Retina Desgastada
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9 de março de 2023

Jogando: Road 96: Mile 0 (Primeiras Impressões)

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(publicado originalmente no Gamerview)

Toda jornada começa da inércia. Diz a Física que um corpo imóvel tende a permanecer imóvel, a menos que uma força aja sobre ele. Em Road 96: Mile 0, essa força é a amizade que une Kaito e Zoe, dois adolescentes em seu momento de maior questionamento, em uma sociedade repleta de perguntas sem resposta. Com uma proposta bem mais leve, a desenvolvedora DigixArt deixa de lado temporariamente as dores de se viver sob uma tirania disfarçada e nos convida a celebrar a vida, a música e o skate.

O resultado é uma aventura que pouco lembra as bifurcações, as incertezas e, por que não dizer?, o medo vivenciado no surpreendente e emergente Road 96. Ao invés da estrada, temos as ruas e becos de uma cidade partida entre ricos e pobres. Ao invés de diversos personagens, acompanhamos apenas dois. Esse é o ponto de origem, o que veio antes, a fagulha inicial da próxima obra.

Antes de prosseguir, permitam-me um par de observações. Primeiro, a cópia de prévia cedida para avaliação continha marcas d’água ao longo de toda a tela. Isso não apenas prejudicou levemente a imersão como também impediu a captura de telas próprias. Todas as imagens utilizadas nessa prévia do jogo são promocionais. Segundo, a cópia cedida contém somente o primeiro ato da aventura, é praticamente uma demo de pouca mais de duas horas. Inclusive, a cena visualizada na terceira imagem desse texto não estava presente no conteúdo analisado.

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Encontro de Universos

É importante frisar também que Road 96: Mile 0 pode ser experimentado tranquilamente sem conhecimento do jogo lançado anteriormente. Não apenas esse jogo é um prelúdio, como toda a atmosfera desse universo é habilmente explicada ao longo da aventura. Há aqui e ali referências a personagens que estarão presentes no outro jogo, mas não é nada que atrapalhe a compreensão do que está acontecendo agora.

A protagonista Zoe é uma das personagens que retornará em Road 96. Esse é o momento em que descobriremos suas motivações para abandonar o conforto do seu lar, pegar a rodovia que dá nome ao jogo e tentar cruzar a fronteira para sair de Petria. Porém, o jogador tem liberdade para moldar seu destino e acredito que seja possível tanto movê-la na direção da fuga, como mudar o que foi visto antes e fazer com que a moça mantenha seu status quo.

A surpresa aqui é que Kaito vem de outro jogo da DigixArt: o praticamente obscuro Lost Harmony. O título de estreia do estúdio foi lançado em 2016 e contava uma história agridoce estrelado por Kaito e sua amiga Aya. Tampouco é necessário conhecer os acontecimentos daquele jogo para apreciar esse, uma vez que seu impacto é amplamente mencionado nesse.

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Essa união de Zoe e Kaito não é apenas narrativa, mas também simbólica. Em Road 96: Mile 0, a desenvolvedora junta a jogabilidade dos dois títulos, de uma forma que parece forçada à princípio, mas acaba cativando. O Road 96 original era um adventure com escolhas que iriam impactar eventos adiante. Ainda que Road 96 tivesse suas fases com jogabilidade mais ágil e divertida, com alguns minijogos, seu núcleo estava nas decisões e suas consequências. Lost Harmony, por sua vez, era um runner musical, em que o jogador precisava desviar de obstáculos, coletar pontos e curtir música clássica. Lost Harmony surgiu como jogo móvel e não esconde suas origens visuais.

Portanto, temos em Road 96: Mile 0 a alternância entre exploração e decisões com sequências frenéticas em cima de um skate que lembram um titulo de celular, movidas a músicas que vão do punk de Offspring (ou uma banda que lembra muito Offspring) até melodias orientais. Inclusive, seu primeiro contato com o jogo é na pressão, o que pode assustar os jogadores que estão vindo das águas mais plácidas de Road 96.

Road 96: Mile 0 é A Dama e o Vagabundo Sob a Ótica de Karl Marx

O que não foi dito ainda sobre esse jogo é que Zoe é de família rica. Seu pai é o Ministro do Petróleo do governo distópico de Petria. Todos os NPCs se referem a ela como Madame Zoe, embora a jovem tenha apenas 16 anos. Em contrapartida, Kaito é filho de um jardineiro e de uma faxineira. Ele mora em um apartamento na parte pobre da cidade que é do tamanho do quarto da moça. Contrariando todos os dogmas dessa sociedade, os dois são melhores amigos.

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O sabor dessa amizade é a alma do jogo. Os melhores momentos acontecem quando eles conversam sobre suas angústias, escondem seus segredos e traumas, planejam um futuro em comum ou pura e simplesmente se divertem em um “esconderijo secreto”, em um prédio em obras. O cafofo será o hub do jogo, um lugar para onde sempre se retorna e pode ser customizado com colecionáveis espalhados pelos mapas da cidade.

Há uma energia vivaz na forma como a DigixArt lida com esse relacionamento, uma autenticidade rara de se encontrar. Embora a atmosfera a todo momento nos lembre que estamos vivendo em um cenário tirânico, é impossível não sorrir diante da rebeldia desses personagens, o elo que os une ou apenas a música que toca em seu toca-fitas. Houve momentos em que eu tão somente queria ficar sentado no esconderijo ouvindo a última faixa que encontrei em algum canto escondido da selva de pedra.

Se simpatia é quase amor, estou quase apaixonado por Road 96: Mile 0. Suas idiossincrasias, como algumas vezes não saber o que fazer para a história avançar, ou suas duas travadas para o desktop durante o teste, não foram suficientes para me desanimar. Quero saber que caminhos irão tomar Kaito e Zoe, mesmo sentindo que talvez não seja agradável o final dessa estrada.

Ouvindo: Nick Cave - Loveman

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