Retina Desgastada
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3 de setembro de 2019

(não) Jogando: RAD

rad(publicado originalmente no Gamerview)

Ah, os anos 80. Quem era adolescente entre 1981 e 1990 certamente tem agora quase seus cinquenta anos. O tempo voa e essa turma está no comando do mundo pop, o que explica a invasão de jogos, livros, filmes, desenhos e outros artefatos culturais referendados na década mais colorida do século passado.

RAD é mais um jogo que veste a carcaça moribunda do saudosismo para disfarçar sua falta de conteúdo e se mutaciona para nos apresentar uma única proposta original, que infelizmente não sustenta a aventura por muito tempo.

Os Mutantes

No universo de RAD, o nosso planetinha foi assolado não por um apocalipse, mas por dois. E não estou falando dos anos 80 propriamente ditos e seu revival. Estou falando da boa e velha hecatombe nuclear, seguida de uma tentativa frustrada de reconstruir a fauna e a flora do planeta, que gerou aberrações mutantes que agora dominam a terra devastada. Apenas uma colônia de adolescentes radicais e descolados sobrou para chamarmos de Humanidade e esses moleques rebeldes vestidos em cores berrantes serão enviados um a um para fora da colônia, para morrer ou conseguir recuperar o McGuffin da vez que irá salvar a colônia.

Morrer, aliás, é o novo verde limão, a moda do momento. Entenda: RAD é um roguelike, o que significa que você não deve se apegar a seu personagem, por mais legal que seja seu penteado arrepiado, suas roupas com ícones oitentistas ou sua atitude, digamos, radical. Seu personagem vai morrer, seu personagem seguinte também vai morrer, assim em um longa sucessão de mortes juvenis que desbloqueiam itens que deveriam ser bacanudos mas apenas aumentam as chances de sobrevivência do próximo "voluntário" no mínimo possível para que nem todo mundo se sinta frustrado. Tenho certeza de que em algum canto desse planeta há alguém que se sente instigado por esse matadouro.

Entretanto, RAD não é apenas uma referência à gíria "radical", mas também um trocadilho maroto com "radiação", a principal mecânica do jogo da Double Fine. Seu personagem não vai apenas morrer, ele irá sofrer mutações drásticas a partir da quantidade de radiação que ele absorve ao longo de sua aventura. Você poderá colocar ovos por uma cauda, que geram filhotes seus que funcionam como soldadinhos. Você pode ter um crânio flamejante que você mesmo arremessa de forma explosiva contra seus inimigos. Seu braço pode virar um bumerangue de osso que faz dano na ida e na volta. As variáveis são muitas e regidas pelo acaso, sendo complementadas por mutações internas que não tem efeitos visuais mas conferem habilidades menores, como visão de Raio-X para itens, maiores chances de dano crítico ou um coração extra (que dá mais vida, obviamente).

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Sim, é possível acumular mutações.

Esperar pela próxima mutação é quase como uma loot box gratuita, para ficarmos em uma comparação moderna, ou abrir um pacote de figurinhas, se quisermos bater de novo na tecla da nostalgia. É a grande graça do jogo, torcer para conseguir algo de útil que se adapte ao nosso estilo de jogar e permita ampliar a sobrevivência de nosso pobre adolescente. O combate em si, apesar de um ou dois combos disponíveis, é bastante limitado e pouco fluido e serão mesmo as mutações que farão a diferença entre uma sessão curta ou uma mais longa. Nem sempre a sorte sorri para os audazes.

Festa Ploc

A Double Fine foi bastante inteligente ao adicionar esse verniz oitentista ao jogo. E bastante talentosa também, vale dizer. O narrador retumbante lembra os programas de variedade da década, as cores berrantes estão de acordo com o que minha memória guardou e a trilha sonora minimalista completa o ambiente e nos remete aos filmes de apocalipse classe Z que infestavam a televisão naquela época.

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Esse banheiro precisa de uma reforminha!

Um efeito gráfico emula os monitores CRT, com linhas na tela e uma leve distorção nos cantos. Você pode desativar quase tudo isso, mas RAD perderia o pouco charme que tem. Você teria um roguelike muito parecido com diversos outros, com um combate fraco e uma evolução bastante lenta. Abrace os anos 80 e se jogue na pista, de preferência mascando chicletes, e aprecia as ruínas de uma civilização que parou no tempo.

Não espere rigor histórico ou estético, entretanto. RAD é um cosplay mediano de uma era, para não dizer uma caricatura, um protótipo de série animada que certamente seria rejeitada em uma década que pariu absurdos como "Jayce e os Guerreiros do Espaço" ou "Thundarr o Bárbaro" (que se levavam à sério e conseguiam ser mais pé no chão do que RAD). Temos aqui a vitória do estilo sobre a substância.

Reprise Matinal

Suponhamos que seja possível remover as referências de RAD, o que sobra? Cenários repetitivos, dificuldade galopante ditada pela aleatoriedade hostil, simplicidade de mecânicas que não ajudam a superar os obstáculos.

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Parabéns, você desbloqueou uma área igual à anterior

Considerando-se que o planeta foi atingido por dois cataclismos e seu personagem esbarra com criaturas bizarras e desenvolve poderes esquisitos, era de se esperar que o território fosse, no mínimo, inusitado. O que encontramos são mapas gerados proceduralmente dentro de uma variedade de opções muito limitada. Ruínas, poços de ácido radioativo, flora estranha, tudo se repete quase infinitamente, formando um todo homogêneo. Se sobrou criatividade nos habitantes, falta nessas terras.

Esse é um problema ainda mais acentuado pelas passagens subterrâneas obrigatórias ligando os fragmentos de terreno. Temos aqui longos corredores cimentados muito parecidos entre si e seu personagem precisará passar por alguns desses ambientes mais de uma vez para desbloquear o próximo mapa. É frustrante atravessar batalhas mortais para chegar em uma região que lembra muito a região anterior.

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Eu já não passei por aqui antes? Ou foi em outra encarnação?

A dificuldade exacerbada pode afastar muitos jogadores, que poderão chegar, com razão, à conclusão de que RAD não vale o esforço. Para os jogadores mais, digamos, radicais, aqueles com a sorte cósmica de ter as mutações certas alinhadas em sua sessão, capazes de decifrar os movimentos dos grandes chefes seja por intuição ou por tê-los enfrentado dezenas de vezes em sessões repetidas, para esses jogadores, RAD reserva uma campanha incrivelmente curta.

Embora haja elementos novos que possam ser desbloqueados a cada vitória, não se configuram como incentivo para se tentar explorar tudo que os dados podem rolar em RAD. O resultado final é uma cansativa viagem nostálgica, que seria melhor satisfeita com um punhado de VHS ou um bom disco do B-52s.

Ouvindo: Marvel Pinball - Iron Man - Vortex Beam Theme
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