Retina Desgastada
Idéias, opiniões e murmúrios sobre os jogos eletrônicos
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24 de fevereiro de 2021

Meu Nome é Ozymandias

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Se não há metas, qual é a meta? A pergunta que atravessa a maioria dos jogos de sobrevivência, nos atingiu em cheio em Outpost Zero. Enquanto meu filho contemplava a falta de futuro de um título abandonado pela desenvolvedora e pela comunidade, eu ali via um desafio. O nome dessa postagem deveria ser "Moto Perpétuo", uma ode ao triunfo da inteligência. Ao invés disso, temos aqui uma lição de humildade e da perenidade das coisas.

Conforme eu expliquei na análise completa do jogo, a garantia de vida em Outpost Zero é energia. Sem energia, nada funciona e seu protagonista morre. Acreditava eu que a chave para a imortalidade, sem sequer precisar entrar no servidor, seria conseguir uma fonte de energia infinita. Eu não queria apenas partir, abandonar o jogo, queria deixar um legado permanente para qualquer desafortunado que entrasse no servidor fantasma de um título esquecido.

Enquanto utilizávamos geradores a carvão, era necessário cortar árvores de forma intermitente e mantê-los abastecidos. Na teoria, os robôs são capazes de cortar continuamente e as árvores renascem continuamente. Entretanto, não estávamos conseguindo programar os robôs para transportar a madeira cortada até os geradores.

Resolvemos o dilema com geradores a petróleo. Meu filho criou três extratores automáticos que transportavam o óleo bruto por dutos que abasteciam sem intervenção uma rede de geradores. Eu criei a rede de postes que transportava essa eletricidade por todo nosso pequeno império.

Entretanto, tudo em Outpost Zero sofre um processo de decadência, seja natural e lento ou acelerado por fenômenos meteorológicos ou sísmicos. Precisamos então de um grupo de robôs cuja única função era consertar tudo, constantemente, 24 horas por dia, sete dias por semana.

Então, houve uma nova necessidade: piratas atacam nossas construções de tempos em tempos, assim como criaturas hostis podem cruzar o caminho de nossos robôs construtores. Foi necessário então construir uma rede de torretas automáticas de metralhadoras.

Porém, as torretas consomem uma quantidade razoável de munição. Foi necessário então ter um grupo específico de robôs para fabricar balas. Constantemente. 24 horas por dia, sete dias por semana.

Para fabricar essas balas, era necessário extrair outros dois recursos: ferro e sulfura. E tínhamos duas bases, com uns trezentos metros de distância entre elas. Uma era próxima de extratores de ferro. A outra era próxima de um extrator de sulfura. Então, eu construí trezentos metros de dutos levando ferro de uma ponta a outra e mais trezentos metros de outro duto trazendo sulfura no sentido inverso.

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O resultado eram duas bases, cada uma com dois conjuntos de robôs: um time consertando tudo e um time fabricando balas. As balas eram entregues em caixas de armazenamento conectadas a cada torreta de proteção.

Nossa(s) base(s) tinham mais energia que precisavam, cada torreta estava equipada com mais balas do que era necessário. Era o moto perpétuo, permitido pelo infinito respawn de recursos.

Uma vez que o servidor ficou inacessível por três dias, fiquei ansioso em descobrir se tudo estava correndo bem. A análise já estava publicada, mas minha obsessão em "vencer" o jogo era mais forte do que tudo. Quando finalmente entrei, notei que um dos robôs havia desaparecido. Não era um problema grave, uma vez que os times tinham robôs redundantes (sim, pensei nessa possibilidade) executando as mesmas funções.

Porém, ali estava a falha dos meus planos: os robôs não se consertavam uns aos outros. Sujeitos às mesmas intempéries que as construções, eles não eram imortais. Era apenas uma questão de tempo até eles pararem de funcionar e todo o resto desmoronar.

Levou menos de duas semanas para um outrora brilhante e bem arquitetada colônia se transformar em pouco mais que um piso metálico no hostil terreno de Gaya. O colapso final se deu antes mesmo dos robôs serem destruídos. Afinal, bastava um único poste parar de funcionar para toda a rede elétrica colapsar. Minha arrogância convertida em pesar, meus esforços sepultados na paisagem mais triste de todas.

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"Nada mais resta: em redor a decadência
Daquele destroço colossal, sem limite e vazio
As areias solitárias e planas se espalham para longe"

Percy Shelley

Ouvindo: Rammstein - Kuss Mich

2 comentários:

Davi Stanesco disse...

Survival é um gênero cansativo. Vc precisa inventar razões pra jogar e normalmente são bugados ou mal otimizados pro multiplayer, demandam tempo demais, etc. Joguei mto o Conan exiles, mas depois dele, nunca mais.

Bolívar D'Andrea disse...

Algum dia alguém vai encontrar os destroços dessa civilização antiga e pesquisar a respeito, pensando como era possível ter construído tudo isso.

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Blog criado e mantido por C. Aquino

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