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10 de dezembro de 2022

Jogando: The Flame in The Flood

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(OBS: por precisar reinstalar o Steam, acabei perdendo todas as telas que capturei dos primeiros 3/4 do jogo)

A jornada é mais importante que o destino: uma afirmação repetida diversas vezes em diversas obras, mas que raras vezes foi tão verdadeira quanto em The Flame in The Flood. O aventureiro que consegue alcançar o final desse rio é, acima de tudo, um sobrevivente. Vencer tem um gosto todo especial nesse mundo pós-apocalíptico. É impossível não atingir sua conclusão carregando na mochila uma vasta coleção de experiências, momentos sofridos e até mesmo mortes.

O título de estreia da The Molasses Flood é uma obra carismática no universo brutal dos títulos de sobrevivência. Que satisfação começar o ano descobrindo o prazer de Arid e suas paisagens tórridas e terminar o ano descobrindo as curvas e as surpresas de um universo dominado pela presença marcante da água. Aqui, o apocalipse veio e a civilização sucumbiu. Não há uma explicação sobre os eventos que levaram a esse ponto, mas um fato prepondera na região: restaram somente ruínas e a natureza selvagem está reconquistando seu espaço. Em busca de rumores de salvação, controlamos uma jovem que está usando a principal via de transporte disponível: um rio caudaloso, que representa uma ameaça por si só.

A jogabilidade assim se divide em dois momentos. O primeiro deles consiste em domar o rio, controlando uma balsa improvisada. Não é fácil. Despedaçar meus sonhos e esperanças contra as pedras no caminho foi minha principal causa de morte em The Flame in the Flood. É possível aperfeiçoar a balsa com melhorias e a adição de um leme é indispensável. Entretanto, mesmo com o leme, minhas habilidades não eram garantia de sobrevivência, principalmente nas muitas corredeiras que existem agora. Tudo indica que algum tipo de dique se rompeu e o rio está muito mais furioso do que já foi um dia, consumindo sem dó nem pena os restos da sociedade que já habitou suas margens.

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O segundo e mais longo momento consiste em atracar em docas na região e explorar a terra seca. É aí que entram em ação as mecânicas de todo jogo de sobrevivência: coletar recursos escassos e aleatórios, fabricar itens, garantir água, alimentação e descanso... e escapar ou derrotar feras selvagens. Nesse aspecto, o título é bastante sólido. Inicialmente, ele parece injusto e randômico demais ou talvez os deuses do Caos simplesmente me odeiem, mas logo consegui entrar no ritmo de The Flame in the Flood. Em nenhum momento morri para fome ou sede e as feras me venceram apenas uma ou duas vezes. Sendo o acumulador que sou, terminei o jogo com um bom suprimento de comida e outros itens.

A princípio também, The Flame in the Flood parece um roguelike, gênero que me causa calafrios. Minhas primeiras mortes me levaram de volta ao começo, o que é bastante frustrante. Felizmente, o jogo trabalha com checkpoints. Eles são bem espaçados, o que torna cada morte impactante, mas trazem uma grande sensação de vitória quando finalmente são alcançados. Ao contrário de um save tradicional, o sistema de checkpoints traz elementos de roguelite: se morrer e precisar atravessar uma região novamente, nada será como antes, com portos diferentes, recursos diferentes e perigos diferentes. Achei muito satisfatório. Isso também significa que, se você morre por algum tipo de azar, ele não irá se repetir.

Minha segunda principal causa de morte foi hipotermia. O jogo não te avisa, porém, depois de determinado ponto, se torna fundamental ter as roupas mais quentes possíveis. Porém, o jogo também não te avisa que elas não são um passaporte para a sobrevivência absoluta. Em seu realismo, The Flame in the Flood revela que o casaco mais quente, se estiver molhado, é um risco para sua vida. Se inicia então uma busca desesperada por um abrigo seco, uma fogueira ou uma trégua na chuva que parece escarnecer de você.

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Depois de cada acidente, cada lobo, urso ou javali no seu caminho, cada oportunidade perdida, cada momento de escuridão se abatendo sobre seu corpo gélido, cada perna quebrada, laceração profunda ou envenenamento de cobra, mesmo assim eu voltava, para mais uma sessão, para mais uma descida rio abaixo, mais uma jogada na roleta a cada caixa aberta ou doca atracada. Não por acaso, The Flame in the Flood tem um modo infinito, uma tentação que consegui evitar. Sua jogabilidade é deliciosa, sua trilha sonora folk, que brota espontaneamente, é magistral, sua arte convidativa, seus raros NPCs são folclóricos.

Porém, o que define a jornada é o destino. The Flame in the Flood não seria o mesmo para mim sem essa chama ardendo no meio da enchente. Eu precisava chegar, eu precisava vencer, eu precisava ver o que havia no final daquele rio.

A The Molasses Flood não me desapontou. Valeu a pena cada batalha.

Ouvindo: Johnny Thunders - Leave Me Alone

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