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16 de março de 2022

Jogando: Aztech Forgotten Gods

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(publicado originalmente no Gamerview)

A ficção científica existe para especular futuros prováveis a partir dos avanços tecnológicos de hoje, mas também pode ser utilizada para conceber presentes alternativos a partir de eventos do ontem. Essas conjeturas, quando comparadas com o mundo real, podem levar a reflexões sobre para onde queremos ir ou como foi que chegamos a esse ponto. Aztech Forgotten Gods parte de uma premissa inesperada: e se a colonização europeia nunca tivesse chegado na Mesoamérica e a cultura asteca fosse a dominante?

Apenas por esse ponto de partida, o estúdio mexicano Lienzo já merecia um lugar garantido no segmento da História Alternativa, lado a lado com o ousado afrofuturismo. Nesse universo sui generis, a Lienzo ainda entrega uma aventura mecanicamente divertida, com personagens carismáticos e um certo sabor de Shadow of the Colossus, mas prejudicada por extensos diálogos que mais atrapalham do que ajudam, até o momento em que finalmente o impacto emocional atinge o jogador em cheio.

A Vingança de Montezuma

A História nos diz que as civilizações pré-colombianas foram massacradas pelos colonizadores espanhóis, na base da pólvora. Na verdade, o próprio termo "pré-colombiano" deixa bem claro quem foi que venceu esse embate de culturas e os parâmetros de que lado foram levados em consideração dali pra frente. A maioria dos jogadores tem uma vaga percepção desse período, geralmente apreendida de templos esquecidos, certamente amaldiçoados ou cheios de armadilhas, presentes em tantos títulos, de Temple Run às aventuras de Lara Croft.

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Porém… imaginemos por algumas horas que a civilização asteca tenha prosperado, atingido o grau de influência e tecnologia que nós temos hoje ou até mesmo além. Como seria o vestuário? Como seria a arquitetura? Como seriam as gírias, as relações pessoais e os antigos mitos? Em outras palavras, como seria uma sociedade não eurocêntrica, mas "Aztecnológica", aproveitando o trocadilho que dá nome ao jogo? O resultado transpira em cada pixel de Aztech Forgotten Gods.

Controlamos aqui a jovem Achtli, que perdeu um dos braços no mesmo acidente que matou seu pai, durante uma escavação arqueológica. Vivendo com sua mãe, que também é uma arqueóloga renomada, elas esbarram em um artefato poderosíssimo do passado, uma manopla esquecida, batizada de Lightbringer. Com a arma perdida, despertam os deuses ancestrais da mitologia asteca. Achtli, agora portadora da Lightbringer, acoplada no lugar de seu braço, é a única esperança dessa civilização.

Passear pela cidade em que Achtli vive é uma delícia para os olhos. Tecnicamente falando, Aztech Forgotten Gods é quase retrô. A tecnologia gráfica está bastante defasada aqui. Porém, isso é facilmente compensado pela imaginação da direção de arte que nos apresenta um futurismo inspirado na civilização asteca.

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Não espere tampouco uma cidade orgânica com muitos veículos e pessoas passando, embora a liberdade de locomoção lembre a de um GTA. Tudo está em menor escala, sejam as distâncias, seja a quantidade quase nula de pessoas circulando. Há pouquíssimos lugares para serem explorados ou atividades para serem realizadas no mundo aberto. Entretanto, os prédios imensos com detalhes piramidais constroem uma atmosfera de tirar o fôlego.

Falando Pelos Cotovelos

A primeira impressão que tive ao aceitar o jogo é de que ele seria um Darksiders com mitologia diferenciada. A segunda impressão que tive, já no tutorial, é de que seria um jogo de exploração e plataforma, com combates esparsos. O que Aztech Forgotten Gods realmente entrega é uma sucessão de combates contra colossos. Contudo, entre um enfrentamento e o próximo, o título nos brinda com diálogos expositivos, repetitivos, excessivos e, por que não dizer, estranhos.

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O título da Lienzo adota um esquema de diálogos que não são dublados, apenas aparecem escritos. Porém, durante as conversas, os personagens ficam fazendo caras e bocas exageradas, enquanto emitem sons inumanos e enfadonhos. Considerando a grande quantidade desses momentos, é fácil imaginar que o jogo exige paciência. Que fique registrado que atravessei 50 minutos de conversação antes de finalmente entrar em combate contra meu primeiro colosso.

Superado esse estranhamento, depois de algumas horas ficou evidente que esses personagens e seus dramas se tornaram simpáticos a mim. Achtli está muito longe de ser a heroína resolvida e decidida que aparece nos trailers. Ela guarda angústias devastadoras que irão desaguar na melhor batalha de chefe de todo o jogo, um embate psicológico muito bem executado.

Aztech Forgotten Gods possui uma forte carga emocional, que talvez seja um pouco "novela mexicana", mas que funciona muito bem nos momentos certos, principalmente na conclusão. Por outro lado, a reviravolta final da trama é perceptível a anos-luz de distância...

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Em outras palavras, remover os diálogos do jogo certamente teria prejudicado essa camada adicional de empatia com seu universo. Ainda assim, acredito que investir em dublagem (mesmo em espanhol, que fosse) poderia ter ter transformado um ponto fraco em um ponto forte do título.

Largando a Mão em Aztech Forgotten Gods

A Lightbringer é o centro mecânico do jogo. Ela é seu principal meio de propulsão e única arma, em um título que usa e abusa da verticalidade. Na verdade, a arma te movimenta de forma tão veloz pela cidade e pelos campos de batalha, que é necessária uma certa prática para não se passar do ponto de impacto ou de pouso. Nem por isso deixa de ser divertido se lançar para os céus e voar como um Superman.

O sistema de socos é bem básico, mas você sente o coice da manopla. Aztech Forgotten Gods consegue passar a sensação de que você está usando um artefato criado para destruir deuses. Cada um dos chefes exige um esquema diferente para ser derrotado, alguns mais fáceis, outros mais difíceis e um, em especial, que não é vencido no soco…

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É uma pena que a aventura ofereça poucas oportunidades para vencer inimigos menores em missões secundárias. Existe meia dúzia delas espalhadas por todo o mapa, mas há pouco estímulo para buscá-las. Apenas com os pontos adquiridos nas batalhas contra chefes já é possível evoluir as habilidades de Achtli na direção que você deseja, assim como desbloquear itens cosméticos.

Aztech Forgotten Gods é um saboroso mergulho em uma história alternativa, com muito potencial desperdiçado, mas que satisfaz ao longo de suas oito horas de duração.

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