Retina Desgastada
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18 de outubro de 2020

Jogando: The Survivalists

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(publicado originalmente no Gamerview)

Tom Hanks que me perdoe mas naufragar em uma ilha tropical e sobreviver por seus próprios méritos é uma fantasia explorada por diversos jogos eletrônicos. Até o Link já passou por isso (duas vezes, vale dizer). A diferença entre Tom Hanks, Link e você em The Survivalists são os macacos. Nenhum deles tinha macacos. Você tem.

A divertida aventura colorida da Team 17 Digital é mais um jogo de administração e gerenciamento de recursos programável do que um título de sobrevivência e essa diferença terá impacto na sua experiência.

Macacada Reunida

Você já deve conhecer a rotina a essa altura do campeonato. Seu personagem chega em um lugar inóspito com uma mão na frente e outra atrás, o estômago ronca. Batendo na árvore você extrai madeira, batendo na rocha você extrai pedra. Você junta algumas coisas, monta itens e estruturas, sacia a fome, derrota inimigos. No final de tudo, você expande. Quando menos percebe, você ergueu um império improvisado que faria Robinson Crusoé orgulhoso pra caramba.

Agora é o momento em que eu vou tentar convencer você que The Survivalists é um jogo diferente do parágrafo anterior. Não que haja algo errado na fórmula, por favor. Minecraft atingiu um nível de popularidade inimaginável dessa forma e foi merecido.

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Entretanto, em The Survivalists, nós temos macacos. Os habitantes originais da ilha em que você encalha farão toda a diferença mecanicamente e serão o motor que transformará o jogo não em um título de sobrevivência, mas em um exercício ocasionalmente frustrante de gerenciamento de tempo e recursos.

Conquistar a confiança de um macaco é simples, basta fazer seu prato favorito ou soltá-lo de uma jaula. A partir dali ele será seu servo pra vida toda, meio como os lacaios de Conan Exiles ou as feras domadas de Citadel: Forged With Fire, mas sem a parte de espancá-los brutalmente para seus propósitos nefastos. Não! Aqui é na camaradagem e na banana mágica que brota de seus bolsos (não pergunte).

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Estabelecida a lealdade do primata, você pode ensiná-lo tarefas. E, acredite, tudo muda em The Survivalists.

Cada Macaco no Seu Galho

Em teoria, você pode extrair seus próprios recursos no jogo. Picareta na mão, ou machado ou pá, você pode labutar como um condenado igual a trocentos outros títulos de sobrevivência. Porém, você é um Homo Sapiens. E o que os Homo Sapiens fazem? Dominam seu meio ambiente. E exploram outras espécies, mas, enfim, não falemos de moralidade aqui. É uma questão de sobrevivência do mais sábio!

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Quem tentar a rota tradicional dos jogos de sobrevivência vai se decepcionar com The Survivalists. Por exemplo, não há um inventário disponível para o jogador. Você possui um número limitado de espaços na barra inferior (como existe em diversos outros títulos), mas isso é tudo que você tem mesmo. O resultado dessa limitação é uma constante troca de itens entre seus baús, o chão e a barra de acesso rápido para fabricar componentes e itens.

É irritante, principalmente quando se está explorando a ilha e se encontra itens raros. O que fazer? Largar no chão aquilo que você estava carregando antes para pegar a raridade, voltar pra base, guardar e seguir viagem.

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Além disso, a produção em larga escala, algo tão comum na concorrência, aqui não funciona como deveria. Embora eu tenha tentado de diversas formas, é impossível adicionar, digamos, 100 pedaços de madeira de uma vez só em uma bancada para uso futuro ou encomendar 100 carnes assadas em uma única empreitada.

Aquelas 100 carnes que poderiam estar assadas, mas o sistema não ajuda, fazem falta na hora da fome, uma preocupação constante do jogo. The Survivalists coloca você no comando de um protagonista com estômago de passarinho, que até se satisfaz com pouco, mas sente fome a toda hora.

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Teorema do Macaco Infinito de The Survivalists

Com macacos treinados, o fluxo do jogo vira da água para o vinho. É possível, por exemplo, “programar” um macaco para extrair recursos, outro para catar tudo do chão e levar pras bancadas, outro para completar construção e pronto: você ganha uma linha de produção digna de Henry Ford.

Na prática, há modelos de fabricação mais eficientes lá fora em jogos de sobrevivência, que dispensam o uso de assistentes. Ainda assim, o charme de The Survivalists está em colocar essas “engrenagens” de cauda para funcionar e arquitetar esquemas de aprendizado que maximizem suas metas. Em teoria, com as ferramentas certas e o número correto de macacos, seria possível colocar uma ilha abaixo e transformar tudo em produtos manufaturados.

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Em outras palavras, The Survivalists está mais próximo de um Universal Paperclips do que de um Minecraft. É uma pena apenas que o sistema de aprendizado não esteja tão redondo quanto a Team 17 Digital poderia entregar. Selecionar o macaco certo em uma multidão para aprender determinada tarefa é confuso, principalmente porque a opção de trocar a cor deles não funciona.

Além disso, apesar de todos os meus esforços, não consegui ensinar nenhum deles a coletar recursos e guardar em baús e não consegui ensiná-los a carregar baús, embora o jogo ofereça tutoriais. Os macacos pegam itens guardados em baús quando bem entendem e às vezes preferem catar um recurso largado a cem metros de distância ao invés de pegar um próximo. Pelo menos um macaco bugou e começou a fazer uma pilha unificada de tudo, literalmente tudo, que estivesse no chão.

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Também é possível ensinar os símios a espancar criaturas hostis e andar com sua patota para cima e para baixo como o valentão da ilha. Esse esquadrão é praticamente essencial para explorar criptas com ameaças mais perigosas, porém, é sempre divertido ver os macacos passando o cerol em qualquer inimigo que olhe torto pra você sem dó nem pena. Ou não, talvez eu seja sádico, vai de cada um.

Lamentavelmente, meus macacos guerreiros esqueciam sua função entre uma sessão de jogo e outra e precisavam aprender tudo novamente.

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Macacos me Mordam

Para quem não se satisfaz somente com o trabalho de gerente de macacos, The Survivalists traz também bastante conteúdo para ser explorado em suas ilhas, com ruínas secretas, criptas, habitantes diversos e uma história a ser desvendada gradativamente.

Tudo isso é temperado com gráficos muito simpáticos, como já vimos em The Escapists. Contudo, nessa continuação involuntária, a Team 17 Digital tem acesso ao mundo aberto, longe dos cenários confinados de outrora e deixa solto seu talento nas artes visuais.

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The Survivalists se concentra demais em um grande truque, o que pode frustrar quem não entender ou não curtir o sistema de aprendizado imperfeito dos macacos. Aqueles que se adaptarem, entretanto, tem tudo para se tornarem reis do arquipélago e, eventualmente, encontrar uma forma de completar sua jornada.

Ouvindo: Legião Urbana - Plantas Embaixo do Aquário
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