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26 de junho de 2021

Jogando: Chivalry 2

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(publicado originalmente no Gamerview)

Pelo Imperador! Muito antes desse grito de guerra ser adotado pela franquia Warhammer, ele era entoado pra valer nos sangrentos campos de batalha da Europa medieval. Mesmo sem Orks, tropas do Caos, ou monstruosidades das profundezas do espaço, Chivalry 2 consegue ser igualmente brutal, para não dizer que é mais. O que temos aqui é um simulador da truculência histórica da raça humana, com direito a grito de guerra e membros decepados.

Para quem acha que já viu de tudo em termos de jogos multiplayer em primeira pessoa ou é capaz de acertar um headshot a dez quarteirões de distância em um inimigo desavisado, o jogo da Torn Banner Studios será uma grata surpresa. Batalhas corpo a corpo exigem raciocínio rápido, um diferente tipo de reflexo e uma grande dose de sorte. Afinal, até o mais experiente guerreiro podia tombar com a boa e velha apunhalada nas costas. Prepare seu aço e sua coragem, pela glória do rei.

A Idade das Trevas

Parece o Dia D. Fragatas de guerra despejam legiões de soldados em uma praia salpicada de cadáveres, máquinas de batalha e armadilhas pontudas para deter os invasores. O céu está coalhado com a cinza do fogo que queima sem parar. Mesmo sendo um jogo eletrônico, você quase consegue sentir o odor pungente de carne queimada e do sangue espalhado pela areia, que virou um matadouro. Bem-vindo, jogador, sua vida não vale nada no grande moedor de carne da guerra. Se você sobreviver por dois minutos, considere-se afortunado pela glória divina.

É com esse clima impressionante que acontece um dos muitos cenários de Chivalry 2. Não há uma campanha ou senso de progressão, afinal estamos falando de um título completamente multiplayer. O fiapo de história é apresentado brevemente na abertura de cada batalha, com a voz épica que a situação exige. Agatha e Mason disputam essas terras e se revezam se atacando mutuamente, ora em um sangrento mata-mata em campo aberto, ora tomando castelos e libertando prisioneiros, ora saqueando, matando e pilhando. Apesar do enredo não ter qualquer relevância, a atmosfera é algo que a Torn Banner Studios constrói com louvor.

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A Idade Média está muito bem representada no jogo, seja nas vestimentas, seja nos cenários, seja na forma como a guerra se desenrola. Aríetes e catapultas são comuns no cerco aos castelos, assim como escadas de abordagem e outras traquitanas que a engenhosidade humana desenvolveu para matar outros humanos. Não posso atestar o rigor histórico dessa recriação, mas a sensação que passa para o jogador leigo é de uma viagem no tempo para uma era ainda mais violenta.

A dedicação da desenvolvedora em Chivalry 2 se manifesta em seus mínimos detalhes e eu não poderia deixar de mencionar a existência de um botão específico para entoar um grito de guerra. Ele não exerce qualquer função prática na jogabilidade, mas ajuda muito a manter a moral elevada e a adrenalina correndo.

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A Espada Era a Lei

Porém, toda essa atmosfera perderia sua razão de ser se a jogabilidade não correspondesse. Felizmente, ela corresponde. E como corresponde. A Torn Banner Studios entrega combates intensos corpo a corpo, que fazem o jogador suar a cada encontro. Um duelo entre você e outro oponente é um momento de tensão que tem, de fato, o peso de uma luta de vida ou morte.

Essa tensão advém das mecânicas complexas de combate. Clicar sem critério algum no seu adversário é um passaporte imediato para a morte. É necessário observar os movimentos de seu inimigo e tomar decisões táticas em frações de segundo, que incluem bloquear, flanquear, esquivar, fintar seus ataques, meter um chutão pra frente, um soco na cara e diversas outras variações que dependem da arma que você está usando. O arsenal disponível em Chivalry 2 é bastante abrangente, para abrigar vários estilos de jogo, cada arma com um tempo, um alcance e uma pegada diferente em relação a outras.

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Chivalry 2 traz também opções múltiplas de customização para seus personagens. Existem quatro classes disponíveis, cada uma com seu próprio conjunto de armas primárias e secundárias, além de itens especiais. Também é possível personalizar sua aparência física, desbloqueando variações, mas devo admitir que, na maioria das vezes, você irá escolher entre um personagem feio e outro mais feio ainda.

Apesar de todas essas opções, o caos do campo de batalha vai te colocar em situações de extremo risco. Se a “dividida” contra outro jogador é um instante complexo, um balé de lâminas, esse instante se transforma em algo ainda mais nervoso quando você é cercado por dois, três ou mais oponentes. Para complicar suas chances de sobrevivência, nada impede que sua performance exemplar seja interrompida por um inimigo sorrateiro que te ataca no ponto cego ou pelas costas. Não há honra ou desonra na Idade Média, apenas os vivos e os mortos.

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O combate, portanto, é algo desafiador. Não é necessariamente difícil de aprender. O jogo possui um tutorial no início que atende bem os meandros de suas mecânicas. Entretanto, o tutorial ensina como lidar apenas com um tipo de arma, a espada longa, diante de uma quantidade vasta de outras armas. Além disso, na hora da onça beber água, quando um colosso blindado avançar gritando na sua direção, brandindo um machado maior que a vida, todo seu treinamento será reduzido a um grande branco no seu cérebro e apenas os instintos garantirão sua vitória.

Desta forma, Chivalry 2 é um jogo difícil de dominar até você conseguir desenvolver os reflexos necessários. Sua jogabilidade pode soar alienígena para muitos, mal acostumados com assistentes de mira ou com combate à distância de armas de fogo ou com RPGs medievais onde seus atributos respondem por tudo. Quando aço se jogar contra aço, torça para sair vivo. Se tudo der certo, você será contemplado com um show gráfico de cabeças voando, sangue e braços caindo, ao som dos gemidos de seus inimigos. Parabéns, você é um legítimo cavaleiro medieval.

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Resvalou na Armadura

Apesar de suas muitas qualidades, há defeitos nessa matança. Por exemplo, justamente por ser focado no corpo a corpo, Chivalry 2 entrega uma experiência frágil para o pobre coitado que desejar jogar como arqueiro. Décadas de FPS construíram o mito de que o arco é uma arma lenta que causa “instakill”, que mata com um único tiro. Na verdade, em uma era em que todos usam algum tipo de blindagem pessoal, o arco é uma arma lenta que exige vários tiros para matar. No frenesi da batalha, em que todos se engalfinham bem de perto, acertar o inimigo e não seu aliado também é uma tarefa inglória.

Para complicar mais a vida de quem escolhe essa classe, quando o oponente está tão próximo que você pode sentir o seu grito de guerra reverberando nos ossos, o arqueiro só tem duas alternativas: confiar que sua espada curta terá algum efeito contra uma alabarda ou entregar sua vida para o respawn e tentar outra classe mais fácil.

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O mesmo pode ser dito de balista ou catapultas, máquinas complicadas de mira imprecisa. Apesar disso, eu vi com esses olhos que a terra há de comer, um único tiro de balista perfurar três aliados meus na minha frente, fazendo um macabro “espetinho de gente”. Sabiamente, mudei minha direção.

É importante acrescentar também que o sistema de chat do jogo funciona melhor se estiver desativado. Há zero moderações no fluxo constante de xingamentos na tela. Embora eu não tenha testemunhado nenhum momento de extrema toxicidade ou preconceito de qualquer tipo, a única função do chat aparentemente é ofender ou provocar seus adversários. Se Chivalry 2 atingir a popularidade que ele merece, essa questão vai se tornar ainda mais problemática.

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Por último, e esse é mais um testemunho de como o jogo é bom, há uma carência de mapas no momento. A desenvolvedora está comprometida em continuar atualizando o jogo e não tenho dúvidas de que eles irão cumprir a promessa. Entretanto, no lançamento, a rotação de mapas acaba se tornando repetitiva bem rápido. A maioria deles é interessante de se jogar, mas isso não impede que enjoem quem se dedicar ao título.

O resultado final é uma experiência de tirar o fôlego, que não chega a ser prejudicada por seus defeitos. É uma alternativa caprichada, livre de bugs, aos FPS multiplayer tradicionais. Toda sua experiência em outros títulos não irá servir de muita coisa e você precisará reaprender como ser o senhor da guerra. Contudo, essa é uma experiência que recompensa o jogador dedicado com glória e lenda, enquanto diverte até mesmo o mais reles dos escudeiros.

Ouvindo: Megadeth - Holy Wars

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