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7 de outubro de 2020

Jogando: Projection: First Light

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(publicado originalmente no Gamerview)

A Wikipedia define teatro de sombras como " uma arte muito antiga de contar histórias e de entretenimento que usa bonecos de sombra. As imagens produzidas pelos bonecos podem ter diversas cores e outros tipos de detalhes. (…) Um marionetista ( pessoa que controlas as marionetes ou aquele que faz as marionetes ) talentoso pode fazer as figuras parecerem andar, dançar, lutar, acenar com a cabeça, cantar e rir". Nessa definição entra Projection: First Light.

Shadowplay Studios e Sweaty Chair Studio são esses "marionetistas talentosos" que conseguiram apresentar um delicioso jogo que também é um teatro de sombras, ao mesmo tempo que ilustram um pedacinho das lendas e folclores do sudeste asiático, berço da técnica ancestral, e mais culturas.

A Menina que Colecionava Borboletas

Projection: First Light segue as aventuras de uma menininha que é quase um desastre ambulante. Logo no início, ela se mete em altas confusões na sua cidade ao tentar capturar uma borboleta reluzente. Posta de castigo pelos pais, ela foge de casa e segue atrás da tal borboleta. É a premissa que a leva até as ruínas de um teatro de sombras e, a partir daí, sua jornada se torna definitivamente mágica, com aventuras por outras eras e locais do planeta.

No quesito história, não há muito o que se ver aqui. O fio condutor é tênue, a menina apenas segue em frente e pronto. A ausência de diálogos deixa o jogo universal, mas limita seu potencial narrativo. Em contrapartida, é o pano de fundo perfeito para uma grande viagem cultural e para trazer mecânicas inovadoras para os jogos de plataforma e puzzle.

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Projection: First Light simula um verdadeiro teatro de sombras e todos os seus personagens são silhuetas recortadas em branco e preto. Até as animações de movimentação reproduzem o que poderia ser obtido com marionetes, incluindo elementos do cenário que são posicionados por mãos invisíveis. Só esse visual charmoso já garantiria a conferida no jogo, mas o Shadowplay Studios e o Sweaty Chair Studio têm mais surpresas na manga.

A metáfora é aplicada também na principal forma de resolver os desafios em Projection: First Light . Posicionando uma fonte de luz no ambiente, o jogador pode criar diferentes tipos de sombras sólidas que irão ajudar a protagonista a alcançar locais que antes eram inatingíveis. As sombras projetadas também podem manipular outros elementos do cenário, inclusive empurrando objetos. O resultado dessas interações é uma jogabilidade prazerosa que deixa o jogador solto para escolher sua abordagem em vários momentos.

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A sanha de colecionar borboletas irá mover a menina, com várias delas espalhadas ou escondidas nos mapas, incentivando a exploração para quem compartilha da mesma obsessão. Por outro lado, não há um incentivo real para pegar todas dentro do jogo e me vi diversas vezes ignorando os lepidópteros apenas para seguir em frente. Embora jogos que exigem que você colete X objetos para desbloquear o próximo nível costumem exagerar na dose (e acabam se tornando muitas vezes motivo de frustração), a falta de um norte melhor em Projection: First Light depõe contra a experiência.

Problemas na Escuridão de Projection: First Light

O barco corre frouxo em Projection: First Light. Tudo bem que a proposta não é ser um novo Limbo e seu universo é bem mais suave, próximo dos contos de fadas. Ainda assim, um pouco de desafio cairia bem nessa jornada. Mesmo as borboletas mais distantes não são difíceis de se capturar.

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Em boa parte do tempo, o título está mais próximo de um "walking simulator" do que de um jogo de plataforma ou puzzle. Não há pulos complicados ou que cobrem reflexos do jogador. Tampouco existem enigmas que façam a massa cinzenta funcionar com mais força. Uma vez dominada a mecânica de gerar sombras, a jogabilidade flui muito naturalmente, sem tropeços ou impasses.

Um bom exemplo disso são alguns portões "protegidos" por NPCs. Em um deles, o seu guardião exige um peixe para fazer uma sopa para saciar a fome de menina. Imaginei que tinha deixado passar algum coletável no nível e precisaria refazer meu caminho. Entretanto, bastou recuar cinco passos e outro NPC me deu o peixe sem nada pedir em troca. Entreguei o peixe para o guardião, houve uma animação da interação e o portão se abriu para eu seguir em frente.

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Essas decisões acabam tornando cansativo um título que deveria ser divertido. Você já sabe o que precisa ser feito em cada situação e é apenas a execução, não a dedução, que se impõe como barreira. Uma vez que a própria execução também é tranquila, a travessia da menina que deveria ser épica vira, na verdade, um passeio sem emoções maiores.

Esse passeio se estende por vários cenários curtíssimos e passa uma sensação de o jogo ser mais longo do que precisaria ser para contar sua rala história ou nos apresentar seus mágicos reinos.

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Volta ao Mundo em 80 Luzes

Com o perdão do trocadilho, Projection: First Light brilha também em nos apresentar outras culturas e mitos. Podemos pensar nele menos como um "game" e mais como um "teatro de sombras" sem roteiro, um cartão de visitas para paisagens que não costumam aparecer por aqui, com elementos tirados das lendas de diversas civilizações. Nossa jovem protagonista prova um pouco da China, da Indonésia, da Turquia do passado, além da não tão exótica Inglaterra Vitoriana.

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Em cada uma dessas viagens, teremos contato com a arquitetura e o vestuário local, seremos ajudados por heróis famosos de suas respectivas culturas e teremos um conflito com vilões regionais também, sem nunca perder a leveza. Para atingir seus objetivos, os desenvolvedores tiveram o apoio do titeriteiro de sombras e historiador australiano Richard Bradshaw, que assegurou a autenticidade de seus elementos e mecânicas.

Shadowplay Studios e Sweaty Chair Studio se provaram mestres dessa nova arte e seu espetáculo tem tudo para agradar crianças de todas as idades, dos 8 ao 80, basta deixar a luz atravessar.

Ouvindo: Sinead O'Connor - Nothing Compares To You
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