile 0

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(publicado originalmente no Gamerview)

Em minha prévia de Road 96: Mile 0, reclamei que não estava esperando um título que teria tantos segmentos frenéticos e aparentemente desconexos da narrativa. Entretanto, também escrevi que queria saber que caminhos iriam tomar Kaito e Zoe, os jovens amigos protagonistas dessa aventura. Poucas horas depois de ver os créditos subindo, comprei Road 96, que nunca havia jogado antes.

Esse prelúdio funciona maravilhosamente bem como uma introdução suave para esse universo intrigante. Acompanhamos o destino de dois adolescentes, entrelaçados pela força da amizade, afastados por classes sociais em um país governado por um tirano. Ou seria um país atormentado por guerrilheiros? As decisões estão na mesa, a música está no ar, o skate e os patins vão dançar em uma jornada que mistura situações cômicas com momentos dramáticos.

Era Uma Vez em Petria

Petria é uma nação governada por Tyrak, um presidente que vence todas as eleições de novo e de novo. Um grupo terrorista conhecido como Black Brigades realizou um grande atentado em 1986 e o governo endureceu. Câmeras de vigilância procuram por dissidentes do regime. A polícia prende suspeitos a toda hora. Suspeitos somem nos porões. Cartazes pró-governo, estátuas do governante e imagens colossais desse homem são onipresentes na paisagem urbana da cidade de White Sands. Tyrak está prestes a anunciar que se lançará como candidato à reeleição enquanto sua principal rival na disputa é hostilizada em cadeia nacional.

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Esse é o universo de Road 96: Mile 0. Apesar do tom pesado de se viver sob a sombra de Tyrak, a atmosfera do jogo está muito longe do niilismo de um Beholder, por exemplo. Todos esses elementos são pano de fundo para a amizade improvável entre a filha de um dos ministros de Tyrak e o filho de um casal de serviçais, um jardineiro e uma faxineira, da capital partida de White Sands. Será que os laços de companheirismo que unem Kaito e Zoe sobreviverão aos dilemas que essa sociedade joga sobre eles?

Boa parte das situações são resolvidas em sequências nervosas de perseguição abstrata, seja em cima de patins (no caso de Zoe) ou em cima de um skate (no caso de Kaito). Qualquer conflito emocional processado dentro da cabeça dos protagonistas é a desculpa perfeita para engatar o som, testar os reflexos do jogador e pirar no visual de fases psicodélicas que remetem à situação real. Entretanto, esse mesmo sistema é habilmente empregado para resolver momentos concretos da história, em que a desenvolvedora Digixart precisaria criar todo um novo conjunto de mecânicas, um mapa 3D e outras bossas, mas simplifica tudo com um rolê imaginário.

Essa dicotomia entre os segmentos de exploração e conversa e os segmentos de perseguição me causaram muita estranheza na prévia. Porém, ao retornar a Road 96: Mile 0, já sabendo o que me esperava, mudei de opinião: é o casamento perfeito. A intensidade das cenas de perseguição só reforça o frescor juvenil e são o ponto alto da jogabilidade, sendo que são as únicas partes que podem ser refeitas através do menu, em busca de pontuação melhores. E foi exatamente o que eu fiz, com um dos níveis, ao som de "No Brakes", do Offspring, que repeti e obtive o rank S. Geralmente, ignoro esses elementos.

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A realidade não é um compromisso do jogo, mesmo que sua realidade seja opressora ou apesar de sua realidade ser opressora. Isso se percebe também nos gráficos, que fogem do fotorrealismo e abraçam um visual estilizado, urbano, com cores fortes e vibrantes. Ao invés de uma ditadura cinzenta, temos uma aventura colorida que se passa em meio a um regime injusto.

Ela Vai de Limusine, Eu Vou de Trem

Zoe é uma personagem que irá reaparecer em Road 96. Sendo um prelúdio, a aventura de agora serve para mostrar o que exatamente a motivou a largar o conforto de sua mansão, sua condição social, para pegar a estrada no jogo seguinte, para sair de Petria. Kaito é inédito na franquia, mas retorna de Lost Harmony, o primeiro título do estúdio, de 2016. De Lost Harmony também vem a mecânica que mescla música e corrida por paisagens surreais.

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Personagens que serão marcantes em Road 96 também surgem aqui, mostrando que seus destinos estão mais interligados do que se imaginava. Temos o caminhoneiro John, o garoto criador de bugigangas eletrônicas Alex, a policial sensível Fanny, além de referências diversas a outros andarilhos. É um aceno para os fãs, uma vez que Kaito e Zoe dominam a narrativa aqui.

Cabe ao jogador direcionar essa dupla para polos opostos da grande questão: Petria é um bom lugar para se viver ou não? Kaito começa a aventura com o coração pendendo para a rebeldia, para o lado das Black Brigades e para a fuga de White Sands. Zoe começa a aventura com o coração pendendo para ficar, para a teia de mentiras construída por seu pai em torno da pureza do regime e por conta de um trauma do passado. Atos como pichar cartazes, revirar o lixo, aprontar "pegadinhas" e outros pequenos gestos de inconformismo irão empurrar os personagens através de uma barra de alinhamento em Road 96: Mile 0.

É um jogo de cartas marcadas, obviamente: Kaito e Zoe vão sair de White Sands. Eu não consigo imaginar como o jogo reagiria se eu tivesse empurrado todas as escolhas na direção pró-governo, ignorando todos os sinais de que há algo de podre nesse regime.

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Road 96: Mile 0 Traz os Discos, as Danças, os Riscos da Juventude

Esse sistema de decisões está muito longe de ter o peso de um título da Telltale Games. Suspeitei inclusive que ele fosse apenas "cosmético", uma indicação frouxa de que meu Kaito agora era um "guerrilheiro" ou algo assim. Ou mesmo algo quebrado, uma vez que minha Zoe só faltava usar uma camisa de Che Guevara e ainda assim tinha dúvidas e falas que não correspondiam ao alinhamento que eu construí.

Para minha absoluta surpresa, a barra de alinhamento tem uma importância capital em um momento chave no final de Road 96: Mile 0. Uma das opções que um dos personagens poderia escolher sequer estava habilitada: meu destino estava traçado. Tragicamente, fui forçado a tomar uma decisão que era ambígua e indesejada.

Outro defeito do jogo está no sistema de hub mal aproveitado. Kaito e Zoe tem um "quartel-general", uma construção abandonada onde eles colocaram um sofá, uma máquina de fliperama e coletáveis que você vai juntando ao longo do jogo. Infelizmente, há muito pouco para ser feito nesse espaço, que poderia oferecer mais atividades e opções de customização.

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Por ser um prelúdio, há muitas perguntas sem respostas em Road 96: Mile 0. Há elementos que são mencionados que são extremamente intrigantes, que parecem estar ali para algum tipo de missão, mas não são relembrados depois. Conteúdo descartado ou o jogo toma caminhos diferentes de acordo com seu alinhamento? Não há nenhuma indicação nesse sentido.

Felizmente, todos os problemas se esvaem diante de uma trilha sonora impecável, uma direção de arte bela e envolvente e personagens que você gostaria de ter conhecido na juventude. Tudo fica melhor com amigos, até mesmo ditaduras no meio do deserto.

Ouvindo: Mike Mirabello - Ascension

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