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27 de abril de 2022

Eu Vi: Arcane

arcaneCom um grande atraso, assisti à série de animação Arcane, baseada em League of Legends. Por não conhecer e sequer ter interesse pelo MOBA (infame por sua comunidade tóxica) e acreditando que o hype em torno da série era exagerado, fui adiando e adiando. Acabei me surpreendendo com o que talvez seja um dos melhores produtos derivados de um jogo dos últimos tempos. Muito provavelmente porque Arcane se distancia de sua base de fãs, não guarda vínculos com a mecânica do jogo e apenas se concentra em contar uma história inacreditavelmente densa.

A série se sustenta em temas que poderiam ser considerados polêmicos dentro daquele famigerado estereótipo do gamer tradicional (principalmente o "lolzeiro"). Encontramos insinuações muito sólidas de um sentimento homoafetivo, melhor construído do que muitos romances heteronormativos, em que o protagonista tão somente olha para a "mocinha" e se apaixona instantaneamente. Encontramos alertas sobre a natureza da guerra e da sede do poder, vemos o uso do sexo como ferramenta de persuasão e mais.

Temos também aqui uma nítida separação de classes sociais em que aqueles que moram na cidade alta sustentam um modelo urbano que oprime aqueles que moram na cidade baixa. A vontade de realizar um levante está presente entre os moradores da Subferia e é apenas o medo de uma reação militar brutal (como já aconteceu no passado) aquilo que mantém o status quo. Enquanto isso, o conselho que comanda a cidade age de forma completamente alheia às questões que se passam sob seus pés.

Entretanto, o contexto de Arcane foge da militância barata. Não há certos ou errados em nenhum dos dois lados e a cena final é uma facada no peito de um ciclo que irá se perpetuar. Há membros da classe abastada movidos por nobres ideais que desejam mudanças e justiça social. Há membros da classe oprimida que desejam tão somente se tornar os novos opressores. Absolutamente nada em Arcane é maniqueísta, com personagens apresentando camadas e camadas de relacionamentos ao ponto de você se enternecer com a relação de real afeto entre o grande "vilão" e sua protegida ou se revoltar com as decisões equivocadas que o suposto "mocinho" toma.

jinx

No centro dessa dicotomia, talvez como o símbolo máximo da proposta da série, está a dividida Jinx. O clone de Arlequina no jogo aqui é ao mesmo tempo vítima e algoz, pura e demoníaca, irmã e assassina, uma dualidade que não emerge de um trauma somente, mas que já se manifestava desde os minutos iniciais, e que se conclui de forma trágica com um dramático sentar em uma cadeira. A bomba ambulante se torna o pivô acidental de mudanças que irão alterar a cidade de Piltover para sempre. Na reta final, ela toma a agência para si, uma anarquista incontrolável mas trágica.

Junto com Jinx, a animação brinca com efeitos visuais que remetem à psicodelia de Homem-Aranha no Aranhaverso, um estilo visual que vem se afirmando entre os estúdios, mas que nunca vi utilizado para situações tão perturbadoras.

E, de fato, Arcane é tecnicamente exuberante, com um estilo de arte ora sujo ora radiante, que se recusa a se enquadrar nos padrões ocidentais ou nos padrões estabelecidos pelos animes (sua principal referência). A arquitetura steampunk de Piltover é um deleite, assim como o figurino de seus habitantes. A cidade pulsa autenticidade, mesmo sendo uma metrópole de fantasia.

silco

A esse esmero na arte, manifestada em vários detalhes do cenário, se soma uma trilha sonora instigante, que já mostra a que veio na música de abertura, composta pela banda Imagine Dragons. Os fãs que me perdoem, mas é possivelmente a primeira canção do grupo que realmente me toca.

Continuo sem interesse por League of Legends, mas seu universo irei acompanhar de perto agora. É um lore que se torna atrativo quando utilizado com maestria por contadores de histórias.

Ouvindo: Einsturzende Neubauten - Sonnenbarke

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