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1 de julho de 2021

Jogando: Beasts of Maravilla Island

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(publicado originalmente no Gamerview)

A Nintendo vem conseguindo entregar uma aparentemente infindável sequência de jogos cativantes, que ajudaram a formar franquias consagradas, porém exclusivas. Essa estratégia de décadas consolidou a venda de seus consoles, único espaço para se jogar seus títulos. Se a Nintendo não faz nada pelas outras plataformas, alguém tem que fazer. Portanto, na prática, Beasts of Maravilla Island é Pokémon Snap, mas para PC (e, sem deixar de ser irônico, disponível também no Switch).

A desenvolvedora Banana Bird comete a audácia de criar um jogo em que o objetivo é tirar fotos de animais absurdos, sem ter na retaguarda décadas de cultura pop. Em consequência disso, seu jogo busca, no espaço de poucas horas, estabelecer uma relação de empatia com um universo inédito, utilizando mecânicas já testadas anteriormente, e contando com a boa vontade de seu público. O resultado é um jogo relaxante, simpático, mas cuja experiência não deixará lembranças.

La Isla Bonita

Marina Montez é uma Dora Aventureira mais velha que parte em busca de uma ilha misteriosa, seguindo os rastros de seu avô. A jovem fotógrafa acaba encontrando o lugar, um paraíso tropical envolto em neblina. Isso significa que o diário deixado pelo avô é autêntico, assim como as histórias que ele contava para ela em sua infância. Agora, munida apenas de sua máquina fotográfica, ela deve preencher seu álbum de fotos e documentar esse lugar mágico, habitado por criaturas exóticas.

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As tais bestas da Ilha Maravilha são híbridos que desafiam as leis da ecologia. Temos, por exemplo, o pássaro banana que dá nome ao estúdio que criou o jogo, um tipo de tucano que se assemelha a uma banana descascada. E temos também insetos cristalinos que lembram joias preciosas, uma lontra-gato que se camufla como troncos no rio, morcegos fluorescentes, plantas que emitem feixes luminosos e outras formas de vida, da flora e da fauna, que precisam ser fotografadas.

Embora a fotografia seja a principal mecânica em Beasts of Maravilla Island, o jogo está longe de oferecer as mesmas ferramentas que um Umurangi Generation. Marina não conta com filtros, ajuste de foco, profundidade de campo ou lentes especiais, apenas a opção de zoom e um modo selfie. Por um lado, isso dá à exploração da ilha e seu habitantes um aspecto mais casual. A moça não é uma profissional com um trabalho para fazer, mas uma neta vivendo o grande conto de fadas que seu avô contava. Por outro lado, a própria experiência de fotografar poderia ser mais prazerosa com um pouco mais de esmero.

Consequentemente, além de não dispormos de instrumentos mais rebuscados, tampouco existe qualquer juízo de valor ou obrigatoriedade nas fotos. Ao contrário de Pokémon Snap, sua evidente fonte de inspiração, não há pontos a serem adquiridos ou elementos para evoluir.

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Então, tanto faz como tanto fez se você irá obter a foto perfeita e bem composta de um animal ou se ele irá aparecer cortado no fundo, meio escondido atrás de um galho. Nos dois casos, o jogo marca que a criatura foi registrada e bola pra frente. Apenas alguns poucos bichos são obrigatórios para se avançar e precisam ter determinados comportamentos fotografados.

Completando o que beira o descaso, não encontrei nenhum diretório no meu computador onde pudesse acessar as fotos tiradas. Esse era um detalhe importante em Umurangi Generation e em TASOMACHI: Behind the Twilight, sendo que nesse último esse mimo nem era um dos focos do jogo. Em Beasts of Maravilla Island, as fotos que você tira existem apenas enquanto o jogo estiver instalado.

É Silent Hill ou é Beasts of Maravilla Island?

Talvez minha maior bronca com o jogo seja a "neblina" que envolve todos os cenários. Para um jogo cuja intenção é maravilhar e seu foco está em fotografar, não ser capaz de enxergar nada além de dez metros de distância é um grave erro. Mesmo os objetos que estão próximos parecem estar cobertos por uma película perolada. É um fenômeno que incomoda na mata fechada, mas se torna ainda mais desprovido de sentido em espaços mais abertos.

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Talvez seja um gesto de timidez da Banana Bird, uma vez que os gráficos, para ser honesto, deixam a desejar. Há momentos em que se tem a impressão de se estar jogando algo da geração do PlayStation 2. Embora eu não seja um devoto da supremacia gráfica, espera-se que um jogo de fotografia com "Maravilha" no nome seja deslumbrante ou, pelo menos, que traga uma direção de arte magistral como Umurangi Generation (que transforma um visual de PlayStation 1 em algo fenomenal).

Algumas criaturas de Beasts of Maravilla Island são bem boladas, mas nem todas. Infelizmente, os três principais de seus respectivos biomas estão entre aqueles que não impressionam tanto assim. Os próprios biomas vão perdendo seu charme à medida que se avança na aventura. A Banana Bird teve a sábia decisão de colocar a floresta no começo e no menu, porque é o melhor dos três. Em contrapartida, as ilustrações do diário do avô são um primor que parecem ter sido extraídas de um livro de biologia do século XIX.

De Férias na Ilha

A jornada é curta. Em três horas, completei a campanha, mas é importante explicar que sou lento e meticuloso nesse tipo de jogo. Mesmo com seus defeitos, eu gostaria que houvesse um pouco mais de conteúdo, mais dois ou três biomas para continuar passeando, cada um com seu próprio conjunto de seres fabulosos para fotografar.

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Os enigmas em Beasts of Maravilla Island são extremamente simples e raros. Não há qualquer tipo de desafio mais sério aqui. A própria trama também é rasa, ainda que bonitinha. Toda essa simplicidade desagua em uma sensação inequívoca: é impossível não curtir o jogo. Na pior das hipóteses, é uma excursão de algumas horas em um ecossistema inexplorado e criativo, movido a uma trilha sonora bastante relaxante.

Entre uma jogabilidade mais frenética aqui e ali, entre uma profunda reflexão e outra, o título da Banana Bird surge assim como uma pausa nos outros jogos, uma temporada de férias de títulos mais complexos ou significativos. É uma pena que não possamos carregar fotos, porque as lembranças irão se dissipar, ainda que o espírito tenha recebido uma renovação.

Ouvindo: Bad Religion - White Trash (2nd Generation)

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