Retina Desgastada
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31 de maio de 2021

(não) Jogando: Base One

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(publicado originalmente no Gamerview)

Espaço, a fronteira final etc etc. Quantas vezes essa simples premissa me iludiu com a promessa de uma jornada além dos limites do horizonte apenas para minhas pretensões se perderem no vácuo e no tédio? Aqui mesmo, tempos atrás, The Long Journey Home me conduziu por um trauma quase insuperável. Base One se propõe um gerenciador de estação espacial em uma galáxia distante, a última esperança da raça, mas se revela tão interessante quanto assistir a tinta secando na parede.

O que se destaca no tédio absoluto de esperar seus cronômetros internos passarem são os bugs. Sua imprevisibilidade torna a jogabilidade tensa e seria cômico se não fosse trágico. De passageiros fantasmas a caminhadas pelo espaço, passando por gente dormindo no chão, vi de tudo nessa jornada nas estrelas.

Fugiu do Acesso Antecipado

"Increased the hit box of everything". Ou, em bom Português, "aumentou a área de acerto de tudo". Esse é um patch note que é praticamente uma confissão de cagada, mas um bom preâmbulo para o problema mais evidente do jogo: ele não está polido. Com correções quase diárias desde seu lançamento, é evidente que Base One está inacabado e alguns meses de Acesso Antecipado teriam caído bem.

Em determinado momento, perdi meu save e precisei recorrer ao save automático que o jogo gera. Porém, o save automático ignorou que eu já tinha cumprido uma missão e me ofereceu ela outra vez, embora fosse impossível completá-la novamente. Em outro ponto, os tripulantes ficaram flutuando no espaço como se nada tivesse acontecido, depois de eu desmontar o módulo em que eles estavam. O comportamento normal é que eles busquem o módulo seguro mais próximo. Outra missão falhou porque o engenheiro ficou em uma animação infinita e nunca terminou de construir o que eu pedi.

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O gerenciamento de caminho é, no mínimo falho. É comum encontrar passageiros perambulando pela estação sem nenhum motivo aparente, contemplando as paredes como se tivessem visto algo interessante, talvez tão entediados quanto eu. Eu nem me incomodaria com esse comportamento, se esses mesmos "humaninhos" não ficassem travados nas paredes ou caminhando sem sair do lugar.

Em outro ponto, o jogo pediu que eu construísse oito camas para receber novos visitantes. Concluída essa etapa, o jogo me entregou doze passageiros novos. Imaginei que talvez houvesse um revezamento de beliches, como acontece em qualquer estação espacial do mundo real. Nada disso. Sem qualquer cerimônia, quatro deles se amontoaram no chão de um dos módulos e puxaram um ronco.

O número de pessoas que a estação comporta tampouco é confiável em Base One. Mesmo vendo claramente quatro tripulantes na minha tela, o jogo insistia que eu tinha três deles. Esses mesmos quatro receberam aquela leva de doze passageiros novos e passaram a computar como catorze.

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São pequenas falhas que vão lenta, mas inexoravelmente, dilapidando qualquer chance de imersão. Você nunca sabe quando pode perder um salvamento ou quando a vitória pode ser cancelada por uma falha inesperada de comportamento.

Base One e a Fina Arte de Esperar o Tempo Passar Sem Fazer Nada

Porém, vamos supor que a desenvolvedora Pixfroze conserte todos esses pequenos problemas. Eu considero improvável, porque o título é bastante ambicioso, com múltiplas camadas de interações internas, porém não consegue sequer me dizer quantos tripulantes existem. Ainda assim, vamos supor que os bugs sejam todos corrigidos depois de alguns meses. O que sobra?

Sobra um título desprovido de alma ou carisma. O interesse que é despertado pela campanha começa morno, com uma introdução mais longa do que deveria e uma explicação que soa menos científica que seus criadores imaginam. Superada a cutscene, somos apresentados a uma série de missões, divididas em capítulos separados, que são pouco mais do que um tutorial estendido. Em cada cenário, somos empurrados a realizar tarefas sequenciais que exigem alguns poucos cliques e longos, realmente longos períodos de espera. Ainda que existam opções de acelerar a velocidade, qual é o sentido? Se todas as tarefas consomem uma quantidade absurda de tempo, por que existe a velocidade "normal"? Acelerar os bonecos torna a jogabilidade menos tediosa, mas sacrifica mais um pedaço de uma imersão que nunca foi muito grande.

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O entrosamento que você começa a construir com os NPCs em um episódio, assim como sua linha narrativa, são descartados sem dó nem pena no episódio seguinte. É necessário um esforço para enxergar humanidade nesses avatares mal-modelados, mas a dublagem até ajuda. Tudo para que, no episódio seguinte, nada seja aproveitado, nem mesmo o layout de sua base.

Então, na verdade, a "campanha" nada mais é que um ensaio para o jogo livre, quando você pode construir o que quiser, quando quiser, pesquisar os caminhos de sua tecnologia e gerenciar sua equipe como bem desejar. Infelizmente, o fato de você poder construir dois módulos simultaneamente ou desenvolver uma estratégia de crescimento de longo prazo não elimina a necessidade de ser obrigado a esperar. Ou acelerar tudo de forma cômica. A lentidão de Base One faz o ritmo de títulos similares, como Depraved ou o recente Endzone - A World Apart, parecer o de um hamster ligado em energéticos com café.

Mecanicamente, existem variáveis que um administrador enlouqueceria e eu duvido muito que o jogo realmente leve em consideração. O sistema de conexões pode virar um emaranhado incompreensível em estações muito grandes, como os fios enrolados de um data center ou aquelas caixas de telefonia que existem nos atuais postes urbanos. Gerenciar funcionários é um pesadelo à parte. Fulano de Tal não se dá bem trabalhando com outras pessoas. Beltrano tem ataques de melancolia e pode demorar a recuperar a moral. Sicrano sente inveja(!) se estiver trabalhando lado a lado com um profissional que receba um salário maior. São muitas ambições para um título tão pequeno.

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Salvando o Que se Pode

Para não dizer que nada se aproveita em Base One, os gráficos são agradáveis de se olhar e a trilha sonora ajuda a recuperar parte da imersão perdida com todo o resto. Apesar de seus inúmeros defeitos, me flagrei fazendo um esforço para curtir o jogo. Há algo nele que evoca os desafios de um Startopia (joguei o clássico, ainda não experimentei o remake), porém sem compartilhar uma gota de seu carisma.

A perspectiva de se jogar dezenas de dias seguidos em um cenário customizado, depois de desistir da campanha, é agradável, desde que se tenha paciência. As missões são opcionais e aleatórias, com eventos cósmicos também adicionando uma pitada de tempero. É mais do que vários outros títulos entregam, que costumam randomizar apenas o mapa e não trazem objetivos claros além de se expandir infinitamente. Com desafios lançados aqui e ali, uma partida livre de Base One pode entreter e oferecer o foco necessário para ficar olhando essa tinta secar.

O grande desafio da exploração espacial e seus mistérios merece um título mais sólido ou, pelo menos, com menos bugs. A fronteira final continua aberta, à espera de candidatos.

Ouvindo: Depeche Mode - Lie to Me

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