Retina Desgastada
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10 de novembro de 2021

Jogando: Outcast - Second Contact

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A quarta vez é a que conta? Com muito orgulho no coração posso dizer finalmente que completei Outcast. Essa foi uma jornada de 22 anos que começou lá atrás com a versão demo do jogo original, que me intrigou mas não agradou na época. Motivado por tantas críticas positivas, daria uma nova chance ao jogo em 2014, para encontrar o ódio e a decepção de uma produção castigada por bugs. Imbuído da mais pura teimosia, faria uma nova tentativa em 2016, para outra vez desistir no meio do caminho, vencido pelas mesmas falhas de antes.

Agora, acabou. O remake Outcast - Second Contact talvez não seja a experiência definitiva, mas é a experiência que consegui completar, extraído de seu tempo, um anacronismo justificado. Outcast poderia ter mudado a indústria de jogos lá em 1999, determinado novos caminhos com seu exuberante mundo aberto e verdadeiramente alienígena, mas não aconteceu. Decisões de design, que pareciam revolucionárias duas décadas atrás, agora ou já foram assimiladas por outros títulos ou soam equivocadas. O remake soluciona alguns dos problemas, principalmente ao contar com salvamento automático, pra não dizer constante, mas outros permanecem, de certa forma contribuindo para o charme do jogo. De um jeito ou de outro, seria impossível reproduzir o Outcast de 1999: mudou a indústria, mudou o jogador.

Ainda assim, o perpétuo retorno a Outcast valeu a pena. O título é realmente uma pérola escondida, uma cápsula do tempo que não se enquadra em gênero algum e se pretende tão grande quanto uma vida, uma aventura exótica com um protagonista de língua afiada e personagens inesquecíveis. Sua trilha sonora orquestral majestosa e suas paisagens incomparáveis garantem a imersão quase instantânea. Assim como Cutter Slade, o Ulukai, somos deslocados de nosso conforto e transportados para outra realidade, uma sociedade com suas próprias regras, concepções religiosas e costumes. Mais do que apenas atravessar uma jornada, passamos por um mergulho cultural. Não somos turistas, nos tornamos habitantes participativos de Adelpha, aprendendo ao longo do caminho.

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Seus desenvolvedores foram pródigos ao criar toda uma estrutura lógica para essa civilização e, ao mesmo tempo, deixar perguntas sem resposta. Há elementos na trama que indicam mistérios mais profundos e uma estranha correlação com a cultura humana. Os exploradores de plantão como eu acabarão encontrando pistas que estão ali para indicar possibilidades, mas nunca certezas. Outcast não subestima a inteligência do jogador e arremessa termos incomuns ou inventados em uma espécie de imersão de choque. É desembarcar em um país desconhecido sem o pleno domínio da língua. Descobrir faz parte do prazer de jogar.

E como há coisas para serem descobertas... o jogo apresenta diversas regiões bem diferentes entre si, desde os campos de "arroz" que se estendem para o infinito até uma cidade no meio do deserto ou o lúgubre pântano onde o sol mal brilha. Apesar de ser necessário ir e vir muitas vezes entre as regiões, Outcast não cansa o andarilho. A cada viagem, uma nova camada desse mundo se abre, sejam cenários que são desbloqueados ou diálogos novos que nos fazem entender e apreciar ainda mais os Talan. Foram 22 horas que passaram voando e deixaram saudade.

Remake ou Redux?

Infelizmente, o remake não é perfeito. A impressão que fica é que a Bigben Interactive buscou uma maior acessibilidade e reduziu drasticamente o nível de dificuldade. Raríssimas foram as vezes em que meu Ulukai encontrou a morte, mesmo em batalhas conta chefes supostamente assustadores. Tinha memórias de batalhas decisivas e tensas contra soldados comuns no passado, porém, desta vez, o protagonista é praticamente um semideus da pistola que aniquila seus inimigos sem dó nem piedade. Para nem precisar me preocupar com encontros fortuitos, dediquei parte de minha aventura a caçar e destruir soldados antes mesmo que o jogo me solicitasse.

Entretanto, é importante ressaltar que batalhas são o que menos importa em Outcast e nunca foram mecanicamente complexas para começar. Se a Bigben Interactive optou por reduzir o atrito e permitir que os jogadores avancem com mais tranquilidade pela trama, foi uma escolha válida.

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É possível também que algumas missões tenham sido simplificadas ou eliminadas, mas, nesse caso, minha memória é menos marcante. Principalmente porque, até então, havia conhecido menos de um terço de todo o jogo.

A nova mecânica de salvamento automático tornou inútil o salvamento manual, que faz parte da interatividade do jogo, quando Cutter Slade literalmente pega um artefato chamado de Gaamsav de sua mochila e preserva seu momento no tempo. O que antes era mais um componente da imersão, agora se tornou obsoleto. Ainda assim, puxava meu Gaamsav ao fim de cada sessão ou antes de momentos mais perigosos.

Ocasionalmente, bugs aparecem, principalmente nas animações. Vi carros de boi rodopiando loucamente no cenário e personagens flutuando em direção ao céu. Em uma das missões de escolta, a pessoa que eu deveria escoltar desapareceu da face do planeta. Meu coração gelou, acreditando que teria que recuperar um save, mas, felizmente, ele se teleportou automaticamente para o destino e a missão foi cumprida.

Também pude observar o próprio processo de desenvolvimento da Bigben Interactive: a primeira região é extremamente intricada, com muitas missões espalhadas por seu território gigante. É onde se encontram a maioria dos bugs, até hoje. Em contrapartida, áreas posteriores, quando claramente o orçamento estava diminuindo, são menos complexas. Okaar, a região florestal que possivelmente é a última que você encontra, já que só existe um portal escondido para ela, é minúscula e praticamente despovoada, embora isso não a torne menos gratificante.

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O final do jogo também parece corrido, com muitos eventos se atropelando. Novamente, o jogo toma algumas decisões equivocadas. Passei boa parte da aventura acumulando munição e dinheiro (para comprar mais munição). Na penúltima batalha do jogo, minhas armas são removidas e fico apenas com uma pistola, lançando todo meu preparo no lixo e colocando a vitória nas mãos de minha perícia. Antes da sequência final não há qualquer aviso de que esse será um caminho sem volta, de que não terei outra chance de finalizar missões pendentes ou reabastecer minha munição. Sou então arremessado para o final, com minhas armas, mas, surpresa!, sem munição alguma, a não ser aquela que pego no cenário. Ulukai termina a aventura milionário...

Apesar da pressa, a Bigben Interactive encontra espaço para algumas respostas e momentos dramáticos. Outcast não decepciona na sua conclusão e na sua despedida. É satisfatório demais libertar Adelpha, principalmente depois de duas décadas tentando. Parto, mas outro retorno já está garantido.

Ouvindo: Sepultura - Straighthate (live)

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