Retina Desgastada
Idéias, opiniões e murmúrios sobre os jogos eletrônicos
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12 de fevereiro de 2021

Seis Dias, Oitocentos Civis Mortos

O anúncio da ressurreição de Six Days in Fallujah sofreu uma guinada de 180 graus e admito aqui minha culpa de não ter analisado a questão mais a fundo. No que eu enxergava como uma tentativa idílica de transportar a realidade nua e crua da guerra para um público mais abrangente tem grandes chances de ser uma peça de propaganda projetada do zero para ocultar crimes cometidos pela coalisão militar liderada pelos Estados Unidos, em 2004, no Iraque.

A verdadeira Batalha de Fallujah foi o maior conflito urbano em que forças norte-americanas se envolveram desde 1968. Do ponto de vista da poderosa máquina militar ocidental, a perda de 95 soldados em um período de tempo tão curto como aqueles seis dias é um trauma histórico que precisa ser resgatado e exposto para a opinião pública. Entretanto, do outro lado do confronto, estima-se que as forças "insurgentes" tenham sofrido baixas que oscilam entre 1200 e 1500 combatentes. Se tais números parecem discrepantes, é porque evidentemente foi utilizado um poderio tático desproporcional que, em hipótese alguma, pode ser considerado heroico ou hercúleo.

Seria válido ignorar as motivações do inimigo, como o trailer do jogo tão claramente faz, vitimizando o soldado americano, invasor naquele território, e demonizando o "rebelde" local, como bem apontado pelo leitor Michel de Oliveira? Talvez haja justificativas para aquela luta, talvez o resultado a longo prazo seria muito pior se as forças americanas não tivessem levado a democracia a ferro e literalmente fogo para o solo do Iraque. Qual é o preço que se paga?

Em Fallujah, a Cruz Vermelha declarou uma contagem oficial de civis mortos em torno de 800, quase 8 vítimas para cada baixa norte-americana. Os números podem estar errados por larga margem.

A população recebeu orientação para abandonar a cidade .Antes da invasão anunciada, as forças da Coalisão despejaram panfletos sobre as ruas alertando que todo homem acima de 12 anos seria considerado um combatente e morto assim que fosse avistado. Ainda assim, tropas norte-americanas no controle dos arredores impediram a fuga da população masculina, permitindo somente a saída de crianças, idosos e mulheres. Ainda assim, um dos veteranos que participou daquela operação admitiu publicamente que sua unidade provocou a morte de centenas, incluindo crianças e mulheres.

Eddie Garcia, o suposto pai de Six Days in Fallujah, declarou textualmente na apresentação do jogo que o título é necessário para as pessoas entenderem "as escolhas difíceis que não podem ser compreendidas". Porém, ele não menciona o uso do fósforo branco em campo de batalha, ele não menciona as mortes de civis. Ele busca compreensão, mas esconde os fatos.

O uso de fósforo branco (conhecido pelos jogadores pelos horrores em Spec Ops: The Line, onde se torna uma poderosa ferramenta de impacto na consciência) é proibido por convenções internacionais. O produto químico pode ser utilizado como sinalizador ou fonte de iluminação, mas jamais como arma, muito menos contra civis. Entretanto, o exército norte-americano admitiu seu uso naqueles seis dias em Fallujah e em outras operações em uma guerra que nem devia ter existido.

Black Ops

Historicamente, a Batalha de Fallujah (que na verdade foi a segunda de uma "trilogia) foi iniciada em resposta ao massacre de um esquadrão de PMC. Para quem não está familiarizado com o termo ou não jogou a franquia Metal Gear Solid, PMC significa Private Military Company, ou empresa privada de soldados de aluguel. Traduzindo, o bom e velho mercenário, adaptado para uma era mais semanticamente correta. PMCs são frequentemente associados a práticas de crimes de guerra e não é incomum encontrar em suas fileiras ex-soldados expulsos de suas forças por comportamento inadequado.

Uma unidade de quatro PMCs da infame Blackwater Security foi emboscada, morta, mutilada e utilizada como peça de propaganda pelas forças insurgentes. Não é roteiro de Call of Duty, não é um filme com Kevin Spacey, mas um fato histórico. A retaliação veio pesada na forma de uma operação com que a maioria dos militares não concordava, motivada por questões políticas de Washington.

A imagem do governo norte-americano segue comprometida e existem possíveis ligações entre Peter Tamte, o principal responsável pelo desenvolvimento do jogo, e a CIA. Em 2005, a Atomic Games fazia parte de uma empresa maior batizada de Destineer, que possuía contratos de criação de simuladores militares para agentes de campo e tropas militares do governo norte-americano. Embora a Destineer tenha sido dissolvida e Peter Tamte tenha saído da Atomic Games, existe a possibilidade que ele tenha levado não apenas a expertise para o desenvolvimento de jogos parecidos como também os contatos comerciais necessários para financiar do zero um projeto desse porte.

Por razões óbvias, é extremamente difícil comprovar uma conexão desse nível e não me aventuro muito além nessa conjectura. Entretanto, o especialista nos bastidores da indústria dos jogos eletrônicos Daniel Ahmad desceu por esse buraco de coelho e também serviu como fio condutor para essa postagem.

Considerando o material divulgado até agora, é difícil imaginar que Six Days in Fallujah irá tocar nessas questões controversas e muito menos apresentar as tropas norte-americanas como criminosas de guerra. Afinal, foram "escolhas difíceis" e "é difícil entender como é realmente o combate" se você não estava lá. É necessário manter o respeito por todos os soldados que tombaram no cumprimento do dever, seguindo ordens até o final, em uma terra distante, e não cruzaram a linha do comportamento criminoso. Eles certamente estão entre as vítimas. Entretanto, por outro lado, é fácil imaginar o jogo servindo como uma justificativa que amenize uma culpa, que enxugue o sangue e acabe provocando o inverso do que eu imaginava: varrer para uma nota de rodapé nos livros de História uma batalha que os vitoriosos querem esquecer.

Ouvindo: Iron Maiden - Coming Home

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