Retina Desgastada
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8 de setembro de 2020

(não) Jogando: Postal 4: No Regerts

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(publicado originalmente no Gamerview)

O primeiro jogo da franquia era um exercício minimalista de sadismo puro. O segundo jogo era uma sarcástica resposta às críticas do primeiro. O terceiro jogo é execrado pelos fãs e pela própria desenvolvedora. O que nos leva a Postal 4: No Regerts, o mais recente capítulo de uma série que nasceu na polêmica, se criou na polêmica e busca um retorno… na polêmica decisão de viver do passado.

É extremamente questionável a visão da Running with Scissors em sua trajetória, oscilando na fina linha que separa os gênios dos medíocres. Por um lado, tínhamos duras críticas à sociedade norte-americana, uma paródia tão ácida que fazia Grand Theft Auto parecer um clube de escoteiros. Do outro lado, tivemos a apropriação dos seus valores justamente por aquela cultura que eles supostamente ridicularizavam, o que torna a série uma cínica glorificação da violência. Ou não. É complicado.

Você ama ou odeia Postal 2. A partir desta constatação, a desenvolvedora retorna ao título de 2003 com uma continuação direta da história, que ignora o terceiro jogo e toda evolução mecânica ou visual que os FPS tiveram nos últimos dezessete anos. "Sem arrependimentos", como informa o meme que funciona de subtítulo para esse episódio. Desta forma, Postal 4 é mais uma expansão do segundo título, o "terceiro" jogo que os fãs queriam, mas desenvolvido de forma tão tosca quanto suas piadas.

Depois de largar o inferno que se tornou sua cidade anterior, o protagonista do jogo vê sua casa móvel ser roubada. Sozinho na estrada, na companhia somente de um cachorro, que logo o abandona, Postal Dude está sem família, sem casa, sem armas e sem emprego. É hora de começar do zero.

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Nos primeiros metros de jogo, já é possível sentir que o motor gráfico tem um longo caminho pela frente. Há uma configuração no menu que ativa gráficos que beiram o aceitável "em detrimento da performance" e eu me pergunto porque essa opção não é ativada por padrão. Sem isso, Postal 4 é mais feio que bater na mãe, por fora e por dentro.

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A fórmula de Postal 2 é repetida aqui sem tirar nem por. Postal Dude precisa realizar tarefas cotidianas em um grande mundo aberto e, ocasionalmente, essas tarefas irão descambar para troca de tiros, explosão e gritaria. O que funcionava lá atrás não tem mais o mesmo apelo quase duas décadas depois e esse anacronismo é acentuado por dois fatos. O primeiro é que esse mundo é realmente enorme e atravessá-lo, a pé ou de "carrinho", é insuportavelmente chato. O segundo fato é que as tarefas são muito mais enfadonhas do que seria possível em um jogo eletrônico. Em quatro horas de jogo, se tive dez minutos divertidos, foi muito.

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Por enquanto, Postal 4: No Regerts está em acesso antecipado e possui apenas dois dias disponíveis. Começa nosso tormento.

Segunda-Feira

Postal Dude é interpretado pela lenda viva Jon St. John, dublador, radialista e eterno Duke Nukem. É uma das raras qualidades do jogo, ainda que sua caracterização soe demais como um Duke Nukem cansado de guerra. Ele merecia trabalhos melhores.

Enfim, Postal Dude anda por longos metros em busca de uma agência de empregos e passa por ruas sem encanto, por onde outras pessoas caminham. Não há muita interatividade aqui e esse é o mundo aberto mais insosso dos últimos anos. Em 2003, era relativamente inusitado um FPS em que você podia caminhar na direção que quisesse. Era quase uma novidade (embora Deus Ex ou mesmo o vetusto Strife já tivessem quebrado essas fronteiras). Em 2020, aquilo que se espera de um mundo aberto está em outro patamar.

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Na agência de empregos, constatamos que não há muitas possibilidades de trabalho para um homem de meia idade, de roupão e pijamas. Ainda assim, o jogo nos oferece três atividades e uma quarta missão aparece na cidade.

Escolhi começar capturando gatos e cachorros para levar para uma van suspeita em uma garagem. A piada é essa: é uma van suspeita que certamente transforma os animais perdidos em comida. Eu entendi na primeira vez em que atraí um doguinho para a rampa automática. Ainda assim, Postal 4 me faz perder preciosos minutos procurando 5 gatos e 5 cachorros pelo cenário e depois levando-os um a um para o mesmo veículo. Não há um desenvolvimento posterior da piada. Entrego os bichos e é isso.

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Felizmente, há uma missão surpresa bem em frente: o quartel-general dos bombeiros está em chamas. A piada é essa. O fino da ironia. Não entramos no prédio, mas o circundamos com uma mangueira acoplada em hidrantes e jogamos água através das janelas. Umas cinco ou seis janelas. E é isso também.

Mais uma longa caminhada até chegar em uma das pontas da cidade e aceitar outro subemprego, desta vez no esgoto. A última coisa que alguém espera de Postal ou mesmo de qualquer jogo eletrônico é vagar por um labirinto sujo trocando lâmpadas queimadas, mas é o que tem disponível. Finalmente, há rompantes de violência e sou atacado pelos ratos mais mal modelados desde o advento das placas 3D. Também fui forçado a limpar dutos entupidos. Pelo cenário, você consegue imaginar o que estava entupindo os dutos. Depois de bater com sua pá na matéria fecal, a água irrompe e você é banhado em sujeira. Que hilário. Repita mais cinco vezes. Ao final da minha turnê sanitária, fui apresentado a uma sequência de plataforma sobre uma área inundada, algo que deve ter sido catado da lixeira do primeiro Half-Life.

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Antes de terminar as tarefas do dia, decidi "experimentar" um pouco. Puxei uma arma na delegacia e comecei uma balbúrdia dos infernos. Talvez eu esteja jogando errado? Talvez a história não seja para ser seguida e tudo que a Running with Scissors fez foi um grande parquinho temático de subúrbio violento, certo? Não exatamente.

É claro que começar uma treta na delegacia é garantia de morte e meu Postal Dude foi apagado. Ao renascer no mesmo lugar, a polícia não está mais no meu encalço, mas o local continua em "lockdown", com as saídas trancadas e um alarme irritante nos ouvidos. Eu preciso explorar a delegacia para desativar o sistema, o que me leva a novos embates contra uma inteligência artificial que avança na minha direção como lemíngues armados. Ativo os computadores necessários, as portas não abrem. Mato mais alguns guardas, as portas abrem com uma mensagem de "lockdown desativado". Foi um erro? Sim. Doravante, toda santa vez que eu entro na região da delegacia do mapa, eu ouço a mensagem de "lockdown desativado". Valeu a pena? Não.

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A última tarefa do dia é do outro lado da cidade. Minutos e mais minutos, com duas telas de carregamento no meio, chego na prisão local. Por incompetência do meu chefe, há uma fuga em massa e o primeiro momento real de FPS da campanha de Postal 4. O jogo te oferece a opção de usar um bastão eletrificado para atordoar os prisioneiros, a tática clássica de tentar te convencer que é você que traz a violência para dentro da franquia etc etc. Entretanto, imagino que os desenvolvedores estavam me oferecendo metralhadora, escopeta, molotov, revólver e outras traquitanas desde o início da aventura por algum motivo. Largo o dedo nos vagabundos, porque é Postal, afinal, mas o tiroteio é tão travado que há pouco para se apreciar aqui também.

Uma cutscene bacanuda e terminamos a segunda-feira.

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Terça-Feira

A terça-feira me manda para o México. É a desculpa para a desenvolvedora destilar também alguns clichês latino-americanos nas ruas e nas casas. Eu também tenho, por algum motivo, que multar carros estacionados irregularmente. Preciso multar 20 veículos para cumprir meu "serviço comunitário". Se há 20 carros parados no jogo todo, é muito. De forma irregular, só encontro três, mas não estou mais me importando.

Há um muro enorme separando os Estados Unidos do México (entendeu a brilhante referência?). Uma das minhas atividades do dia é usar um estilingue gigante para arremessar imigrantes ilegais por cima do muro, sem chamar a atenção dos guardas da fronteira. É outro mini-jogo que dura mais do que deveria. Ainda assim, confesso que esbocei um sorriso pelo absurdo.

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Uma nova tarefa envolve grafitar outdoors em um povoado indígena. Os motivos me escapam porque o jogo não tem legendas e o sotaque prejudica meu inglês de ouvido. Finalmente, há mais tiros no FPS: um grupo de ativistas dos direitos indígenas tenta me impedir, com armas de fogo em punho. Esses ativistas usam uma blusa com um floco de neve estampado. Nossa! Que genial! É uma repetição dos constantes confrontos violentos com grupos anti-violência de Postal 2, desta vez com uma nada sutil provocação em cima dos chamados "snowflakes".

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A última tarefa da minha lista é a primeira vez em que vejo um lampejo de genialidade em Postal 4. Ao ponto de eu decidir não contar pra vocês. Depois de muito caminhar (é claro), descubro um segredo na loja de animais e sou brindado com uma subversão da jogabilidade que não tem nada a ver com armas ou tiros, mas é genuinamente divertida.

Esse segundo dia foi adicionado recentemente ao jogo. Não muda nada do que já foi visto antes. É uma "skin" de México por ruas igualmente insípidas. Não acredito a essa altura do campeonato que Postal 4 tenha qualquer chance de salvação, de ser uma atualização da série. A receita do segundo jogo está estagnada no passado.

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Um comentário:

Diogo Batista disse...

Eu estava bem empolgado com a chegada de Postal 4, mas depois de ler suas impressões, acho que deixarei para lá por um tempo. Ótimo texto, C. Aquino

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